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Quem conta a história: Maria Solange Pinheiro

Solange Pinheiro fala sobre o inicio da
Acadav em Campos Novos

Entidade dedicada aos deficientes surdos e cegos trouxe novas perspectivas aos usuários.

B.B: deficiente auditiva, formada em Libras, fazendo pós graduação em Educação Especial, professora na Acadav.

C.K. deficiente auditiva, formado em pedagogia, entrou na Acadav quando não tinha nem o ensino fundamental, já no mercado de trabalho.

A.G. deficiente visual desde os dez anos, formado em psicologia, atua como psicólogo na Acadav.

Em um mundo cheio de preconceito contra pessoas com deficiências, a satisfação é grande ao ver que em Campos Novos há inúmeras pessoas que, mesmo com limitações, conseguiram realizar seus sonhos, estudar e trabalhar. Estes três exemplos acima citados são apenas alguns poucos entre tantos de pessoas que passaram por entidades de apoio e receberam o encorajamento que precisavam. Elas não são incapazes, e puderam perceber seu valor e potencial com a ajuda da família e de entidades do terceiro setor que lutaram pela dignidade dessas pessoas. Há 14 anos surgiu no município a Associação Camponovense de Apoio aos Deficientes Auditivos e Visuais, mais conhecida como Acadav, criada para encaminhar e preparar os deficientes para o mundo real. Maria Solange dos Santos Pinheiro, uma das pessoas que lutou por esta causa, conta como essa história começou.

De Curitibanos para Campos Novos, no ano de 2000 Solange chegou no município cursando Pedagogia e Educação Especial com vivo interesse em auxiliar as pessoas com deficiência auditiva. Naquele tempo os surdos eram atendidos em outras cidades e a maioria não frequentava as escolas. “Em Curitibanos já havia uma associação de surdos, e foi onde eu tive meu primeiro contato com a surdez. Me identifiquei e me dediquei a aprender a Língua Brasileira de Sinais. Quando cheguei aqui dei continuidade aos estudos nessa área, e busquei pessoas que tinham deficiência auditiva no município. Comecei a trabalhar na Escola Henrique Rupp e lá conheci duas crianças surdas. Me envolvi com a comunidade escolar em busca do uso da Libras. Na época os cursos e atendimento da pessoa surda era em Joaçaba. A comunidade camponovense não sabia da existência deles, isso me chamou a atenção. A comunicação deles era por meio de gestos, porque muitos não conheciam a Libras. Essa situação despertou em nós o desejo de ajudá-las para que pudessem ser atendidas aqui. As famílias abraçaram a causa e começou a busca por um espaço para eles”, detalhou Solange.

Até o primeiro momento o foco era voltado as pessoas com surdez, mas alguém trouxe a atenção para outro grupo de pessoas que também estava excluída da sociedade. “Neste mesmo período recebi a visita do Olimar Gomes, que soube do movimento que estava sendo feito em prol dos surdos, e resolveu chamar atenção a necessidade dos cegos que também eram desassistidos no município. Ele trouxe uma outra demanda ao qual não havíamos observado. Alguns cegos nunca haviam ido à escola. Eles eram reclusos devido a deficiência. Reunimos um número grande de pessoas e fomos procurar o Poder Público para solicitar um eapaço. O administrador da época se mostrou parceiro e nos ajudou financeiramente. Este local que nos encontramos até hoje estava para alugar, mas somente a parte dos fundos. Em 2007 começamos a atender num espaço mínimo, tinha apenas três salas e um banheiro”, afirmou.

O projeto deu certo? Sim, o resultado é refletido na vida das pessoas deficientes e de suas famílias. Como já vimos, através dos exemplos, pessoas surdas e cegas evoluíram. A entidade hoje ajuda pessoas em Campos Novos e região. “Em 2007 nós tínhamos um número de alunos, em 2008 estávamos com o dobro. As pessoas criaram coragem para sair de casa. Ainda hoje há pessoas cegas e surdas que não vem a entidade porque não conseguem sair daquele mundo e que foram acostumadas. Hoje atendemos o município de Barracão, Herval d’Oeste, Ibiam, Fraiburgo. Essas são pessoas capazes, que precisam de um estímulo, apoio. Conviver com uma deficiência não é fácil, as famílias sofrem. Nossa principal função é abrir as portas para esta pessoas e suas famílias”, destacou.

Pessoas com deficiência passam muitas dificuldades, mas podem se desenvolver e se tornar autônomos prontos para a vida em sociedade. “Não queremos formar coitadinhos, eles devem enfrentar o mundo e buscar os seus sonhos, ter uma vida normal. Não queremos o assistencialismo, eles não vêm aqui para passar tempo, eles vêm para aprender. Fazemos várias oficinas que preparam para a vida diária e para o mercado de trabalho, eles também fazem atividades físicas, braile, uso de tecnologias. Preparamos o deficiente integralmente. Ensinamos eles a verem e ouvirem com todo o corpo. Nós os ajudamos a perceber que eles são capazes. Eles têm uma limitação, mas são capazes e precisam encarar os desafios”, garante.

Solange fala em nome da entidade sobre o sentimento de alegria e satisfação. A entidade busca muito mais para ajudar na luta e na quebra de preconceito. “Não foi fácil chegar até aqui, é uma luta diária. Mas após 14 anos percebemos que este trabalho dá certo, pois temos este compromisso com essas pessoas. Oferecemos gratuitamente o teste da orelhinha muito antes de Joaçaba, que é um município mais desenvolvido. Trabalhamos a prevenção e oferecemos atendimento desde os primeiros dias de vida. Nós deitamos na cama com a consciência tranquila que fizemos o nosso melhor”, afirma.

A educação muda a vida das pessoas e a realidade do município. O trabalho desenvolvido na Acadav visando a educação dos deficientes elevou o município tornando-o referência na região. “Campos Novos é um município de destaque na região no atendimento das pessoas surdas e cegas. A educação tem importância grande na vida da sociedade. Se hoje Campos Novos está se desenvolvendo é devido ao auxílio dos profissionais da educação. Este é um trabalho histórico. Desde que o mundo é mundo, existem pessoas cegas e surdas, mas o atendimento a essas pessoas veio anos depois. Nós iniciamos com uma professora, hoje temos oito profissionais, e temos a possibilidade de receber um amparo financeiro melhor por parte da Fundação para melhorar os atendimentos e aumentar as oportunidades. Devemos lutar para estar sempre fortalecida, pois, infelizmente, cada vez chegam mais crianças com deficiência”, declarou. Sobre os talentos desenvolvidos pela entidade, Solange acredita que o exemplo deles trarão inspiração para os deficientes mais jovens, os motivando a aumentar em auto estima e na busca por seu sonho.

*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1689 de 12 de agosto de 2021.

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