O crack é apenas a parte visível de um problema mais profundo, marcado por sofrimento emocional, rompimento de vínculos familiares e dificuldades no tratamento.
O aumento dos furtos registrados em Campos Novos nos últimos meses trouxe à tona uma discussão que vai muito além da segurança pública. Em entrevistas recentes, representantes das forças de segurança relacionaram parte desses crimes ao consumo de drogas, especialmente o crack, substância conhecida pelo alto potencial de dependência.
Mas o que leva uma pessoa a colocar em risco a própria liberdade, os vínculos familiares e a própria vida? A resposta, segundo profissionais que atuam na área, é mais complexa do que muitos imaginam.
A psicóloga Ana Paula Varela Stürmer, especialista em terapia cognitivo-comportamental, avaliação psicológica, dependência química e neuropsicologia, explica que o crack está entre as drogas com maior potencial de dependência porque provoca uma intensa sensação de prazer em poucos segundos. O problema é que esse efeito dura pouco tempo, fazendo com que o usuário sinta uma necessidade urgente de repetir o consumo.
Com o passar do tempo, áreas do cérebro responsáveis pelo autocontrole, pela tomada de decisões e pela avaliação das consequências ficam comprometidas.
“Muitas vezes, pequenos furtos não são uma questão de falta de caráter. É a dependência dominando o comportamento da pessoa e fazendo com que a busca pela substância fique acima de outras necessidades e valores”, explica.
A especialista ressalta que não existe uma única causa para a dependência. Na maioria dos casos, o problema é resultado de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Históricos de violência, abandono, traumas, transtornos mentais não tratados, dificuldades familiares, falta de oportunidades e situações de vulnerabilidade social aparecem com frequência entre as histórias de quem desenvolve o vício. “O uso da substância costuma ser apenas a parte visível de um sofrimento que começou muito antes da dependência”, observa.
O DRAMA DAS FAMÍLIAS
As forças de segurança realizam o trabalho repressivo e frequentemente se deparam com usuários vivendo em condições extremamente precárias, escondidos em áreas isoladas do município. No entanto, essa é apenas a face mais visível do problema.
Longe dos olhos da população, famílias convivem diariamente com situações de violência doméstica, furtos dentro da própria residência, conflitos constantes e o sofrimento de ver um familiar recusando ajuda.
De acordo com informações repassadas pela Secretaria Municipal de Saúde, é comum que parentes procurem atendimento desesperados, sem saber como lidar com a situação.
A pasta destaca que um dos maiores desafios enfrentados atualmente é justamente a resistência de muitos usuários em reconhecer o problema e aderir ao tratamento oferecido pela rede pública.
Ana Paula explica que essa negação faz parte da própria doença. “Muitas pessoas não reconhecem a gravidade do problema ou têm medo das mudanças que o tratamento exige”, afirma. Nesses casos, o trabalho das equipes é manter o vínculo, oferecer orientação e criar oportunidades para que a pessoa aceite ajuda quando estiver preparada.
DEMANDA CRESCENTE
Em Campos Novos, o atendimento às pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas é realizado pelo CAPS Vida e Saúde, serviço que também atende pacientes com transtornos mentais graves, como esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão severa, transtornos de ansiedade e pessoas em risco de suicídio.
Segundo a Secretaria de Saúde, a demanda tem crescido de forma significativa nos últimos anos, enquanto a estrutura disponível encontra limitações.
Atualmente, a equipe multiprofissional responsável pelo acompanhamento terapêutico é composta por uma psicóloga, um enfermeiro, uma assistente social e uma terapeuta ocupacional, além dos médicos responsáveis pelas avaliações clínicas e prescrição de medicamentos.
A pasta reconhece a necessidade de ampliação da estrutura física e do quadro de profissionais, especialmente diante do aumento dos casos relacionados à saúde mental e ao uso de drogas.
Outro desafio apontado pelos profissionais é a complexidade dos casos atendidos. Nem todo usuário apresenta o mesmo grau de comprometimento. Há situações relacionadas diretamente à dependência química, outras ligadas ao tráfico de drogas e também casos em que a pessoa mantém preservada sua capacidade de julgamento e tomada de decisão. Por isso, cada situação exige avaliação individualizada e diferentes estratégias de intervenção.
RECUPERAÇÃO É POSSÍVEL
Apesar das dificuldades, a mensagem deixada pelos profissionais é de esperança. O tratamento da dependência química é possível e há inúmeros casos de pessoas que conseguiram reconstruir suas vidas após períodos de intenso sofrimento.
Os primeiros meses costumam ser dedicados à estabilização física e emocional do paciente. Paralelamente, o acompanhamento psicológico busca ajudar o dependente a compreender sua condição, lidar com emoções difíceis e desenvolver estratégias para enfrentar situações que antes eram resolvidas por meio do uso da droga.
A participação da família também é considerada fundamental durante todo o processo. Além de orientar os familiares sobre a dependência química, o trabalho terapêutico procura fortalecer a comunicação e construir um ambiente mais seguro para o retorno da pessoa após o tratamento.
Especialistas lembram ainda que recaídas podem acontecer e não devem ser interpretadas como fracasso. “A recuperação não é um caminho linear. Enquanto houver vida, existe possibilidade de mudança”, destaca a psicóloga.
Em uma cidade onde os reflexos da dependência química aparecem cada vez mais nas ocorrências policiais, nas unidades de saúde e dentro das próprias famílias, profissionais reforçam que o enfrentamento do problema exige mais do que repressão. Exige acolhimento, acesso ao tratamento, fortalecimento da rede de apoio e a compreensão de que, por trás da droga, quase sempre existe uma história de sofrimento que começou muito antes dela.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1933 de 18 de junho de 2026.

