A história de um município, passa pelas pessoas, pelo tempo, pela cultura e pelo cultivo de tradições.
Nestes 145 anos de Campos Novos, a história e a cultura se destacam de forma crescente.
Para falar do assunto, conversamos com Giovani Primieri, Instrutor de Danças Tradicionais, Declamador, e Profissional Cultural que atua ha mais de 20 anos na área artístico-cultural realizando cursos, palestras e produções para a promoção da Identidade Cultural.
Falar sobre os 145 anos de Campos Novos é, antes de tudo, falar sobre identidade. E identidade não é algo que se inventa ou se escolhe — é algo que se constrói, se vive e se transmite.
Eu não nasci aqui. Cheguei em 2008.
Mas foi aqui que encontrei um território fértil para desenvolver meu trabalho cultural, especialmente voltado à cultura e à identidade gauchesca. E, ao longo desses anos, uma certeza foi se consolidando: Campos Novos tem, sim, uma identidade cultural bem definida.
Essa identidade não está apenas nos registros históricos. Ela está no cotidiano. Está no jeito de falar, na forma de se reunir, na valorização das tradições e, principalmente, na permanência de hábitos que atravessaram gerações.
Um exemplo simbólico disso está em um dos espaços mais conhecidos da cidade: a Avenida JK. Hoje, eixo urbano importante, ela já foi, em outros tempos, uma cancha de carreira de cavalos. Esse detalhe, que pode parecer apenas uma curiosidade, revela muito sobre a formação cultural de Campos Novos — um território profundamente ligado à vida rural, à lida com os animais e às práticas do campo.
E é justamente essa ruralidade prolongada que ajuda a explicar algo fundamental: Campos Novos, embora seja uma das cidades mais antigas da região, teve um desenvolvimento urbano mais tardio em relação a municípios vizinhos — muitos deles, inclusive, antigos distritos seus.
Enquanto cidades do Vale do Rio do Peixe se desenvolveram a partir da ferrovia, que trouxe movimento, comércio e crescimento urbano, Campos Novos seguiu outro caminho. Aqui, o campo permaneceu como base da vida por muito mais tempo.
E foi nesse tempo mais longo no campo que os costumes se fortaleceram.
Foi ali que se consolidaram valores como o apego à terra, o respeito às tradições, o convívio comunitário e a transmissão dos saberes. Enquanto outros lugares se transformavam rapidamente, Campos Novos preservava — muitas vezes sem perceber — a base da sua identidade.
Ao longo da minha atuação como agente cultural e professor de danças tradicionais, vejo isso de forma muito clara.
A cultura gauchesca aqui não é algo importado — ela é vivida. Está nos centros de tradição, nas danças, na música, nas rodas de conversa e no sentimento de pertencimento.
Mas também é preciso olhar com responsabilidade para o presente.
Campos Novos possui algo raro na nossa região: uma estrutura cultural institucional sólida.
É, no Meio-Oeste catarinense, a única cidade que conta com uma fundação cultural estruturada, contemplando arquivo histórico, museu e biblioteca — cada um em seu próprio espaço.
Isso é motivo de orgulho. Mas também nos traz uma reflexão importante.
O museu, por exemplo, hoje é a única construção urbana antiga ainda preservada ao longo desses 145 anos. Isso, ao mesmo tempo que é bonito — por manter viva uma referência do passado — também nos chama a atenção para a importância da preservação e da valorização do nosso patrimônio histórico.
Ter estrutura é fundamental. Mas estrutura, por si só, não sustenta a cultura.
É preciso gente! E gente capacitada! E gente apaixonada!
É preciso investimento humano, continuidade, planejamento e valorização dos profissionais que dão vida a esses espaços. Sem isso, mesmo as melhores estruturas correm o risco de se tornarem apenas espaços físicos, sem a força que a cultura exige.
E essa não é uma crítica negativa — é um olhar de quem acredita.
Porque Campos Novos já demonstrou que tem base, tem identidade e tem potencial. E justamente por isso, pode avançar ainda mais.
Celebrar 145 anos é reconhecer tudo o que foi construído até aqui. Mas também é assumir o compromisso com o que ainda pode ser feito.
E eu, que fui acolhido por esta cidade, só tenho a agradecer.
Parabéns, Campos Novos!
Obrigado por me receber, por me permitir fazer parte da tua história e por me dar a oportunidade de contribuir, ainda que de forma simples, com aquilo que tu tens de mais valioso: a tua cultura.
Porque, no fim, são as pessoas e suas práticas que mantêm viva aidentidade de um lugar. E essa identidade, aqui, segue firme — viva, presente e em construção.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1921 de 26 de março de 2026.

