Contadores de histórias se reúnem para resgatar e documentar a cultura popular camponovense. Encontro reuniu convidados de Benito Zandoná e membros da sociedade camponovense envolvidos na história do município.
Entre os contadores estavam Nadir Fachin, o músico Paraguai, seu Bastião Sampaio, Luiz do Pandeiro, Tião Stefanes, Bastião Di Domenico e Júlio Granzotto. Entre as histórias narradas, foi contada a de São João Maria, que buscava um lugar para passar a noite, chegou em uma fazenda onde uma mulher abatia algumas galinhas e lhe negou auxilio. São João Maria seguiu seu trajeto e encontrou em uma propriedade humilde, aconchego e alimentos. Segundo o conto, a mulher que negou ajuda ao beato sofreu nos dias seguintes com a baixa no rendimento de suas aves, enquanto a família que lhe ofereceu auxilio, viu a produtividade de suas galinhas aumentar consideravelmente, se tornando uma fonte de renda.
Outra história relatou casos de lobisomens na região, onde uma comunidade sofria com o desaparecimento de porcos no período de lua cheia, sendo que foi feita uma armadilha e no dia seguinte um homem foi encontrado no local, pendurado e nu. Outro causo relatado na roda dos Contadores de Histórias, destacou o estrago causado pela tropeada de mais de 100 cabeças de gado no centro de Campos Novos que danificou veículos, sendo que uma novilha entrou na perfumaria O Boticário. No dia seguinte um homem que sofreu prejuízos, foi até o juiz denunciar o estrago e recebeu a seguinte resposta da autoridade: “Na próxima tropeada me avise que eu irei junto”.
Para um dos coordenadores do Galpão Crioulo, Tião Stefanes, o tradicionalismo gaúcho também faz parte das origens da cultura local. “Hoje em dia a cultura gaúcha vem tomando grandes proporções diante da nova geração acostumada com a internet. Quando se vê um carro de luxo exclusivo na cidade passar em frente de uma escola, você vê duas ou três crianças no muro olhando o carro. Experimente passar a cavalo e pilchado, você reúne praticamente todas as crianças no muro”, exemplificou.
Em relação ao Projeto Teatro Circula-Dô, o coordenador Márcio Machado, ressalta que o registro preserva a cultura popular. “Até agora nós sentimos em várias localidades que nós estivemos a cinco anos que perdemos algumas pessoas no caminho, pessoas que faleceram, pessoas de mais idade contadores de histórias, benzedeiras, trovadores, cantadores e poetas, é todo o conhecimento de cultura popular que é transmitido de forma de tradição oral, centrado no indivíduo, na sua personalidade. Quando você perde uma pessoa dessa cidade toda uma fatia da história se vai. Então é muito importante essa questão do registro da cultura popular, da valorização e reconhecimento dessas pessoas em vida porque um contador de história ele traz alguns traços, ele tem uma memória literária, esses elementos de cultura popular que são importantes para a formação de todo mundo que nasceu acima da Serra”, lembra Márcio.
Marcio ressalta também que nesse ambiente da escola que está crescendo dentro de uma tecnologia nova que vai mudando a cada dia, trazer um elemento de memória antigo para fazer essa união e encontro de gerações das pessoas mais velhas com as pessoas mais novas, é fundamental. Ainda segundo o coordenador, foi optado pela área rural porque geralmente é lá que são os mais desprestigiados das ações culturais, além de se identificarem nessas comunidades os traços mais fortes da cultura popular, onde estão as benzedeiras, antigas parteiras, entre outras pessoas importantes para o registro e preservação da cultura popular. Um exemplo é que ainda existem comunidades que fazem a encomenda de almas que é uma tradição bem antiga de sexta-feira santa, em que pessoas se reúnem em cantos e visitam as casas, também tem a festa do divino que algumas comunidades mantém.
Questionado sobre a escolha do Galpão Caipora viu para encerramento do projeto, Márcio ressalta o registro que Benito Zandoná preserva.“ Benito é um historiador nato, então encontrei um ambiente não acadêmico nem oficial com um acervo rico como o dele, nós já estamos conversando há um bom tempo porque ele também é uma pessoa influente dentro da cidade, conhece essas pessoas que são os contadores de história e seria o momento perfeito você está rodeado de tanta história, trazer os contadores aqui para dentro fazer uma roda de memória de tradição oral e para encerrar o projeto”.
Pelo projeto, está sendo produzido um almanaque de cultura popular que será distribuído em todas as escolas atendidas, bibliotecas, faculdades e universidades, além do material impresso que o projeto prevê e registros digitais que vão ser disponibilizados através dos canais de vídeo, de redes sociais e mais a proposta de um projeto piloto de documentário.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1494 de 31 de agosto de 2017.
