Jair Noriler relata transição do agronegócio camponovense
Da água para o vinho: Campos Novos deixou de ser coadjuvante e passou a ser protagonistas do agronegócio graças ao empenho de muitos envolvidos.
Não é mais novidade a virada que Campos Novos deu ao logo dos anos até tornar-se o reconhecido Celeiro Catarinense. Desde que iniciamos a editoria ‘Quem Conta a História”, em comemoração aos 140 anos, muitos afirmaram que o municio de hoje é muito diferente daquele de anos atrás. Desta vez conversamos com Jair Noriler, veterinário, produtor rural e ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, que contou sua trajetória de sucesso que aconteceu paralelo ao salto dado por Campos Novos no caminho do desenvolvimento. Neste espaço de tempo ele foi testemunha ocular da evolução e relatou mais detalhes ainda não contados. Jair atuou em setores de grande importância e como recém formado trouxe novas ideias que ajudaram a fomentar o agronegócio, setor essencial para o desenvolvimento do município.
Ainda criança, no interior de Campos Novos, Jair veio morar na cidade com oito anos para estudar. De família humilde, com raiz campeira, o jovem sabia que precisaria se esforçar muito para colher os louros no futuro. Antes de se decidir pela veterinária, Jair trabalhou como técnico em contabilidade e já atou dois anos como militar em Brasília nos anos 70, voltando em seguida para Campos Novos decidido a buscar uma graduação, que também era o sonho de seu pai. “Meu pai tentou estudar, mas não conseguiu se formar, por isso ele sempre me incentivou a estudar. Eu pensava em fazer contabilidade, naquele tempo o sonho dos jovens era ser contador ou funcionário do Banco do Brasil. Trabalhei um tempo como contador, mas não era o que eu realmente queria. O meu gosto pela atividade rural, minhas raízes e o convívio com amigos que foram fazer veterinária no Rio Grande do Sul me inspiraram a fazer veterinária”, contou.
Formado, enfim ele retornou para Campos Novos, não mais como um estudante, mas como um veterinário, pronto para exercer sua profissão. Estava Campos Novos preparada para receber profissionais de alto gabarito? Nem tanto, afinal a mão de obra tecnificada ainda não era uma realidade. Jair compartilha que ao retornar presenciou uma certa resistência por parte de alguns produtores. “Quando me formei meu sonho era voltar para usar meu conhecimento para ajudar a sociedade. “Se quer melhorar o mundo comece pela sua aldeia”, eu pensava. Havia uma resistência quando eu voltei. Minha própria família duvidava do meu trabalho. Com o tempo a gente vai se impondo e mostrando resultados”, relembra.
Com coragem, ele mostrou a que veio, e um dos seus primeiros trabalhos foi no Sindicato dos Produtores Rurais, sendo em pouco tempo indicado pelos produtores para ser o presidente da entidade por dois mandatos. A partir deste momento novas ações foram implantadas trazendo uma nova visão que despertou o desejo de mudanças reais, progressivas e necessárias. “Ainda vivíamos uma pecuária extensiva, engordávamos um boi com quatro ou cinco anos”, comenta. Como presidente, Jair percebeu que poderia promover um trabalho transformador.
Como entidade de apoio aos produtores, o Sindicato Rural passou a promover as feiras de animais, que existem até hoje, como forma de fomentar este setor. Festas, bailes, exposições, shows, premiações, profissionais qualificados foram sensibilizando o homem do campo e moldando um novo momento no município. Jair conta que essas atividades foram essenciais para a promoção do desenvolvimento. Aos poucos Campos Novos foi ganhando visibilidade na região, e o Poder Público Municipal também quis ingressar neste movimento. Desta parceria surgiu a primeira Expocampos, que na época era chamada apenas de Expo. “Naquele tempo a principal necessidade dos produtores era melhorar a rentabilidade nas propriedades. Eles tinham terra, mas a renda era muito baixa. Produzíamos pouco. Havia falta de genética. A partir do meu mandato passamos a nos mobilizar nesse sentido e o produtor gostou da novidade. Cada vez mais os produtores iam aparecendo e participando das atividades”, declarou.
Somado a isso, a mão de obra que chegava a Campos Novos teve papel importante para modernizar o trabalho praticado nas propriedades. Até então, as práticas arcaicas eram mantidas, e convencer o dono da propriedade a se atualizar, também não foi uma tarefa fácil. Jair explica como se deu esse processo. “Quando vieram os primeiros agrônomos, veterinários e demais profissionais da área, nós levamos os produtores para outras localidades, em grandes exposições para que adquirissem conhecimento. Todo pioneirismo tem um preço. Ninguém conhecia as novidades da época, como inseminação, por exemplo. Produtores mais avançados compravam reprodutores caros, e outros achavam que não precisavam disso. Para eles o normal era pegar um boi de tropa e usar como touro na propriedade. Mas quando eles viram que a compra do reprodutor gerava terneiros com grande saída nas feiras, eles mudaram de ideia. Nós fazíamos concurso de melhor lote de terneiro, melhor produtor, e isso teve um efeito multiplicador muito grande. Os preços de venda foram se valorizando e com o tempo os produtores foram investindo e aderindo as tecnologias”, afirmou.
Hoje o produtor rural, proprietário da Cabanha Ponche Verde, ao ver Campos Novos totalmente diferente, se alegra em ter participado e testemunhado o avanço do município, fato que há algum tempo ele até chegou a duvidar. “Eu acreditei que Campos Novos tinha deslanchado quando conseguimos fazer a integração lavoura-pecuária e quando vi a busca de várias lideranças a fim de desenvolver o município. Eu assisti essa transição. Me sinto com senso de realização. Eu sai da Universidade para vir fazer minha parte. Valeu a pena a decisão. Eu fiz a coisa certa. É uma alegria ter participado nesse processo e dar minha modéstia contribuição. Hoje me dedico a minha fazenda e sou reconhecido pelo meu trabalho”, declarou Jair ao lado da esposa Arlete Noriler, que em grande parte o acompanhou em suas vivencias, que não foram poucas, mas que não caberiam nessas páginas.
Atualmente Campos Novos vive o reflexo desses movimentos. As feiras que são realizadas até hoje, como a Feira do Terneiro e do Terneira e a Feira da Primavera são marcas deixadas pela atuação do sindicato no município. “Foi a partir desses eventos que houve o incremento de genética. Não havia cabanhas bem estruturadas. Trouxemos animais de fora, veio expositor de São Paulo, Rio Grande do Sul, e começamos a incrementar nossa nossa genética. Causou um crescimento muito grande melhorando a pecuária em 100%”, finalizou Jair.
*Coluna Ambiental, publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1683 de 01 de Julho de 2021.

