Campeã da Vida e das Pistas:
Aline Rocha fala sobre o acidente e o processo que a fez se
tornar a principal atleta paralímpica do país
Atualmente em São Carlos/SP, a camponovense de coração, curte o feito de ter sido neste ano Campeã Mundial no Esqui Cross-country.
A história que trazemos nesta edição do Especial “Camponovenses” é absolutamente inspiradora, traz uma personagem campeã da vida e das pistas, um verdadeiro exemplo de força, superação e resiliência. Aline Rocha, hoje com 32 anos, está vivendo o seu auge como atleta paralímpica, quebra recordes, acumula títulos e faz história pelo mundo.
Em entrevista concedida ao Jornal O Celeiro, Aline conta que por acaso nasceu no Paraná, mas que suas lembranças da infância iniciam quando seus pais se mudaram para Campos Novos, onde se estabeleceram e por aqui ficaram. A cidade também marca um período mais delicado da vida de Aline, um momento doloroso e ao mesmo tempo ressignificante, mas que transformaria a sua vida de uma forma surpreendente e inimaginável.
Um acidente automobilístico, ocorrido em 2006, enquanto voltava da casa de uma tia em Xanxerê, por pouco não tirou lhe tirou a vida. No carro, Aline ocupava o banco de trás, e o impacto frontal com outro veículo fez com que o banco esmagasse sua coluna. De um dia para o outro, a jovem que radiava vitalidade, viu a sua vida mudar radicalmente.
“Eu lembro que eu não viajava muito com a minha mãe, mas neste dia ela insistiu para eu ir junto com ela e com meu irmão, e quanto estávamos voltando para casa sofremos um acidente no trecho entre Vargem Bonita e Catanduvas. Eu estava com aquele cinto de segurança antigo, só com uma ponta, e atrás de mim havia muita bagagem no porta-malas, e com o impacto, o banco traseiro quebrou e acabou quebrando a minha coluna e perfurando meu intestino”, relembra.
Aline foi encaminhada para o Hospital de Joaçaba e posteriormente para o Hospital de Florianópolis, onde ficou 30 dias internada, 15 deles na UTI. Quando já estava em Campos Novos, após uma visita médica, o cardiologista Dr. Josmar identificou que Aline apresentava infecção hospitalar, foi novamente transportada para Florianópolis onde realizou a segunda cirurgia da coluna e no intestino.
“Quando saí do hospital lembro que eu ganhava as fraldas das farmácias, cadeira de banho, fisioterapia, hidroterapia e tantas outras coisas. O Dr. Josmar foi muito importante para mim, ele que deu todos os encaminhamentos para depois eu me recuperar no Hospital Sarah Kubitschek, em Belo Horizonte”, comenta.
O acidente poderia ter lhe tirado a vida, mas enquanto na verdade, foi o seu renascimento. Nas palavras da própria Aline Rocha, o acidente lhe tirou os movimentos das pernas, mas o esporte lhe deu asas. Quem imaginava que aquela menina franzina, que mal participava das aulas de Educação Física, viria a se tornar a principal atleta paralímpica do país, e uma das maiores do mundo?
Atualmente Aline e seu esposo e treinador, Fernando Orso, residem na cidade de São Carlos. Há um ano resolveram se mudar para a cidade paulista a fim de ficarem mais próximos da confederação de esportes na neve, ali foi montada uma estrutura completa de treinamento e fisiologia. No mesmo local também acontecem as competições e treinamentos de roller ski.
Apesar da distância, o carinho e gratidão por Campos Novos é muito grande no coração de Aline, como iremos acompanhar em detalhes a seguir na Reportagem “Especial Camponovenses”.
- Você é paranaense de nascimento, mas camponovense de coração? Isso?
Eu nasci na cidade de Pinhão, no Paraná, tanto a cidade, quanto o estado, eu praticamente nem conheço. Meu pai sempre trabalhou em barragem, e até meus 10 anos de idade a gente não parava em lugar nenhum, passamos por muitas cidades. Até que meu pai foi para Campos Novos por causa da barragem, minha mãe fez um curso de cabelereira e ali nos estabelecemos. É a primeira cidade que eu tenho lembranças da minha infância, dos amigos, da escola. Falarem que eu sou do Paraná, não faz muito sentido, porque nem eu mesma me considero paranaense, não por mal, mas porque nem conheço o local onde nasci, meu vínculo é todo em Santa Catarina.
- Como foi o processo de encarar a nova realidade?
Além de toda a ajuda que recebi dos médicos e empresários e da comunidade como um todo, as pessoas que conheci na escola depois do acidente, os novos amigos que eu fiz, foram todos importantes. Lembro que no primeiro dia de aula que retornei para a escola foi muito difícil para mim, foi o dia que fiquei com vergonha de sair na rua, lembro que fui arrastada para a escola, briguei com todo mundo porque eu não queria ir, a minha vontade era ir morar no meio do mato. Mas, quando cheguei na escola, todo mundo me recebeu de braços abertos, professores, os próprios alunos sempre me incluíam nas atividades, sempre fizeram de tudo para me ajudar e nunca me senti excluída, em momento nenhum. As pessoas que apareceram no meu caminho fizeram toda a diferença e isso foi o maior diferencial.
- De onde surgiu o convite para se tornar atleta?
Eu havia concluído o Ensino Médio, estava com 19 anos, e foi pelo ORKUT que um atleta de basquete em cadeiras de rodas me convidou para conhecer a Arad (Associação Regional Dos Atletas Com Deficiência Do Meio Oeste Catarinense). Meu padrasto e minha mãe me levaram até Joaçaba para conhecer a associação e ali eu conheci os fundadores da Arad, entre eles o Fernando Orso. Participei de um treino de basquete, vi que era terrível com bola e então fui para a corrida. Menos de 1 mês e meio depois eu já estava competindo.
- Que lembranças você tem da sua primeira competição?
A primeira prova que competi foi no PARAJASC realizado em Itajaí no ano de 2010. Eu não tinha cadeira de corrida, corri com uma cadeira de basquete que era da Arad, e na oportunidade corri os 100, 200 e 400 metros e ganhei três medalhas de bronze naquela competição. Foi ali que decidi que era o que eu queria fazer.
- A sua primeira cadeira de corrida você conseguiu realizando um bingo?
Um bingo realizado no Salão Paroquial de Campos Novos em 2013, foi o responsável por angariar fundos para a aquisição da minha primeira cadeira própria para corrida, que acabamos comprando do Japão. Toda a minha família e amigos próximos se mobilizaram para ajudar no dia, que foi uma verdadeira loucura, com o público lotando as dependências e superando muito as expectativas criadas. Nem eu mesmo imaginava que tinha tanto carinho da população camponovense. No final das contas, acabamos conseguindo arrecadar dinheiro suficiente para comprar a cadeira que viria a me acompanhar nas competições por quase uma década.
- Por que decidiram deixar Santa Catarina?
Em 2012 comecei a participar do Circuito Nacional, e já fiquei em 3º lugar no Ranking Nacional logo no primeiro ano. Um dos treinadores da Seleção Brasileira me convidou para participar dos jogos de São Paulo, fui para São Caetano do Sul, onde este treinador trabalhava juntamente com os demais atletas da seleção brasileira. Lá eles ofereciam toda a estrutura de treinamento e tivemos que optar por deixar Santa Catarina.
- Como é o seu calendário de competições?
Praticamente todos os meses tem competição, participo de 4 a 5 maratonas por ano, circuito nacional. Comecei a competir no Ski em 2016 e por isso tive de abrir mão da Corrida de São Silvestre, onde sou pentacampeã. As competições de ski acontecem no período de inverno na Europa, começam em novembro e seguem até março. Ao todo já competi em 18 países. Neste ano o planejamento é participar de uma ou duas etapas de Copa do Mundo de Ski, para se manter bem posicionada no Ranking Mundial, até os Jogos Paralímpicos de Verão em Paris em 2024.
- Como você se mantém atualmente, quem são os incentivadores?
No início o Fernando correu muito atrás de patrocínios, buscava exposição na mídia, fazia projetos, mas hoje, as próprias confederações e federação reconhecem e fazem de tudo pela gente, inclusive com a chegada de patrocinadores. Desde 2016 recebo a Bolsa Pódio, da confederação nacional, como prêmio por se manter no TOP10 do ranking mundial. A medalha de Ouro que conquistei no Mundial, também será considerada, e ganharei um incentivo referente a este feito. Represento o Comitê Paralímpico Brasileiro nas competições tradicionais, nas de ski, represento a Confederação Brasileira de Esportes na Neve. Por estar residindo em São Paulo, também estou recebendo pelo segundo ano consecutivo uma bolsa do estado, que tem por base premiar os principais atletas do Ranking Mundial.
Além deles, também ganho o suporte de equipamentos da Jumper de Rio Claro/SP, na parte de suplementos, desde o início tive o apoio da Formularium de Joaçaba, além de outros incentivadores que eu tive ao longo dos anos.
- Quais foram as conquistas mais expressivas na carreira?
A começar pela minha última conquista, sendo campeã mundial na prova rápida (sprint) do esqui cross-country paralímpico, na Suécia, me tornando a primeira brasileira a conquistar um ouro em esportes de inverno. Antes dessa prova, dois dias antes, conquistei um terceiro lugar na prova middle distance, que ficou marcada como a primeira medalha feminina em Mundiais. No ski, além dessas, tenho mais 4 medalhas de bronze em Copas do Mundo, que para mim, são todas especiais.
Há dois anos eu ganhei o Prêmio Paralímpico de melhor atleta do Ski, entre masculino e feminino, e tenho reais condições de voltar a ganhar este prêmio neste ano, pelas minhas conquistas.
Na corrida, em 2021 participei da Maratona de Berlim e conquistei a minha primeira medalha numa Majors Marathon, o circuito das maiores maratonas do mundo, me tornando também a única brasileira a conquistar um pódio numa competição deste nível. E ainda nesta categoria, busco agora participar do Parapan, conquistar medalhas e garantir a minha participação em Paris, na Paralimpíada de Verão.
- Como foi a repercussão na mídia após conquistar o ouro no Mundial?
Essa medalha do Mundial gerou uma mídia muito grande, até me surpreendi. Teve gente que tirou fotos do metrô aqui de São Paulo e me mandou, onde levava a minha foto e o dizer “Campeã Mundial”, algo que eu nem imaginava e nem sabia que estava acontecendo. O pessoal vai lembrar que eu não gostava de falar muito, hoje desenvolvi bem mais este lado, sou bem mais comunicativa, acabo dando entrevistas para as televisões. Só não repercutiu mais, em virtude de uma certa resistência da mídia para emplacar as notícias e as conquistas do esporte paralímpico.
- Porque tantas pessoas ficam pelo caminho no seu esporte?
Os primeiros anos foram os mais difíceis, tem que investir do próprio bolso, tirar dinheiro da família, minha mãe já pagou muita competição, a mãe do Fernando também já ajudou muito. Mas eu persisti e quando a gente consegue chegar no Top 10 do ranking, o que é muito difícil, as coisas se tornam mais fáceis, pois recebemos os convites para competir com todas as despesas pagas e ainda podemos faturar as premiações em dinheiro. E é neste processo que muitas pessoas ficam pelo caminho e desistem dos sonhos.
- Quem é o seu maior ídolo do esporte?
Para mim, Ayrton Senna é o maior ídolo de todos os tempos, mesmo não podendo acompanhá-lo por muito tempo, penso que tudo que ele fazia era incrível. Existe uma frase dele que eu gosto muito que diz “Seja você quem for, seja qual for a posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá”, e eu acabo levando isso para a minha vida, sempre fazendo tudo com dedicação.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1768 de 02 de março de 2023.

