SETEMBRO AMARELO: Quando a vida pede uma segunda chance

Em alusão ao Setembro Amarelo preparamos uma reportagem especial para mostrar que a vida pode ter sentido e valor apesar de todos os problemas.

Sabe aquela pessoa que sempre acorda linda, sorridente e cheia de disposição? Pois é, essa pessoa não existe! Talvez você a encontre em algum filme de comédia romântica, mas na vida real não. Mesmo as pessoas mais lindas, ricas e bem sucedidas terão aquele dia de cão. Entre as quatro paredes de casa ninguém mais sabe as dores e as aflições que cada um carrega.

Todas as pessoas no mundo passam por problemas e todos precisam de apoio e ajuda. Porém, parece que ter um dia ruim se tornou um crime mortal. ‘Você não tem motivos para estar assim’, talvez este seja o primeiro julgamento que se ouve da própria consciência. O amanhã é sempre um novo dia. Porém para alguns o amanhã nunca chega, e acaba se tornando um dia distante e inalcançável.

O sentimento de tristeza pode se desencadear por diversos motivos. Mas independentemente do porquê, quem passa por isso pode se sentir um inútil quando olha para alguém ao redor e acredita que o outro é mais forte. A falta de identificação o leva a pensar que é a pior pessoa do mundo. “Que droga de pessoa eu sou que não consigo lidar com a minha dor? Por que ele consegue ser feliz, superar e eu não?”, pensam alguns. O que realmente pensaalguém que tem um problema emocional? Conversamos com uma pessoa que passou por um período longo de depressão e chegou a tentar suicídio aos 20 anos. Confira um breve relato desta história de superação.

T.D., foi uma adolescente não muito fácil, com poucos amigos, mas havia um que era muito especial, aquele com uma ligação inexplicável. “Ele era a única pessoa que me entendia. Ele via algo bom em mim e sempre tentava me ajudar”, relembra ela que na época tinha 18 anos. Mas inesperadamente ela perde o amigo e se vê se chão. Como reagiu? Ela conta:
“Eu desabei, eu não sabia lidar com a frustração. Eu recebi o apoio da minha família e a partir daí comecei a melhorar minha relação com eles. O tempo passou e eu não consegui superar. Dentro de mim aquela perda ainda me martirizava. Mas o meu problema foi além do luto. Durante um ano eu vivi minha vida no modo automático e eu não lembro de nada. No ano seguinte, em 2016, foi ainda pior, eu cai em depressão total. Nesse tempo minha maior conquista do dia era sair da cama. Logo depois minha família se mudou para uma cidade menor, o que piorou minha situação. Eu não conseguia sair do quarto. Eu me recusava a ir em busca de ajuda”.

Uma semana após completar 21 anos, T.D. começou a cogitar a possibilidade do suicídio. “O que eu vivia dentro de mim eu não aguentava mais. Queria matar o que eu estava sentindo. Quando você decide tirar a vida é porque nada mais vale a pena”, relata. Ao tentar realizar o ato foi impedida por órgãos de segurança. Neste período ela relembra uma conversa muito significativa que teve com a mãe. “Minha mãe sentou comigo na sacada de casa e disse: Eu não sou perfeita, eu fiz tudo que eu pude. Às vezes eu também não sei o que fazer. Ela validou tudo que eu estava passando. Eu vi que minha mãe era como eu, que também tinha suas inseguranças. Parecia que todo mundo apenas me julgava. Para a pessoa que está de fora aquilo não é nada, mas para a pessoa que está vivendo é inexplicável”, afirma.

A partir daquele momento de reflexão sobre suas ações, T.D. decidiu que iria mudar e lutar pela vida. Aos poucos foi se recompondo, mas jamais imaginava que logo aconteceria algo que colocaria seu estado emocional novamente a prova. Durante o processo de recuperação ela conheceu alguém muito especial que havia passado uma situação semelhante. “Em 2018 me mudei, fui morar sozinha e comecei a trabalhar. Estar envolvida com aquilo me deixou ocupada e animada. Quando eu estava melhor conheci alguém e nós incentivávamos um ao outro”, relembra. Estava tudo indo muito bem, mas no início de 2019, de maneira inesperada ela perde essa pessoa para o suicídio. “Não era real para mim. Eu fiquei alguns dias em negação. Eu senti tudo novamente, a tristeza e a depressão voltaram”, afirma. No entanto dessa vez foi diferente. Ela decidiu lutar todos os dias com a motivação renovada. “A dor que eu senti com a morte dele, me fez ver que se eu desistisse da vida eu iria provocar essa mesma dor na minha família. Isso me deu base para entender que a vida vai trazer momentos difíceis, mas você precisa levantar todos dias e muitas vezes a contra gosto. Temos que viver apesar do que nos acontece. Nem sempre tomamos decisões por nós, viver pelas pessoas é um motivo para viver, deixamos de focar só em nós”, reconheceu.

Mais forte, hoje ela tenta ver a vida com outros olhos, comprometida em ajudar e alertar quem convive com pessoas com problemas emocionais, pois, por experiência própria ela sabe que o apoio é essencial. “Quem convive com essas pessoas não precisa ficar se fazendo de forte o tempo todo e desvalidar a dor do outro. Demonstre para os filhos que você tem medo, que você não quer perde-lo. Diga para ele que ele vai fazer falta. A pessoa quer saber que ela é importante para alguém. Deixe a pessoa saber que você respeita o que ela está passando. Quando alguém diz que o que a gente sente é frescura, ou quando fala que viveu experiências piores e não morreu, a gente pensa que não sabe viver, que é inútil e que não tem capacidade. Somos obrigados a ser fortes todos os dias. Hoje eu me dou o luxo de falar que eu não estou bem. Se permita sentir o que você está sentindo. No final das contas você percebe que não é só você que passar por momentos difíceis e temos que nos reconstruir e eu me reconstruo todos os dias”, conclui T.D.

Esta é a experiência de T.D, nem todos passaram pelos mesmos problemas que ela, mas certamente o que ela sentiu muitos também já sentiram. O vazio, a dor inexplicável e a falta de esperança são fatores desencadeantes para problemas maiores e o pensamento suicida. Falar sobre este tema é imprescindível para que as pessoas possam ser esclarecidas e tentem ajudar o outro numa situação difícil, conforme explica a psicóloga Gleice dos Santos. “Pensar na morte é algo comum, a diferença é o quanto isto está doendo a ponto de eu planejar algo. A dor é muito forte que a pessoa nem consegue explicar. É preciso falar e desmistificar esse assunto para que possamos mudar os padrões. Para algumas pessoas é mais difícil ressignificar a vida e para outras é mais fácil. O ser humano é muito subjetivo, cada um tem uma forma de funcionamento. Desde cedo somos acostumados a colocar máscaras em nossas emoções e por isso não podemos chorar nem falar sobre a dor. Mas não é assim que tem que ser. Expressar as emoções nos ajudam a experimentar uma saúde mental melhor. Conter essa emoção pode ser ainda pior, pois pode potencializar gerando um transtorno emocional”, alertou Gleice.

O que pode ser de ajuda é o ouvido amigo. A psicóloga reforça que além dos cuidados profissionais, todas as pessoas podem ser um auxílio para quem precisa. “Um familiar ou um amigo podem dar o apoio para alguém que passa por problemas emocionais, mas isso sem julgamento. Elas precisam de alguém que estenda a mão, não que a julgue. Se não souber o que falar apenas ouça”, aconselha.

Neste mês de setembro, mês da campanha do Setembro Amarelo lembre-se que você pode ser um sol na vida de alguém. Durante este mês a Administração Municipal em parceria com o Rotary Club, Rotary Centro e Casa da Amizade estarão realizando atividades que abordam a valorização da vida. “A vida pode ter sentido apesar das dificuldades que encontramos no dia a adia. A gente pode fazer diferente, podemos resinificar as coisas”, garante a psicóloga.

*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1692 de 02 de Setembro de 2021.

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