Logo se aproximam as festas juninas e, com elas, surge uma preocupação que vai além dos preparativos festivos: como estamos ensinando e transmitindo a dança nas escolas? Em meio a ensaios, trajes e coreografias improvisadas, pouco se reflete sobre o conhecimento que sustenta essa prática cultural tão presente no cotidiano brasileiro, revelando um cenário em que tradição e ensino nem sempre caminham juntos.
Existe uma enorme quantidade de quadrilhas editadas ao longo do tempo: algumas registradas apenas em partitura, outras acompanhadas de anotações coreográficas detalhadas. Em praticamente todas, encontramos figuras em língua francesa — termos que, ainda hoje, são repetidos nas escolas e apresentações por todo o Brasil, muitas vezes sem que seus praticantes compreendam de fato seus significados ou origens.
Ao nos debruçarmos sobre a história da quadrilha, percebemos que seu percurso até se tornar uma manifestação popular brasileira é complexo, rico e profundamente marcado por processos de adaptação cultural. Apesar disso, as formações básicas ainda permanecem reconhecíveis, ainda que frequentemente modificadas. O que se observa na atualidade — e isso já não é recente — é a criação de coreografias “a bel prazer”, conduzidas por mestres, coreógrafos ou lideranças populares, alguns com formação mais sólida, outros apenas legitimados pela tradição oral ou pela prática empírica.
Não se trata de negar a criatividade — pelo contrário. A quadrilha, enquanto manifestação viva, se reinventa constantemente. Contudo, é fundamental conhecer seus caminhos históricos, suas estruturas e seus significados para que essa criatividade não se dê de forma desconectada de suas raízes. Sem esse cuidado, corre-se o risco de esvaziar a coerência da dança, transformando-a em uma sequência de movimentos desprovidos de contexto cultural.
A quadrilha é folclórica no Brasil?
Sem dúvida alguma!
Ela reúne funcionalidade, dinamismo e tradição, ao mesmo tempo em que incorpora, de maneira muito forte, a criatividade contemporânea. Está presente em todos os estados, em praticamente todas as cidades, especialmente nas Festas Juninas, onde encontrou um espaço de pertencimento e ressignificação. Em cada região, adquire características próprias (ou deveria), refletindo o gosto, a vivência e a interpretação de quem ensina e de quem dança.
No entanto, é justamente nesse ponto que surge uma preocupação maior. Trata-se de uma prática cultural com pelo menos dois séculos de presença no Brasil, amplamente difundida e socialmente valorizada, mas que ainda carece de registros sistemáticos, estudos aprofundados e reconhecimento acadêmico proporcional à sua importância. Há um evidente descompasso entre a relevância cultural da quadrilha e o espaço que ela ocupa nos meios formais de ensino.
Dito isso, destaco o trabalho que tive a honra de ler antes mesmo de ser editado do amigo tradicionalista Rodrigo Gil Ribeiro que trata das quadrilhas com responsabilidade de quem quer fazer acontecer.
As universidades, especialmente nos cursos de licenciatura voltados à educação e à cultura, em geral não contemplam de maneira consistente o estudo da quadrilha. Falta abordagem histórica, análise coreográfica, compreensão dos elementos musicais e das influências culturais envolvidas. Como consequência, os professores da educação básica acabam ficando à mercê de referências superficiais — muitas vezes oriundas da mídia, de modismos ou de reproduções pouco fundamentadas.
E isso se torna ainda mais evidente quando lembramos de um dado simples, mas significativo: todos os anos, praticamente todas as escolas do Brasil realizam festas juninas. A quadrilha está lá, presente, como elemento central. Mas o professor que conduz essa atividade, em muitos casos, não recebeu formação adequada para ensiná-la. Ensina-se o que se viu, o que se ouviu, o que se improvisa — raramente o que se estudou.
Isso revela uma fragilidade no sistema educacional e cultural. Como pode uma manifestação tão difundida e identitária ser tratada de forma tão pouco estruturada no ensino formal? Como justificar que algo presente no cotidiano escolar de milhões de estudantes não seja devidamente abordado na formação de seus professores?
Mais do que uma dança festiva, a quadrilha é um patrimônio cultural que carrega história, linguagem, organização social e memória coletiva. Negligenciar seu estudo é, de certa forma, negligenciar parte da própria cultura brasileira.
Fica, portanto, a reflexão:
Não basta dançar quadrilha — é preciso conhecê-la, compreendê-la e ensiná-la com responsabilidade cultural.
Da mesma maneira qualquer outra dança cultural da nossa gente deve ser encarada com maior responsabilidade nas Festas Juninas – afinal, não existe dança de festa junina! Dança-se o que cada região tem em seu folclore e tradições, mas as vezes vemos por aqui o verdadeiro desconhecimento ou a própria preguiça de valorizar o que é nosso!
A nossa cultura está debaixo do nosso nariz e não estão vendo!
Muitas vezes, isso se dá ora pelo descaso dos centros educacionais, das gestões das escolas e dos próprios professores que “sem saber ensinam”, ora pela falta de acesso ao conhecimento para que esse pessoal consiga trazer cultura com qualidade para as escolas afastando-se de quadrilhas que mais lembram “The Walking Dead”.
Por: Giovani Primieri – Instrutor de Danças Tradicionais

