Como alternativa, alguns agricultores optaram por migrar para outras culturas, como aveia, canola e plantas de cobertura.
Gerente de Assistência Técnica da Copercampos
A previsão de um ano marcado pelo El Niño já mudou o planejamento da safra de inverno em Campos Novos e região. Considerada a cultura mais sensível ao excesso de chuva, o trigo teve redução de aproximadamente 40% na área plantada no município. Na área de atuação da Copercampos, a diminuição chega a 50%, reflexo do receio dos produtores diante do clima previsto.
Segundo o Gerente de Assistência Técnica da Copercampos, Fabrício Hennigen, a preocupação começou muito antes do início do plantio. Ainda durante a colheita da soja, quando surgiram as primeiras previsões de atuação do El Niño, muitos agricultores passaram a reavaliar os investimentos para o inverno. “O produtor escuta falar em El Niño e já se preocupa”, resume.
O fenômeno concentra chuvas entre setembro e dezembro, justamente no período mais importante para o desenvolvimento das lavouras de trigo na região. É durante essa fase que a cultura entra em florescimento e, posteriormente, na colheita. O excesso de umidade favorece doenças como a giberela, reduz a incidência de luz solar, dificulta o manejo e compromete a qualidade dos grãos. Em muitos casos, um trigo que seria destinado à panificação acaba sendo comercializado apenas para ração, reduzindo significativamente o valor recebido pelo produtor.
“O grande problema do El Niño é no inverno. A chuva durante a floração e na colheita aumenta as doenças e derruba a qualidade do trigo”, explica o agrônomo.
PLANEJAMENTO NO CAMPO
A decisão sobre o que plantar não acontece apenas quando chega a época da semeadura. O planejamento começa meses antes e leva em consideração a previsão climática (que é analisada diariamente pelos técnicos), o custo de produção, preço das commodities e histórico das últimas safras.
Neste ano, muitos produtores decidiram reduzir a área destinada ao trigo ou simplesmente abrir mão da cultura. Outros optaram por manter o planejamento original, apostando em um manejo mais rigoroso para enfrentar os desafios impostos pelo clima. Segundo Fabrício, não existe uma receita única. Cada propriedade possui uma realidade diferente, mas todas precisam colocar o clima na conta antes de definir a estratégia.
Quem decidiu diminuir ou abandonar o trigo buscou alternativas para manter o solo protegido até a chegada da safra de verão. As principais opções foram plantas de cobertura, aveia, carinata e, em algumas regiões, canola. Embora também sofram influência das condições climáticas, essas culturas apresentam menor risco econômico ou cumprem um importante papel na conservação do solo. “O produtor abre mão de uma possível renda no inverno, mas prepara melhor a área para a soja e reduz os riscos”, explica.
Além do clima, a rentabilidade também pesou na decisão. De acordo com Gerente de Assistência Técnica, o preço pago pelo trigo na última safra desanimou muitos agricultores. Assim, a previsão de um El Niño acabou potencializando uma tendência que já vinha sendo observada.
O produtor precisará aproveitar cada pequena janela de tempo firme para plantar, pulverizar ou colher. Muitas vezes será necessário antecipar aplicações de defensivos, reorganizar o cronograma de trabalho e revisar máquinas antes mesmo da abertura da janela de plantio.
Em algumas propriedades, o uso de drones deverá complementar o trabalho dos pulverizadores tradicionais, principalmente quando o solo estiver encharcado e impedir a entrada dos equipamentos pesados. “O produtor vai precisar estar sempre um passo à frente. Não dá para esperar o problema aparecer.”
Em um cenário de chuvas frequentes, poucos dias de clima favorável poderão fazer toda a diferença para garantir um bom estabelecimento da lavoura ou controlar doenças no momento correto.
TECNOLOGIA QUE REDUZ RISCOS
A evolução tecnológica da agricultura tem permitido reduzir muitos dos impactos causados pelo clima. Sementes de maior qualidade, tratamento industrial, monitoramento meteorológico, novas moléculas para controle de doenças e equipamentos cada vez mais eficientes oferecem mais segurança ao produtor.
Ainda assim, há situações que continuam fora do controle. Segundo o diretor técnico da Copercampos, a maior preocupação permanece sendo a chuva durante a colheita. “Nós conseguimos amenizar muitos riscos com tecnologia e planejamento. O que não conseguimos controlar é a chuva na colheita.”
Apesar das incertezas, a expectativa da cooperativa continua positiva. A orientação é intensificar o monitoramento das lavouras, agir preventivamente contra doenças e aproveitar ao máximo as informações meteorológicas para tomar decisões rápidas.
“O produtor não controla a chuva, mas consegue controlar o planejamento. Neste ano, quem estiver mais preparado terá melhores condições de enfrentar os desafios.”
A decisão de diminuir o plantio ou optar por outra cultura neste ano demonstra que o agricultor está cada vez mais atento às informações climáticas e ao comportamento do mercado. Se antes as escolhas eram baseadas principalmente na tradição, hoje elas passam por análises técnicas que buscam reduzir riscos e preservar a rentabilidade da propriedade diante de cenários cada vez mais imprevisíveis.
A agricultura é uma empresa a ceu aberto, e não há como controlar o clíma. Com a possibilidade de eventos climáticos adversos, é importante não tomar decisões apenas pela expectativa climática, mas trabalhar com planejamento. O produtor que acompanha as previsões, investe em manejo adequado e toma decisões técnicas tem muito mais condições de enfrentar um El Niño com menores perdas.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1939 de 30 de julho de 2026.

