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UMA INTRIGA CAMPONOVENSE A QUEDA DO CEL. FARRAPO

Após 15 de novembro de 1889, com a Proclamação da República, o Brasil passa por tempos incertos, de ânimos exaltados e grande mudança política – e Campos Novos não ficaria isenta disso. Em 7 de janeiro de 1890, é feita a última eleição da história da câmara municipal de cidade, com a seguinte configuração: Francisco Crescêncio Fagundes, Lucas Alves de Carvalho, Antonio Gomes de Campos, Francisco Rodrigues de Almeida, Pedro Correa de Mello e Ramiro Antonio de Oliveira, sendo o primeiro deles presidente da câmara (e por consequência prefeito ) e o segundo vice-presidente (e por consequência vice-prefeito).

Foi a última da História da câmara municipal porque, no mesmo dia, a resolução n° 61, do Governo Estadual, dissolveu todas as câmaras municipais catarinenses e criou em seu lugar as intendências municipais, órgãos similares, que teriam seus membros escolhidos pelo próprio governo. Ao mesmo tempo, essa escolha foi mais tardia. Pela decisão do Governo Estadual, seriam agora apenas cinco membros, escolhidos pelo governador Lauro Müller em 15 de março, pela resolução n° 147: Manuel Ferreira da Silva Farrapo, o cel. Farrapo (presidente da intendência e, portanto, prefeito) e os demais membros Lucidório Luiz de Mattos, Francisco Rodrigues de Almeida, Francisco Crescêncio Fagundes e Pedro Carlos Stephanes.

Francisco Rodrigues de Almeida rejeita o convite para ser intendente municipal (por ser cunhado do Cel. Farrapo – Manuel era casado com sua irmã Felicidade Amantina de Almeida), sendo que no seu lugar a intendência pede que seja indicado Ramiro Antonio de Oliveira. No entanto, o governador decide ir por outro lado: escolhe, em 15 de abril, Pedro Correa de Mello (indicação pessoal de Francisco Rodrigues de Almeida). Todavia, Pedro não assume, começando o que seria uma grande intriga no legislativo municipal.

Aos 28 de julho de 1890, Pedro manda ao governador uma denúncia, escrita em 25 de junho, dizendo que não fez o juramento como intendente municipal. Ele relata que na primeira vez que tentou, houve divergências entre Francisco Crescencio Fagundes e o secretário Satyro Silveira de Bittencourt – que se negou a escrever o juramento. A segunda vez que tentou, não houve o juramento por um “conflicto de jurisdicção havido entre os intendentes Fagundes e Lucidorio Luiz de Mattos”. Uma terceira vez, foi marcada reunião no dia 21 de junho para fazer o juramento, mas disse que não havia intendente algum para tomar o juramento – adiando a reunião para o dia 23. Enquanto esperava a hora da reunião no comércio de Augusto Carlos Stephanes, aparece o presidente Manuel Ferreira da Silva Farrapo e o agride – verbalmente e fisicamente:

“(…) ali tambem se achou presidente o cidadão Manuel Ferreira da Silva Farrapo, Presidente da Intendencia Intendecia (sic) e muitas outras pessoas e sem motivo algum eu fui aggrediro pelo dito cidadão com aquellas palavras e modo brutal que são peculiares, provocando me ate à brigar. Reppeli a agressão com [ilegível] e prudencia, para evitar qualquer scena sanguinolenta e intervierão muitas pessoas que [ilegível] Farrapo, qual por força quiz desfeitar-me (…)”

Também declarou que no mesmo dia estava na corrida de cavalos, “onde novamente fui ameaçado pelo dito Farrapo, e só pela intervenção de outros não conseguiu seu fim malévolo de offender-me physicamente”. Pedro relatou que foi embora, a contra-gosto, sendo perseguidos por Farrapo, que “pretextanto o álcool, julga poder offender à todo e qualquer”. Por fim, considerando tudo isto, ele recusa o cargo de intendente municipal:

“(…) Claro he em vista do accontecido, que devo declinar da honra com que V. E. me distinguiu por ser me moralmente impossivel de servir numa corpora~çao de alcance da Intendencia, à cuja frente se acha um homem como o cidadão Frrapo; vuja fama eh bem conhecida e que nada aspira sinmão o atrasdo do Municipio, perseguindo à todos que pretendam oppôr um diqque aos desmandas d’elle, não poupando injurios, calumnias e até offensas physicias para conseguir o seu fim; por isso respeituosamente peço à V. E. a minha exoneração do cargo de Intendente, bem como, a bem da tranquilidade do Municipioi, as providencias que no caso couberem, e ouço indicar à P. E.a como testemunhas do allegado, os abaixo arrolados. Saude.” (Figura 1).

Figura 1 – Denúncia de Pedro Correa de Mello

A versão do coronel Farrapo, naturalmente, foi bem diferente. Aos 27 de agosto, ele respondeu ao governador primeiramente que a denúncia era completamente e falsa e que também era falso que que no dia 21 de junho não houve reunião, sendo adiada ao dia 23 – dizendo que, afinal, se não havia reunião dia 21, quem teria adiado para o dia 23? Se não havia intendente ali, como poderia algum intendente remarcar? Ele também replicou o “pobre moço delactor” (Pedro Correa de Mello) foi pressionado a assinar a denúncia, tida por ele como falsa, por outra pessoa, não tendo Pedro culpa alguma. O real autor e quem pressionou a denúncia era o imigrante boêmio naturalizado brasileiro Henrique Rupp:

“si sujeitado a assignar um papel escripto ao bel prazer do Sycophanta que disem chamar-se Henrique Rupp , o qual attento seu infame procedimento é bem conhecido dos homens honestos; claro é que não tendo o delactor consciencia do que diz quanta masi daquillo que um aventureiro o [ilegível] de para assignar (…)”

O imigrante Rupp foi chamado também de “um homem mais que immoral”. (Figura 2)

Figura 2 – Resposta do cel. Farrapo

Em resumo, Pedro Correa de Mello, que iria, por indicação do governador, assumir a vaga recusada por Francisco Rodrigues de Almeida, alegou corpo mole das autoridades, especialmente do cel. Farrapo, que fez de tudo para impedir que Pedro assumisse a vaga. Já o coronel afirmou que se tratava de uma grande mentira orquestrada por Henrique Rupp, seu rival político – que foi chamado de Sycophanta.

Figura 3 – Resolução 457. FONTE: REPUBLICA (1890). Disponível em https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=711497x&pagfis=1203

Seria uma denúncia real de Pedro contra um homem instável? Uma manobra política de Henrique Rupp? Algo no meio termo? A conclusão fica com o leitor. Mas as consequências são reais: em 10 de dezembro de 1890, apenas três meses e meio depois da resposta do cel. Farrapo, o governador de SC Gustavo Richard faz a resolução número 457, no qual exonera do cargo de presidente da intendência Manuel Ferreira da Silva Farrapo (que morreu em julho de 1893, aos 60 anos) e coloca no seu lugar seu algoz: Henrique Rupp, que se torna prefeito de Campos Novos – depois sendo substituído no cargo por Lucidório Luiz de Mattos no segundo semestre de 1891. (Figura 3).

*Artigo Publicado no Jornal O Celeiro, Edição 1908 de 11 de dezembro de 2025.

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