Segunda-feira , 11 Dezembro 2017
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A tradição que vem de berço

Com uma vida dedicada ao tradicionalismo e aos rodeios, Sebastião Stefanes relata sua história.

Sebastião Stefanes

Quem gosta geralmente é assíduo e marca presença em pelo menos um rodeio por mês. Assim, fazem um acampamento com trailer, caminhão e barracas, organizam o espaço para dormir, levam todos os utensílios campeiros, uma boa carne, chimarrão e claro, os cavalos. O espaço do rodeio torna-se um ambiente familiar e a festa é garantida.

Nos rodeios é possível vivenciar diferentes manifestações culturais como vestimentas típicas, cavalos e o esporte, como competições de laço e gineteadas, onde fica evidente a habilidade e destreza do peão campeiro.

O tiro de laço é a modalidade preferida da maioria, realizada em uma cancha onde o laçador, montado em seu cavalo, busca laçar o boi dentro dos limites de espaço estipulado.

Mas, de acordo com o tradicionalista camponovense, Sebastião Stefanes, patrão do Piquete Miro Stefanes filiado ao CTG Laço da Saudade e registrado em 1968, os rodeios nem sempre foram eventos com grandes estruturas como são hoje. Em entrevista à reportagem do jornal O Celeiro, Tião Stefanes, como é conhecido hoje no meio tradicionalista, é ex-coordenador da 3ª RT (Região Tradicionalista) do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho), relatou seu envolvimento com a realização de rodeios na região de Campos Novos, e lembrou que no passado os eventos de laço comprido, eram tratados apenas como um momento de diversão entre amigos e familiares.

“Não se tinha premiação em dinheiro, era colocar as pessoas que gostavam dentro de uma camionete e se deslocar até o local que iria sediar o evento. Naquele tempo também não havia brete saca laço, tinha um peão a cavalo com um gancho que era apresilhado na chincha do animal, sendo assim, tirado o laço da aspa da res pela argola. O gado era tocado em lotes, por dentro da cancha até a mangueira de solta, o gado era conduzido por todos que participavam do rodeio e a confirmação da armada ainda era diferente, hoje é feita dentro do brete de saca laço com a armada cerrada, se não vista antes pelos juízes nos cem metros, antes o laçador precisava fazer a res virar a cabeça para os juízes confirmarem a armada feita”, recordou saudoso Tião Stefanes.

“Antigamente o objetivo dos CTGs (Centros de Tradições Gaúchas) era fazer amizades e se divertir, sendo que as equipes que hoje são compostas por quatro peões, antes eram por dez. Era por diversão que as equipes eram compostas por dois bons laçadores, três intermediários e o restante principiantes, para não ficar feio e errar todas as armadas da equipe. Então nossa equipe era composta por Assis, Nelson e Osni Noriler, Valdeni Fagundes e João Stefanes, que eram os melhores laçadores, então tinham os outros”, lembra o tradicionalista.

Sebastião Stefanes reforça que sua ligação com o tradicionalismo vem de berço e de sua criação como tropeiro.

“Minha história com o tradicionalismo vem de família, fui criado como tropeiro, e antigamente participávamos em municípios da região como Campo Belo, onde os animais eram disponibilizados pelos realizadores, se dormia nos pelegos e a coisa era mais simples, já hoje em dia tem que ter toda uma estrutura, começando pelo cavalo, os arreios, uma camionete com luz, água, lugar para dormir, pra deixar a comida do cavalo”.

Um esporte de valores

Tião Stefanes destaca também que o tradicionalismo preserva valores éticos, relacionados à solidariedade e a família. “Atuei 20 anos na coordenação do MTG e sai sem nenhum inimigo, onde a minha a equipe sempre esteve ao meu lado auxiliando nas decisões, em que o bom senso sempre prevaleceu acima de tudo. Valeu a pena, pois é gratificante o reconhecimento das pessoas. Podemos considerar o rodeio, um dos melhores seguimentos, porque é uma atividade em família, lá dentro do rodeio há muita união entre os participantes. Uma coisa que eu ouvi há 40 anos em Caxias do Sul e que marcou, foi quando uma figura conhecida no Estado Gaúcho se aproximou de dois juízes e questionou: Qual dos senhores fez um julgamento em que foi encontrado droga no bolso de uma bombacha? Eles responderam “nenhum”, enfatizou Tião Stefanes.

O tradicionalista ressalta ainda que quem busca a “independência econômica”, competições de laço comprido não é o melhor caminho a ser seguido. “Esse esporte não depende só do talento. É o cavalo, o boi e o peão, é um trio que tem que estar em sintonia, o que torna a laçada prazerosa, quem busca ficar rico neste esporte, não terá muito sucesso”, observa.

Como o rodeio é um esporte bem difundindo na região de Campos Novos, Tião Stefanes sugere que o poder público olhe com bons olhos. “Eu sempre digo, não é despesa para o município e sim um investimento, que leva o nome da cidade além das fronteiras”.

Colecionador de inúmeras taças e troféus, Tião Stefanes comenta ainda que a família pretende investir na construção de local apropriado para guardá-los. “Temos praticamente centenas de taças e troféus em nossa história nos rodeios, desde quando começamos sempre trouxemos alguma premiação para casa, e para não deixar esses momentos serem esquecidos, ainda temos o sonho de construir uma sala para expor nossos troféus”, finaliza o tradicionalista camponovense, Sebastião Stefanes.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1499 de 05 de Outubro de 2017.

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