Olho d’água abençoado por São João Maria é preservado na Cabanha Ponche Verde em Campos Novos.
Nos olhos d’água onde o Monge acampava, as pessoas acreditavam na cura, que essas águas se tornavam milagrosas. Para saber mais sobre a história do profeta e a passagem pela região de Campos Novos, nossa reportagem conversou com a historiadora Enedy Padilha da Rosa. Enedy confirma que João Maria é o nome pelo qual ficaram conhecidos três monges que passaram pela região Sul do Brasil no final do século XIX e primeira metade do século XX. Tinham o caráter de curandeirismo ou de messianismo. O primeiro deles foi o monge Giovanni “João” Maria D’Agostini, conforme relatos datados de 1844.
Conforme Enedy, nesta época a história também faz referência ao Caminho das Tropas ou Caminho do Sul. “Para nós nos referirmos ao Profeta e também chamado Monge São João Maria, temos que nos reportar ao Caminho das Tropas, o Caminho do Sul. São João Maria D’Agostini teria sido o primeiro, nasceu em 1801 na Itália e teria desembarcado em Sorocaba, São Paulo, em 1844 e através do Caminho das Tropas esteve no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em Santa Maria (RS), ele fundou uma capela às margens de uma olho d’água. É o mesmo Monge que é venerado na Lapa (PR) e nos Campos de Lages. Então ainda no Século XIX, São João Maria deixou benzimentos e crendices, numa época em que os Campos de Lages abrangiam São Joaquim, Campos Novos e Curitibanos e todo o Caminho da Tropas, onde existia o chamado catolicismo rústico em as pessoas acreditam em benzimentoss e profetas, movidas pela sua fé”, relatou a historiadora.
O segundo Monge, João Maria de Jesus, surgiu também misteriosamente, no Paraná e Santa Catarina, tendo vivido entre os anos de 1886 e 1908, havendo, na ocasião, uma identificação com o primeiro, de quem utilizava os mesmos métodos, com curas por ervas, conselhos e água de fontes. Foi o que deixou o maior legado na cultura mística, segundo os relatos históricos, conta Enedy Padilha da Rosa. “Durante a Revolução Federalista houve a passagem do outro Monge São João Maria de Jesus, que aproveitou-se da crença que a população já tinha no primeiro Monge. São João de Jesus foi o mais deixou legado na cultura mística, ensinamentos e crendices na população do Contestado”.
A historiadora também confirma que acredita-se o verdadeiro nome de São Maria de Jesus é Atanás Marcaf. Entre os relatos, estão os que dão conta de que o profeta teria previsto a Guerra do Contestado, entre outras previsões. “Ele teria previsto que chegaria uma época em que os rios se tornariam rubros de sangue, numa alusão à Guerra do Contestado. Também fez alusão a época que haveria nos campos muito rastro e pouco casco, numa alusão às máquinas usadas hoje nas lavouras. Que também chegariam os gafanhotos de aço, que seriam as motosserras que iram destruir as matas, que o céu iria ficar como teia de aranha, numa referência a fiação elétrica, que uma cobra preta iria matar muita gente, o que podemos relacionar ao asfalto, além do tempo que existira muita carestia e pobreza e que os filhos não respeitariam mais os pais”. Alguns autores citam que São João Maria de Jesus teria origem árabe e outros que era francês. O segundo profeta é o que aparece nas fotos que estão na Casa da Cultura.
O terceiro monge, José Maria, surgiu em 1911 no município de Campos Novos (SC), e foi, segundo alguns historiadores, um ex-militar. De acordo com um laudo da polícia de Vila de Palmas (PR), seu verdadeiro nome era Miguel Lucena de Boaventura, um soldado desertor condenado por estupro. De acordo com a historiadora José Maria dizia ser sobrinho do primeiro monge e adotou o nome de José Maria de Santo Agostinho. “O José Maria que é o Monge do Contestado, que morre no primeiro combate. Ele surgiu em Campos Novos e se aproveitou também da fama dos outros dois monges, dessa região que era propícia de crendice, carentes de assistência e de instrução. Ele em 1911 teria curado a Dona Ambrozina, que era mulher do Coronel Francisco de Almeida, o que reacendeu a fé do povo. Coronel Francisco de Almeida é pai do Major Cipriano de Almeida e foi o que legitimou a Invernada ou Fazenda Bom Retiro, que ia de Campos Novos a Zortéa”.
O primeiro combate da Guerra do Contestado aconteceu em 22 de outubro de 1912, quando morre o Monge do Contestado, como ficou conhecido José Maria. Ele utiliza-se também dos mesmos métodos de cura dos anteriores, mas, ao contrário do isolamento, organizava agrupamentos, fundando os “Quadros Santos”, acampamentos com vida própria, e os “Pares de França”, uma guarda especial formada por 24 homens que o acompanhavam. A região onde atuava era palco de disputas por limites e, sob a alegação de que o monge queria a volta da monarquia, foi pedida a intervenção do Governo Estadual de Santa Catarina, o que foi entendido como uma afronta pelo Governo do Paraná, que enviou uma força militar para a região. A força militar chefiada pelo coronel João Gualberto Gomes de Sá invadiu o “Quadro Santo” de Irani (SC), quando morreram em combate o monge José Maria e o coronel, o que determinou o fim do ciclo dos monges e a eclosão franca da Guerra do Contestado.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1502 de 26 de outubro de 2017.

