Olho d’água abençoado por São João Maria é preservado na Cabanha Ponche Verde em Campos Novos.
A crença popular em São João Maria faz parte da vida dos moradores da região de Campos Novos. Vários pontos de olhos ou fonte d’água são preservados em municípios da região. Uma dessas fontes é mantida na Cabanha Ponche Verde, Distrito do Ibicuí, de propriedade do pecuarista Jair Noriler, “A área toda da cabana pertencia a um só fazendeiro e um dia a mulher dele ficou doente e ele era devoto do Monge João Maria. O Monge era conhecido por determinadas curas e o fazendeiro pediu que ele viesse até à fazenda para curar a mulher dele. Uma vaca foi abatida e foram colocadas roupas de cama limpas para receber o profeta, mas os relatos dão conta que São João Maria se recusou a pernoitar na fazenda e pediu licença para encontrar um lugar para repousar perto de uma fonte, que seria essa que preservo. Eu tenho essa área aqui a mais de 40 anos e essa fonte nunca secou, nem mesmo em épocas das piores secas”.
Nos olhos d’água onde o Monge acampava, as pessoas acreditavam na cura, que essas águas se tornavam milagrosas. Para saber mais sobre a história do profeta e a passagem pela região de Campos Novos, nossa reportagem conversou com a historiadora Enedy Padilha da Rosa. Enedy confirma que João Maria é o nome pelo qual ficaram conhecidos três monges que passaram pela região Sul do Brasil no final do século XIX e primeira metade do século XX. Tinham o caráter de curandeirismo ou de messianismo. O primeiro deles foi o monge Giovanni “João” Maria D’Agostini, conforme relatos datados de 1844.
Conforme Enedy, nesta época a história também faz referência ao Caminho das Tropas ou Caminho do Sul. “Para nós nos referirmos ao Profeta e também chamado Monge São João Maria, temos que nos reportar ao Caminho das Tropas, o Caminho do Sul. São João Maria D’Agostini teria sido o primeiro, nasceu em 1801 na Itália e teria desembarcado em Sorocaba, São Paulo, em 1844 e através do Caminho das Tropas esteve no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em Santa Maria (RS), ele fundou uma capela às margens de uma olho d’água. É o mesmo Monge que é venerado na Lapa (PR) e nos Campos de Lages. Então ainda no Século XIX, São João Maria deixou benzimentos e crendices, numa época em que os Campos de Lages abrangiam São Joaquim, Campos Novos e Curitibanos e todo o Caminho da Tropas, onde existia o chamado catolicismo rústico em as pessoas acreditam em benzimentoss e profetas, movidas pela sua fé”, relatou a historiadora.
O segundo Monge, João Maria de Jesus, surgiu também misteriosamente, no Paraná e Santa Catarina, tendo vivido entre os anos de 1886 e 1908, havendo, na ocasião, uma identificação com o primeiro, de quem utilizava os mesmos métodos, com curas por ervas, conselhos e água de fontes. Foi o que deixou o maior legado na cultura mística, segundo os relatos históricos, conta Enedy Padilha da Rosa. “Durante a Revolução Federalista houve a passagem do outro Monge São João Maria de Jesus, que aproveitou-se da crença que a população já tinha no primeiro Monge. São João de Jesus foi o mais deixou legado na cultura mística, ensinamentos e crendices na população do Contestado”.

A historiadora também confirma que acredita-se o verdadeiro nome de São Maria de Jesus é Atanás Marcaf. Entre os relatos, estão os que dão conta de que o profeta teria previsto a Guerra do Contestado, entre outras previsões. “Ele teria previsto que chegaria uma época em que os rios se tornariam rubros de sangue, numa alusão à Guerra do Contestado. Também fez alusão a época que haveria nos campos muito rastro e pouco casco, numa alusão às máquinas usadas hoje nas lavouras. Que também chegariam os gafanhotos de aço, que seriam as motosserras que iram destruir as matas, que o céu iria ficar como teia de aranha, numa referência a fiação elétrica, que uma cobra preta iria matar muita gente, o que podemos relacionar ao asfalto, além do tempo que existira muita carestia e pobreza e que os filhos não respeitariam mais os pais”. Alguns autores citam que São João Maria de Jesus teria origem árabe e outros que era francês. O segundo profeta é o que aparece nas fotos que estão na Casa da Cultura.
O terceiro monge, José Maria, surgiu em 1911 no município de Campos Novos (SC), e foi, segundo alguns historiadores, um ex-militar. De acordo com um laudo da polícia de Vila de Palmas (PR), seu verdadeiro nome era Miguel Lucena de Boaventura, um soldado desertor condenado por estupro. De acordo com a historiadora José Maria dizia ser sobrinho do primeiro monge e adotou o nome de José Maria de Santo Agostinho. “O José Maria que é o Monge do Contestado, que morre no primeiro combate. Ele surgiu em Campos Novos e se aproveitou também da fama dos outros dois monges, dessa região que era propícia de crendice, carentes de assistência e de instrução. Ele em 1911 teria curado a Dona Ambrozina, que era mulher do Coronel Francisco de Almeida, o que reacendeu a fé do povo. Coronel Francisco de Almeida é pai do Major Cipriano de Almeida e foi o que legitimou a Invernada ou Fazenda Bom Retiro, que ia de Campos Novos a Zortéa”.
O primeiro combate da Guerra do Contestado aconteceu em 22 de outubro de 1912, quando morre o Monge do Contestado, como ficou conhecido José Maria. Ele utiliza-se também dos mesmos métodos de cura dos anteriores, mas, ao contrário do isolamento, organizava agrupamentos, fundando os “Quadros Santos”, acampamentos com vida própria, e os “Pares de França”, uma guarda especial formada por 24 homens que o acompanhavam. A região onde atuava era palco de disputas por limites e, sob a alegação de que o monge queria a volta da monarquia, foi pedida a intervenção do Governo Estadual de Santa Catarina, o que foi entendido como uma afronta pelo Governo do Paraná, que enviou uma força militar para a região. A força militar chefiada pelo coronel João Gualberto Gomes de Sá invadiu o “Quadro Santo” de Irani (SC), quando morreram em combate o monge José Maria e o coronel, o que determinou o fim do ciclo dos monges e a eclosão franca da Guerra do Contestado.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1502 de 26 de outubro de 2017.


