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Um sonho que permanece vivo: Leonel Fagundes dedica a vida à música e à cultura

Aos 77 anos, camponovense guarda em livros, composições, discos e pesquisas a paixão pela música que o acompanha desde a juventude.

Produtor rural e servidor público, Leonel Fagundes, sonhou em ser um grande artista da música. Contudo, nem todo sonho se realiza da forma como foi imaginado. Seria a timidez que fez com ele reprimisse seus sonhos? Ele acredita que sim, mas mesmo assim, manteve viva a paixão pela música, especialmente o sertanejo raiz, um hobby que ele mantém até hoje.

Em entrevista ao jornal o Celeiro, Leonel contou histórias e reviveu momentos como se tivessem acontecido ontem. Com uma memória invejável, ele recorda datas e fala de tudo com minucias. “Sente aí, porque eu posso ficar a tarde inteira falando sobre música”, ele faz o convite.

Ainda jovem, ele sonhava em ser artista, viajar pelo mundo e viver da música. O tempo passou, a vida seguiu outros caminhos, mas a paixão pela música nunca o abandonou. Pelo contrário, transformou-se em pesquisa, escrita, composições, programas de rádio e em uma dedicação permanente à preservação da cultura regional. “Quando vi, o tempo passou. Mas o sonho ficou aí dentro”, resume.

Quem entra na casa de Leonel logo percebe que ali o tempo não passou. Sobre a mesa, estante e gavetas estão espalhados discos de vinil, fotografias, cadernos, anotações, composições e pesquisas acumuladas ao longo de décadas. São fragmentos de uma vida dedicada à música.

Apesar de lamentar o passado, Leonel fala com entusiasmo dos projetos que ainda mantém em andamento. Entre pesquisas, registros históricos e novos textos, segue dedicando parte dos dias a preservar histórias que considera importantes para a cultura catarinense.

MISSÃO DE VIDA

Embora a carreira artística não tenha acontecido da forma como imaginava, a música sempre permaneceu presente em sua vida. Primeiro vieram as composições. Depois os programas de rádio. Em seguida vieram os livros, os registros históricos, os discos e as pesquisas sobre artistas catarinenses. O jovem que sonhava cantar acabou se tornando um guardião da memória cultural da região.

Ao longo da vida, Leonel escreveu mais de duas mil composições. Parte desse material foi organizada em pequenos livros produzidos por ele mesmo. Atualmente, são dezenas de publicações reunindo histórias, contos, poesias e canções. “Já estou com 77 anos. O dia que a gente morrer, isso fica aqui”, reflete ao explicar por que procura organizar e reproduzir seus materiais.

A preocupação de Leonel em manter os registros vai além da produção pessoal. Seu objetivo é garantir que parte da cultura popular catarinense permaneça documentada e acessível para as futuras gerações.

Na década de 1970, movido pela paixão pela música sertaneja raiz, comprou espaço em emissoras de rádio para apresentar seus próprios programas. Sem experiência profissional, mas com muita vontade de aprender, enfrentava viagens e dificuldades apenas para ter a oportunidade de compartilhar com os ouvintes as canções que admirava.

Foi no rádio que Leonel encontrou uma das formas mais importantes de contribuir com a cultura regional. Além de divulgar artistas e músicas que raramente encontravam espaço na programação tradicional, ele também abriu portas para novos talentos. Diferentemente de muitas emissoras da época, acreditava que qualquer pessoa merecia uma oportunidade para mostrar seu trabalho.

MEMÓRIA

Um dos episódios que guarda com orgulho envolveu a dupla os irmãos Volei e Valdeci Delfes.

Depois de ouvir os jovens cantarem ainda no início da trajetória artística, Leonel os convidou para se apresentarem em seu programa. Mais tarde, acompanhou a dupla em uma competição promovida pela Rádio Videira, onde conquistaram o primeiro lugar. Para ele, incentivar novos artistas sempre foi uma forma de fortalecer a cultura local.

Com o passar dos anos, a curiosidade sobre a música transformou-se em pesquisa. Hoje, ele possui um acervo de documentos, entrevistas e arquivos em que reúne informações sobre compositores, poetas e músicos que ajudaram a construir a identidade cultural catarinense.

Um dos trabalhos que mais lhe trouxe satisfação foi a pesquisa sobre Fernandes Bortolon, conhecido artisticamente como Zé Paioça. Nascido em 29 de junho de 1933, em uma localidade que hoje pertence ao município de Tangará, o artista chamou a atenção de Leonel por sua trajetória ligada à música popular regional. A pesquisa resultou em um documentário escrito e em diversos registros sobre a vida do músico.

Leonel acredita que Santa Catarina ainda precisa reconhecer melhor seus músicos, poetas e compositores. Costuma citar o exemplo do Rio Grande do Sul, estado que preserva e celebra a memória de seus artistas populares. Para ele, conhecer essas histórias é também uma forma de compreender as próprias raízes.

Entre os objetos que guarda estão discos raros, gravações antigas e coleções completas de artistas que marcaram época. Cada álbum representa uma lembrança, uma descoberta ou um capítulo da história da música que tanto admira. Com uma pilha de discos no colo ele conta sobre a história de cada um deles. O primeiro a ser adquirido foi da dupla Tonico e Tinoco, de quem é fã.

Mas talvez o maior patrimônio acumulado por Leonel não esteja nos discos ou nos livros. Está na dedicação de quem passou décadas registrando histórias para que elas não fossem esquecidas. Em seu escritório particular, mantém um acervo de CDs, discos, documentos e pesquisas que ajudam a contar parte da trajetória cultural de Santa Catarina.

Uma de suas preocupações atuais é justamente o destino desse material. Por isso, procura organizar documentos, reproduzir arquivos e registrar informações que considera relevantes. O receio é que parte desse conhecimento se perca com o passar do tempo.

CULTURA

Leonel também foi um dos incentivadores da criação do Dia Municipal do Poeta Camponovense, instituído em 2019. A iniciativa surgiu a partir de um movimento de valorização dos escritores e compositores locais, uma causa que ele defende há décadas.

Além da música, Leonel é um profundo conhecedor da história de Campos Novos e de personagens que ajudaram a construir o município. Entre pesquisas e registros, acumulou informações sobre figuras históricas, acontecimentos locais e tradições que marcaram gerações.

O palco que imaginava na juventude não chegou. Ainda assim, a música permaneceu em sua vida através das páginas que escreve, das canções que compõe, das histórias que pesquisa e da vontade permanente de preservar a memória cultural. Aos 77 anos, Leonel Fagundes segue trabalhando para que a história dos artistas catarinenses continue viva.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1935 de 02 de julho de 2026.

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