Crise na saúde repercutiu em todos os setores da sociedade causando medo, aflição e desespero na população.
“Estou com medo de não conseguir manter os negócios. Perdi alguns clientes em menos de uma semana. Se essa situação continuar não sei o que vou fazer.”
“Acho que vou perder meu emprego. A empresa em que trabalho está há dias fechada, acho que meu chefe não vai ter condições de manter todos os funcionários. Ele vai ter muito prejuízo. Tenho minha família para sustentar. O que vou fazer agora?”
“Eu estava com vários planos para este ano. Minha viagem do sonho já estava agendada. Mas tudo mudou. Agora teremos que cancelar projetos e sonhos para poder passar por este momento difícil.”
“Trabalho por conta própria como diarista e devido a esse vírus minha renda mensal caiu bastante. Tenho contas a pagar e não sei como vou fazer nestes próximos meses. Está bem complicado.”
Medo e ansiedade são sentimentos normais que todo ser humano pode apresentar em determinados momentos. Ficar temeroso ou ansioso pode até mesmo servir de proteção e nos ajudar a fugir do perigo. Mas quando o medo e a ansiedade levam ao desespero isso significa que estes sentimentos estão fora do controle e podem causar dificuldades. Seguimos há quase um mês em estado de alerta causado pela pandemia da Covid-19. A situação de incerteza e instabilidade quanto ao futuro gera uma preocupação e medo que prejudica o sono, a concentração e leva a um sensação de desesperança que se não forem logo combatidos podem causar sérios problemas de saúde mental. O sustento da família, o futuro dos negócios, a possibilidade de prejuízos e a falta de solução para um problema que só se prolonga formam um combo atormentador na mente das pessoas.
Mesmo as pessoas mais saudáveis poderão ter seu emocional abalado diante das mudanças bruscas e noticias ruins que circulam. Todos precisam de ajuda para atravessar esta fase nebulosa. O jornal ‘O Celeiro’, preparou uma reportagem especial com a psicóloga Juliane Rosa para falar sobre a ansiedade provocada pelo medo do futuro. No bate-papo a profissional falou sobre os sinais de ansiedade e resiliência para lidar e superar o estresse.
Por que a pandemia gera sentimentos de tristeza, medo e raiva? E de que forma elas se manifestam? De uma hora para a outra houve uma brusca mudança na rotina, como o afastamento do trabalho e da vida social. O futuro torna-se incerto, e muitos questionamentos surgem. Também há aqueles que não conseguem lidar com os prejuízos financeiros, chegando a desencadear sintomas de ansiedade. Pensamentos de insegurança trazem a sensação de perca do controle, além de insônia e até crises de pânico. Pessoas com a pré-disposição, ou com algum transtorno psicológico já diagnosticado podem ter os sintomas intensificados durante o período de distanciamento social. No entanto vale ressaltar que, a forma como cada um responderá a situação está intimamente relacionada a sua história e experiências ao longo da vida.
A ansiedade e o medo são sensações naturais, mas quando ela passa a se tornar algo preocupante?
Sim. A ansiedade é uma reação natural de qualquer indivíduo. Sensações como o medo, a preocupação e sentimentos de tensão podem ser características desse estado emocional. O que torna preocupante é a frequência e a intensidade a qual o indivíduo vem manifestando esses sintomas. Ficar apreensivo com algo que está fora do próprio alcance e não ter a certeza do futuro trazem a sensação de ansiedade. Essa ansiedade, quando bem manejada, pode ser positiva, pois auxilia o indivíduo a preparar-se para a situação a qual desencadeou os sintomas. Entretanto, quando os sintomas se tornam mais frequentes e intensos, afetando diretamente a vida e a rotina do indivíduo, paralisando e atrapalhando o dia a dia, pode ser a hora de buscar ajuda.
É possível pensar positivo em meio a tantas notícias ruins?
Preocupar-se é normal, no entanto, é preciso modificar padrões de pensamentos, ou seja, evitar pensamentos pessimistas e praticar a resiliência. Ser resiliente é ter a capacidade de enfrentar e superar as situações adversas, é buscar soluções estratégicas e adaptar-se as mudanças indesejáveis. Ou seja, busque alternativas de lidar com o problema até que a situação melhore.
Os pequenos e médios empreendedores que estão passando por uma crise devido a pandemia, como podem lidar com a frustração de ver seu negócio ruindo ou tendo severos prejuízos?
A oscilação do mercado financeiro traz outro ponto a ser levantado: a frustração do pequeno empreendedor ao ver o seu negócio tendo prejuízos. Cada indivíduo é único, neste sentido, cada um pode experimentar essa frustração em maior ou menor grau. Neste caso, é importante treinar a resiliência. Esse é o momento de refletir sobre as prioridades, reorganizar-se internamente, momento de reinventar-se.
Existe receita para passar por este período difícil?
Identificar pensamentos disfuncionais, reconhecer as emoções e questioná-las podem auxiliar a minimizar essas sensações. No entanto, caso o indivíduo identifique a necessidade, é importante buscar atendimento profissional.
O que fazer quando o medo paralisar?
Para àqueles que identificaram a necessidade de um acompanhamento profissional, uma das opções é a terapia online, a qual pode ser aliada no tratamento e no acompanhamento daqueles indivíduos os quais estão apresentando sintomas em virtude da pandemia.
Com um choque de emoções distintas e limitantes é possível desenvolver uma inteligência emocional que nos permita vencer todos os desafios que venhamos a enfrentar?
Sim. Estamos vivenciando um período atípico e indesejável, no entanto é necessário criar meios para minimizar os impactos na saúde mental. É tentar reinventar-se com os pés no chão e a atenção voltada para a prevenção.
*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1621 de 09 de abril de 2020.


