Apesar das diversas dificuldades ainda vividas pelas mulheres, buscamos falas que representam setores e mostram a evolução na força de cada uma.
Celebrado em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher carrega um significado que ultrapassa homenagens simbólicas. A data representa mais de um século de mobilização por igualdade de direitos e, ao mesmo tempo, evidencia que muitos desafios ainda permanecem, especialmente no enfrentamento à violência de gênero.
A origem do movimento remonta ao início do século XX, quando mulheres trabalhadoras passaram a reivindicar melhores condições de trabalho, participação política e igualdade de direitos.
Em 1975, a Organização das Nações Unidas oficializou o 8 de março como data símbolo da luta feminina em nível mundial.
Embora as conquistas sejam visíveis, maior presença no mercado de trabalho, na política e nos espaços de liderança a violência doméstica e o feminicídio continuam sendo uma realidade que exige atenção constante.
Violência doméstica ainda é desafio em Campos Novos
A defensora pública da Comarca de Campos Novos, Dra. Rafaela Lugon Lucchesi Ramacciotti, lembra que 2026 marca os 20 anos da Lei Maria da Penha, legislação considerada um divisor de águas na proteção às mulheres.
Mesmo após duas décadas de vigência da lei, os índices continuam preocupantes.
Somente em janeiro de 2026, foram registradas 21 ocorrências de violência doméstica contra a mulher na comarca de Campos Novos, conforme dados do Observatório da Violência Contra a Mulher. Segundo a defensora, o cenário local acompanha uma realidade nacional em que feminicídios, agressões e violência sexual seguem sendo noticiados com frequência.
Ela ressalta que é necessário romper com a cultura de omissão. “É preciso superar o ditado popular de que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’. A comunidade precisa se unir para enfrentar essa situação de insegurança para as mulheres.”
O ciclo da violência
Dra. Rafaela explica que muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque a violência não acontece de forma isolada. Após uma fase inicial de conquista, o agressor costuma alternar momentos de agressão com períodos de arrependimento e comportamento afetuoso, criando um ciclo difícil de romper.
Além disso, é comum que o agressor transfira a culpa para a vítima, fazendo com que ela acredite ser responsável pela agressão. Dependência econômica, vínculos familiares e a presença de filhos também pesam na decisão de permanecer na relação.
Com o passar do tempo, a exposição contínua à violência compromete a autoestima da mulher, que passa a duvidar da própria capacidade de romper o relacionamento.
Direitos e Medidas Protetivas
A defensora reforça que a proteção da mulher vítima de violência é prioridade no direito brasileiro. Entre os mecanismos previstos estão as medidas protetivas de urgência, que podem determinar:
- Afastamento do agressor do lar;
- Proibição de aproximação e contato;
- Suspensão do porte de armas;
- Pagamento de pensão alimentícia;
- Restrição de visitas a dependentes;
- Proteção patrimonial, como restituição de bens.
O pedido pode ser feito diretamente na Delegacia de Polícia, pela Defensoria Pública ou por advogado. A decisão deve ocorrer em até 48 horas. O descumprimento configura crime, com pena de dois a cinco anos de reclusão, além da possibilidade de prisão preventiva.
A Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina oferece orientação jurídica integral e gratuita às vítimas. Mesmo nos casos em que a mulher possua renda, pode haver atuação quando houver restrição de acesso a bens ou recursos em razão da própria violência.
Como mensagem final, Dra. Rafaela destaca: o conhecimento dos direitos é o primeiro degrau para superar a violência. E reforça que nenhuma mulher está sozinha.
Atualmente o contato para Denunciar Violência Doméstica, é o Número 180, ou procurar as delegacias.
Protagonismo feminino no meio empresarial
No meio empresarial, o avanço também é perceptível. A gestora da CDL de Campos Novos, Vilma Delfes Gramazio, observa que a mulher tem ocupado cada vez mais espaço na sociedade e no meio empresarial.
“A Câmara de Dirigentes Lojistas sempre foi referência no protagonismo da mulher. Ao longo dos anos tivemos várias mulheres sendo presidente, como a atual, Sidreana da Silva. Também temos várias mulheres que cresceram no ramo do comércio, empresas, e se destacaram evoluindo, junto a sua capacidade de olhar e ver os pequenos detalhes. Nossa diretoria atual, também contempla e abraça grandes empresárias em diversos detores e esse olhar é uma coisa que é preciso reconhecer”.
Segundo ela, as mulheres enfrentam desafios diários, lideram equipes, fortalecem negócios e inspiram outras mulheres a conquistarem seus próprios espaços. Para Vilma, a mulher empresária faz a diferença todos os dias e merece reconhecimento e respeito por sua força, coragem e determinação.
“Como mulher, eu sou mais uma das que lutam todo dia, defendem seus negócios e colhem o protagonismo. Acredito que a mulher do ‘Século 21’, mostra que cada vez mais, que não depende de ninguém para crescer”.
Autonomia e liberdade feminina
Para Andréa Hahmeyer Pegoraro, psicóloga e sexóloga, o século 21 marca uma virada histórica na forma como a mulher se posiciona na própria trajetória.
Segundo ela, a principal transformação está na mudança de papel: a mulher deixou de ser figurante da própria história para assumir o protagonismo. E isso vai muito além de trabalhar fora, votar ou ocupar cargos de liderança. Trata-se, sobretudo, de ter autonomia sobre a própria mente e sobre o próprio corpo de existir com liberdade para decidir e conduzir a própria vida.
Andréa identifica três grandes mudanças psicológicas nesse processo. A primeira é a autonomia da identidade. A mulher passou a se perguntar menos “o que esperam de mim?” e mais “quem eu sou?”. Essa mudança influencia diretamente escolhas profissionais, afetivas e sexuais, representando a ruptura com roteiros impostos por gerações anteriores.
A segunda transformação é a desconstrução da culpa ligada à sexualidade. Durante séculos, o desejo feminino foi reprimido ou tratado como inadequado. No século 21, a mulher passa a reconhecer o direito ao prazer como parte da sua saúde mental e física. A sexualidade deixa de ser cercada de vergonha e passa a ser tema de debate e fortalecimento da autonomia.
A terceira mudança está na ocupação do espaço público. Temas antes restritos ao âmbito privado como consentimento, orgasmo feminino, violência sexual e diversidade passaram a ser discutidos de forma mais aberta, ampliando informação e consciência.
Contudo, Andréa alerta para um paradoxo contemporâneo: ao mesmo tempo em que a mulher é incentivada a ser livre, ainda é julgada quando exerce essa liberdade. Persistem pressões estéticas e cobranças por desempenho, e a liberdade pode acabar se transformando em mais uma obrigação.
Para ela, o verdadeiro avanço não está em fazer mais, mas em escolher com consciência. Liberdade sexual não significa exposição excessiva ou permissividade sem limites, mas a capacidade de afirmar o próprio desejo ou a própria recusa com segurança. Essa consciência fortalece a autoestima e a capacidade de estabelecer limites.
A grande revolução, conclui, acontece de dentro para fora.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1918 de 03 de março de 2026.

