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Jovens camponovenes assumem riscos e apostam no empreendedorismo

Necessidade ou vocação? Por que jovens tem assumido cada vez mais cedo a chefia do próprio negócio?

Há alguns anos a maioria dos jovens era incentivada a concluir os estudos a fim de se habilitar para o mercado de trabalho. Por anos o sonho de muitos era conseguir ter a carteira assinada ou uma vaga no serviço público. Este modelo ultrapassado de ‘sucesso financeiro’ tem sido substituído pelo desejo de ser dono do próprio negócio para conquistar a independência financeira. O empreendedorismo, antes exercido por uma faixa etária mais velha, hoje tem atraído cada vez mais pessoas jovens que assumem o desafio de se lançarem como chefes de si mesmos. Qual será o motivo desta imersão juvenil nos negócios? São inúmeros motivos, alguns tomam a decisão por paixão e vocação e afirma que o empreendedorismo é um dom. Outros o fazem devido as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho. Independente do motivo, o empreendedorismo tem sido uma alternativa para o sucesso. Até mesmo as escolas tem assumido o papel de fomentadora desta característica nos alunos para que eles não se vejam dependentes de empregos formais.

Com a mente mais aberta, os mais jovens apresentam muitas características que dão vida a seu negócio, a inovação é uma delas. O Sebrae fez uma pesquisa com jovens empreendedores e destacou este ponto. Segundo o levantamento os jovens empresários tendem a ser mais inovadores. Para 16% dos donos de negócios com até 24 anos as tecnologias, recursos e ferramentas disponibilizadas pelas suas empresas surgiram a menos de 1 ano. Esse percentual é bem maior que o verificado nos empresários com idade de 25 a 34 anos (9%), bem como dos empreendedores com mais de 35 anos (8%).
Muitos jovens camponovenses tem se destacado e alcançado o sucesso como empreendedores. Eles são unanimes em afirmar que não é tarefa fácil, mas os motivos que levaram cada um a apostar no negócio próprio foram bem diferentes. O jornal O Celeiro conversou com quatro jovens empreendedores de Campos Novos que falam sobre os desafios e oportunidades que encontram diante desta realidade que assumiram. Conheçam um pouco da realidade dos empresários Ana Kantovick, do ramo da moda, Antônio Chiocheta, do ramo da hotelaria, Patrícia Dalmolin, do ramo alimentício, e Thiago Fagundes, do ramo da advocacia.

Confira a entrevista

OC: Antes de ser um empreendedor quais eram suas perspectivas profissionais?

Ana Kantovick

Ana Kantovick: Os empreendedores são antes de tudo, subversivos naturais. Porém, antes de empreender, como qualquer pessoa normal eu questionei se este era o melhor caminho. Por isso trabalhei em diversas áreas, como marketing, vendas e inclusive cheguei a me formar em Direito e estagiar na área, mas logo percebi que meu caminho era mesmo o mundo dos negócios e então juntei minhas duas paixões, a moda e a natureza aos conceitos inovadores e segui o caminho que me levou até os dias atuais.

Antonio Chiochetta: Penso que não nos tornamos empreendedor, nascemos com o empreendedorismo na veia. Desde cedo trabalhando ao lado do meu pai, estimulado pela continuidade dos negócios da família fui buscar qualificação profissional. Em 2012 formei em Turismo e Hotelaria/UNIVALI, logo em 2014 especialista em MBA Gestão Empresarial/FGV. Neste período, tive a oportunidade de trabalhar no setor público e privado como gestor, foi o que me preparou para empreender nas diversas áreas do turismo, bem como a hotelaria, gastronomia e eventos.

Patrícia Dalmolin: Formada há 10 anos em Design Gráfico já tive minha própria agência por 4 anos e estava até 2019 trabalhando como Freelancer em casa. As perspectivas para essa área na nossa cidade são pequenas visto que o mercado é muito fechado e as pessoas não veem que apostar na imagem da empresa é um investimento.

Thiago W. Fagundes: Desde o início pensei em empreender em algo, mas não imaginava que seria tão cedo, ou até mesmo sozinho, pois imaginava entrar de sócio com alguma porcentagem mínima que fosse, e ajudar o negócio a crescer.

OC: Como surgiu a ideia de ser dono do próprio negócio?

Ana: O movimento para ter meu próprio negócio foi natural, ao contrário da maioria dos empreendedores, eu não empreendi para solucionar um problema meu, mas por visualizar o segmento da moda diferente daquilo que encontrava nas ruas. No meu caso, foi mais uma questão de “alguém precisa fazer isso” e eu comprei a ideia e resolvi ser a pessoa que faria isso. Percebia que o setor tinha uma lacuna relacionada à sustentabilidade e responsabilidade ambiental e que havia algo inexplorado e uma grande necessidade social neste sentido.

Antonio Chiochetta

Antonio: O segmento da hospitalidade sempre foi minha maior motivação, gosto de receber as pessoas, conviver em sociedade e dividir conhecimento. Foram muitos negócios, todos na cadeia do turismo. As oportunidades locais foram surgindo e com elas fomos colocando em prática junto com conhecimento técnico adquirido.

Patricia: Durante um longo tempo brincava com a ideia de que um dia teria uma cafeteria. Gostava do conceito e sempre visitava cafés nas viagens que fazia. Durante uma crise pessoal, surgiu a ideia/necessidade de ter um novo proposito, uma nova motivação. E daí surgiu todo o projeto e conceito do Town Café Bar

Thiago: Trabalhei cerca de 3 anos em um escritório que era pequeno, comecei como estagiário e fui crescendo lá dentro conforme o escritório também crescia. Até que um dia sai de lá resolvido a abrir meu escritório de qualquer forma. Sendo assim, abri o escritório em sociedade, no qual ele ficou de sócio por três anos, nos damos bem até hoje, mas desde o início minha ideia de negócio era ser um diferencial no mercado, foi aí então que em janeiro deste ano resolvi ficar com o escritório sozinho.

OC: Vc considera o empreendedorismo uma opção ou uma necessidade diante do atual mercado de trabalho?

Ana: Acredito que as duas coisas. Os empreendedores natos sempre vão existir, mas isso não quer dizer que seja algo que não possa ser desenvolvido. Acredito ser uma grande alternativa para superarmos o momento atual e creio que quanto mais as pessoas forem encorajadas a buscarem seus próprios caminhos, mais poderemos crescer. Novos negócios, mais cabeças pensando e mais mãos movendo a economia, significa mais diversidade, novos caminhos e novos rumos para o mercado, e apesar do cenário atual, diversidade e pluralidade em cenário algum são uma opção ruim. Então, creio que é uma necessidade de sobrevivência, mas também uma grande oportunidade de novos líderes emergirem.

Antonio: Sim, o reinventar sempre fez parte dos meus negócios, na cadeia do turismo não existe um padrão formatado, pois trabalhamos com hospitalidade e diretamente com pessoas. O sol nasce para todo o mundo e as oportunidades estão para todos, empreender sempre foi uma necessidade, sempre tem alguém que precisa comprar, vender ou consumir alguma coisa.

Patrícia Dalmolin

Patricia: Sinceramente, hoje, digo que se você tem um bom emprego e gosta do que faz, continue dando o seu melhor e que talvez empreender será apenas uma opção. Ser dono do próprio negócio não é moleza, na verdade são desafios diários, muitas responsabilidades e obrigações e não é pra qualquer um. Você precisa abdicar de muitas coisas, deixar de lado a família, o lazer e quase nunca ter tempo livre. Já se você se encontra desempregado ou fora da sua zona de conforto, empreender torna-se uma necessidade e você precisará traçar uma estratégia e se reinventar em algo que você descubra que tem potencial e se dedicar a fazer.

Thiago: Eu acho que o empreender virou uma opção em meio o desemprego. Mas até pelo nosso propósito de serviço, gosto de chamar atenção para pessoas que começam no embalo, sem um plano de ação, procurem uma pessoa especializada no assunto para lhe assessorar, não importa o tamanho do negócio, porque empresa que começa errado não acaba bem.

OC: Quais são as principais vantagens e dificuldades do empreendedorismo?

Ana: A principal vantagem é na minha opinião, também o maior desafio, ser dono do “seu nariz”. Ter liberdade para decidir sobre o seu tempo, dinheiro e talento é provavelmente, algo que encantaria qualquer pessoa. Mas é também o fator que determina o sucesso ou insucesso de muitos negócios. Quando se fala em liberdade normalmente as pessoas acreditam que isso quer dizer que será fácil, quando na verdade estamos falando de assumir sozinho as responsabilidades que em uma corporação são divididas entre muitos. São muitas coisas para lidar, pressão psicológica, movimentos de mercado, vendas, pessoas, inovação, produto, marketing, falta de investimento ou até investimento, tudo é uma decisão e o fato é que quando você empreende, praticamente tudo depende de você. E depois que você tem um time, as responsabilidades dobram, ou seja, nunca fica mais fácil.

Antonio: A principal vantagem é trabalhar com aquilo que você mais gosta, ter flexibilidade de horários, reinventar do seu jeito com a aquilo que você acha que é certo. Quanto a dificuldade está ligada a fatores externos que fogem do seu controle como por exemplo a pandemia que estamos vivendo, tombos, erros e acertos vivemos todos os dias. No mais fazemos das dificuldades uma oportunidade.

Patricia: Primeiramente, empreender sem dinheiro foi minha maior dificuldade. Porém se você sempre honrou com suas obrigações é possível que você consiga um financiamento e possa então começar o seu negócio. Aí a segunda dificuldade vem de manter o negócio e continuar honrando os compromissos. Numa época como agora, a instabilidade tem sido nossa maior dor de cabeça. Com 3 meses de abertura, entramos em quarentena. Sem dinheiro em caixa, e tudo pra pagar. O movimento inconstante, ganhamos hoje, pra gastar amanhã. Mas seguimos sempre com muitas novas ideias e em movimento, pois acho que é isso que gera o fluxo. Vantagens? A satisfação e orgulho de ver que algo que você pensou e faz, atinge as pessoas positivamente. Saber que seu empenho gera emoções, acho que essa é a maior vantagem, algo que não tem preço, mas é de um valor inestimável.

Thiago W. Fagundes

Thiago: O empreendedorismo é para pessoas que tem vontade de cada dia fazer mais, para aquela pessoa que trabalha sem fim, sem ver horário e dia, ela vai ganhar bem mais sendo dona do próprio negócio. Mas também todo dia você tem que “matar um leão”, problemas para resolver, estresse do dia a dia, reserva de dinheiro sempre tem que ter porque você consegue planejar o futuro, mas dependendo do negócio só a curto prazo.

OC: Você teve receio de ser seu próprio chefe?

Ana: Acho que todo mundo têm uma parcela de medo, mesmo os mais valentes. Eu tive muito medo sim, não de ser minha própria chefe, mas de falhar. Eu sou realmente apaixonada pelo propósito que move os meus negócios e quero tornar a moda sustentável. Então, sim eu tive medo de não ser boa o suficiente para dirigir este negócio, de falhar com as pessoas ou de não aguentar o tranco, mas jamais de ser a pessoa que puxava a fila. Pois eu sei que quando você puxa uma fila, muitos caminhos se abrem e é este o meu desejo. E aí, ao longo dos anos eu fui aprendendo que errar era normal e que o fato de eu estar tentando fazer algo significativo pelo mundo e de ser movida por um propósito, eram motivos suficientes para encarar esta jornada todos os dias. E diante disso, qualquer medo fica pequeno.

Antonio: Não, muito pelo contrário me cobro a cada dia mais em me tornar um líder seguidor. Pois entendo que o líder é aquele que vai na frente e mostra o caminho para os demais, então encaro o mercado na linha de frente dividindo a carga como nossos 34 colaboradores.

Patricia: Sim. Sou muito perfeccionista e me cobro demais. Sempre acho que poderia ter feito melhor ou que ainda não fiz o suficiente. Cobro muito mais a mim do que os outros. Não sou muito boa em delegar funções e por isso me sobrecarrego, tenho que me desdobrar para dar conta de tudo e se não consigo me culpo.

Thiago: Tive medo no começo, não me achava uma pessoa pronta para ser dona do próprio negócio, principalmente sozinho. Mas cada dia você aprende algo, tendo em mente e foco no que você quer, não tem erro, é uma construção diária. Ninguém nasce pronto nem sabendo tudo.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1640 de 0 de agosto de 2020.

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