Uma organização social com atuação em diversas cidades brasileiras, incluindo três em Santa Catarina, foi alvo de uma operação nacional por suspeita de desvio de recursos públicos da saúde. A ação, batizada de Operação Duas Caras, foi coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo, com o apoio de órgãos de outros estados, e apura irregularidades que ultrapassam R$ 1,6 bilhão.
A Associação Mahatma Gandhi, entidade privada sem fins lucrativos que atua na gestão de unidades de saúde, é o foco das investigações. A operação ocorreu nesta quinta-feira (7), com cumprimento de mandados em Mafra, Itapoá, Palhoça e São José (SC), além de cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais.
Suspeita de esquema de corrupção bilionário
Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), a organização investigada teria criado um “departamento paralelo” dentro da própria estrutura administrativa. Esse núcleo informal teria a função de executar contabilidade clandestina, viabilizar pagamentos indevidos, superfaturamentos, emissão de notas fiscais frias e garantir vantagens ilícitas em contratos públicos de saúde.
As práticas suspeitas permitiriam que os responsáveis pelo esquema direcionassem os contratos a empresas controladas pelo próprio grupo, criando um ciclo de contratação e desvio de verbas públicas. Parte dos contratos sob investigação envolve convênios firmados com estados e municípios para gestão de unidades de saúde.
Impacto direto nos serviços de saúde
Além dos desvios financeiros, a má gestão gerada pelo esquema teve consequências graves no atendimento à população. O MPSP apurou relatos de mortes em unidades geridas pela organização, bem como um elevado número de ações trabalhistas movidas por ex-funcionários.
Como medida emergencial, a Justiça determinou intervenção imediata na OS Mahatma Gandhi, com nomeação de um interventor judicial. A decisão judicial também proíbe a rescisão dos contratos de gestão por 30 dias, com o objetivo de evitar a descontinuidade dos serviços de saúde e garantir a estabilidade dos empregos vinculados às unidades afetadas.
Mandados em várias regiões do país
A operação cumpriu mais de 100 mandados judiciais, incluindo:
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12 de prisão temporária;
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ordens de afastamento da direção da OS;
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buscas e apreensões;
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bloqueio de bens.
Essas medidas foram realizadas em municípios catarinenses e também em cidades como Catanduva, Arujá, Carapicuíba, Piracicaba, Viradouro e Bauru (SP), Rio de Janeiro (RJ), Maricá (RJ) e Alfredo Chaves (ES).
Atuação interinstitucional contra o desvio de recursos públicos
A ação coordenada nacionalmente contou com a participação dos Ministérios Públicos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. Também colaboraram a Secretaria da Fazenda de São Paulo, a Receita Federal, a Polícia Militar de SP e a Polícia Federal, que deflagrou uma operação paralela para investigar desvios em Bebedouro (SP).
De acordo com o MPSP, esse modelo de atuação conjunta é essencial para recuperar recursos desviados e restaurar a confiança no sistema público de saúde. “Este modelo investigativo e operacional permite fortalecer o enfrentamento das organizações criminosas pelo Estado e recuperar a dignidade do atendimento de saúde aos cidadãos”, afirma o órgão.
Origem do nome “Operação Duas Caras”
O nome da operação faz referência à conduta dual da organização investigada. De um lado, ela se apresentava como parceira da gestão pública e promotora de ações sociais. Do outro, segundo o MP, utilizava os próprios contratos para alimentar um esquema de corrupção e enriquecimento ilícito. A contratação de empresas ligadas ao grupo para emissão de notas frias era parte do modus operandi da organização criminosa.
O que dizem as prefeituras catarinenses envolvidas
Itapoá
A prefeitura de Itapoá confirmou a presença do Gaeco na UPA 24h e ressaltou que a ação é direcionada à empresa, sem envolvimento do poder público municipal. A OS Mahatma Gandhi ainda é responsável pela unidade, mas já há processo de substituição em curso. Em março de 2025, foi realizado Chamamento Público para nova contratação, mas o resultado foi judicializado pela empresa atual, que não venceu o certame. O município aguarda decisão judicial para concluir a troca.
Mafra
Em Mafra, a prefeitura informou que a UPA Padre Aldo Seidel recebeu visita do Gaeco para verificação de contratos. A ação, segundo o governo municipal, está relacionada à Operação Descalabro, deflagrada pela Polícia Federal em Bebedouro (SP), e não envolve diretamente a gestão local ou seus servidores. A administração municipal reafirmou seu compromisso com a legalidade, a transparência e o funcionamento regular dos serviços.
São José
A prefeitura de São José foi procurada, mas não respondeu até o fechamento da matéria. O espaço segue aberto para manifestação oficial.
Fonte: NSC Total / Imagem:

