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Momento difícil para os triticultores

Cenário para o trigo é nebuloso, produtores estão desprotegidos e quebra na safra é estimada entre 15 e 20% na região.

O Diretor Executivo da Copercampos, Clebi Renato Dias, participou no Ministério da Agricultura em Brasília, no dia 12 de setembro, de reunião da Câmara Setorial de Trigo, representando a Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC) e a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) em nível nacional. O encontro reuniu representantes de toda a cadeia produtiva de trigo na capital federal.

Com um cenário nada animador, aliando o alto custo de produção, preços em declínio com início da colheita no Paraná e clima desfavorável, numa previsão de perdas expressivas na safra, o produtor está totalmente desassistido, relatou Clebi Renato Dias. “Chegamos à conclusão que o produtor de trigo está totalmente desguarnecido de qualquer proteção. Nós, a Copercampos, como uma empresa que teve a sua origem na produção de trigo, parece que estamos voltando às origens. Não choveu bem no final de semana e teremos perdas significativas na quebra de safra, os preços estão caindo violentamente com o início da colheita no Paraná e os instrumentos de apoio ao produtor praticamente não existem. Vai ter somente um prêmio de escoamento à produção, que poderá ajudar na comercialização do trigo, a partir de São Paulo e até o Nordeste, por exemplo, que não ameniza em nada e não dá nenhuma segurança ao produtor”.

Clebi Renato Dias

Mesmo colhendo 70 sacos por hectare, que era a estimativa inicial, que deve ser reduzida devido ao clima desfavorável, o produtor ainda não cobriria o seu custo de produção. Com um custo de R$ 2.500,00 por hectare, os prejuízos são certos, com perdas estimadas de 15 a 20% devido à falta de chuvas. “Além da redução de plantio, a chuva que era esperada para o último final de semana não veio e poderemos ter perdas de 15 a 20%. Afeta toda a receita do produtor e afeta também a nossa comunidade, que terá menos dinheiro girando entre novembro e dezembro, então o quadro é bem preocupante. Deveria já existir verbas do governo para auxiliar o produtor, mas o cenário é de instabilidade. Por sorte o produtor pode contar com suas cooperativas e entidades que brigam por eles”, disse o Diretor Executivo da Copercampos.

A esperança é que mesmo com as perdas estimadas, se colha um produto com qualidade, tendo em vista que Santa Catarina é o último estado a colher o cereal.  Conforme Clebi, Santa Catarina ocupa hoje o 5º lugar no ranking na produção de trigo, atrás do Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e de São Paulo. Na região de Campos Novos, a redução na área plantada de trigo ao longo dos anos foi de 35%. “A Copercampos tem o seu planejamento anual em todas as culturas. O trigo vem reduzindo ano a ano, a nossa área de plantio já esteve em 13 mil hectares, veio para 11, 10 e agora está ao redor dos 5 mil hectares. Então já está no nosso planejamento essa redução, mas o impacto se dá em toda a região em que a cooperativa atua”, avaliou o diretor.

A oferta do cereal do país neste ano deve ser menor que o esperado, levando a um aumento da importação em relação a 2016, avalia a Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo). Até o momento, segundo o Ministério da Agricultura, a previsão é de que o Brasil importe volumes historicamente elevados de 7 milhões de toneladas em 2017.

O Brasil é um dos maiores importadores globais de trigo, realizando a maior parte das compras na Argentina. Clebi Renato Dias comenta ainda que a falta de incentivo ao produtor de trigo é histórica, num país onde o governo é voltado ao consumidor. “É uma política macro que não conseguiu se ajustar. Os que participam desta Câmara Setorial, avaliam, a grosso modo, que em certos momentos é melhor o país importar o produto do que incentivar o plantio aqui, porque o plantio é bem no Sul no Brasil e para esse trigo chegar no Norte do país, de repente o importado chega mais barato”.

Até julho, as importações de trigo pelo Brasil já somam 3,591 milhões de toneladas, um aumento de 6,5 por cento perante igual período de 2016, segundo dados do governo.

Safra de verão já está planejada e produtor vai reduzir área de milho

Mesmo num cenário de dificuldades com o trigo, os empresários do campo já estão planejando o plantio da safra de verão nas culturas tradicionais de soja, milho e feijão. A tendência é de ter uma nova queda na área plantada de milho em benefício da cultura da soja. “O produtor está vivendo um momento de margens baixas, inclusive negativas, no milho uma redução de plantio de quase 40%, porque o custo de produção está muito alto e a soja ainda é um produto que tem uma certa receita ao produtor e acredito que será a grande aposta. Torcemos para que o clima colabore e o produtor refaça sua receita na propriedade”.

A Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca e o Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Cepa/Epagri) lançaram na quarta-feira, 20, em Florianópolis, a estimativa inicial da safra de verão. Os agricultores catarinenses devem destinar 318 mil hectares ao plantio de milho grão – 12% a menos do que na última safa. Por conta disso, a produção também ficará menor, em torno de 2,6 milhões de toneladas – 16,5% menor do que na safra 2016/17. Essa tendência é observada também nos outros estados do Sul: o Paraná já anuncia uma diminuição de 33% na área cultivada de milho e o Rio Grande do Sul espera 23% de queda.

Essa redução na colheita tem impacto direto no setor produtivo de carnes em Santa Catarina. Como maior produtor nacional de suínos e segundo maior produtor de aves, o estado consome em média seis mil toneladas de milho todos os anos. Entre os motivos que fazem os agricultores abandonarem o cultivo de milho grão estão os altos custos de produção e o preço abaixo do esperado na última safra, fatores que tornaram a soja mais atrativa.

A soja ganha cada vez mais espaço em Santa Catarina. Em média a área destinada ao grão aumenta 6% todos os anos e já chega a 706 mil hectares na safra 2017/18. A produção também deve ser ampliada e chegar a 2,5 milhões de toneladas – ficando bem perto da produção de milho – e superando o recorde atingido na última safra. Hoje em Santa Catarinaa maiores áreas destinadas ao plantio de soja estão em Campos Novos, Abelardo Luz e Mafra.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1497 de 21 de setembro de 2017.

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