Eles são originários da Europa, mas há alguns anos começaram a frequentar o Brasil e atualmente é possível encontra-los até em Campos Novos. Conheça os riscos da presença dos javalis para o meio ambiente e para o agronegócio.
Recém-chegados a região, os javalis apareceram em Campos Novos e sua presença foi visivelmente notada pelos produtores rurais porque eles já chegaram causando prejuízos as lavouras e se tornado mais um vilão da agricultura. No município muitos homens do campo relataram perdas nas propriedades em virtude do animal. João Carlos Didomenico, contou sua experiência com o ‘emigrante europeu’. “Nós nunca tivemos problemas com javali, mas hoje o desiquilíbrio que esse animal traz é absurdo. Por enquanto o prejuízo é apenas econômico, mas pode ser que um dia ele traga doenças, porque ele está tendo contato muito próximo com o ser humano, e ele é portador de várias zoonoses. Eles se proliferaram pela abundância de alimentos que temos. O produtor é muito afetado pelos danos causados na lavoura pelo animal. O precisamos arcar com mais este problema no campo”, desabafou. O Sindicato de Produtores Rurais de Campos Novos confirmou que os javalis fizeram estragos em diversas culturas e em cerca de 50 propriedades do município. A situação parece estar saindo do controle.
Será que este animal representa riscos apenas para a produtividade agrícola ou a sua presença acarreta mais repercussões ao meio ambiente? Conversamos com o médico veterinário da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), Diego Severo, sobre os riscos deste animal, afinal ele é um amigo ou inimigo? Diego começa por nos contar um pouco sobre o surgimento dele no Brasil e na região Sul. O javali é um animal exótico, não pertence a fauna brasileira. Ele veio da Europa, e a partir dele se originou o suíno doméstico, tanto que eles são da mesma espécie (Sus Scrofa). Diego acredita que o animal chegou ao Brasil trazido por pessoas que tinham intuito de caçar a espécie. “Em Santa Catarina, em meados dos anos 90 e 2000, eles surgiram e desde então passaram a ser encontrados em muitos municípios”, contou. Após a proibição de criação de javalis pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), em 1998, alguns criadores soltaram seus javalis na natureza, contribuindo ainda mais para que ele se espalhasse mais rapidamente.
Mas enfim, o javali é perigoso, que tipo de riscos ele apresenta? O veterinário explica alguns: “Ele realmente apresenta um risco, pois ele interage com outras espécies e se desconhece o status sanitário sobre as doenças que ele produz. Temos relatos de javalis com hepatite E, leptospirose e outras zoonoses no Brasil. No mundo temos relato de brucelose, tuberculose e diversas outras. Ele é um animal de vida livre na natureza e não tem predadores, que possam combate-lo. Eles interagem com outras espécies, inclusive com suínos domésticos, levando a procriação. A partir desse contato ele pode transmitir doenças para os animais. Para os seres humanos é um risco a manipulação das carcaças na captura dos animais, e no consumo, que não é recomendado. São muitos riscos tanto para os animais quanto para os seres humanos. Além de tudo, eles também devastam lavouras, que é o caso de Campos Novos. Eles são reservatórios de doenças para seres humanos e animais”.
Alistamos alguns dos riscos específicos do javali a natureza: ele estraga as nascentes, sujando toda a água; Cava as encostas causando erosão; Come filhotes de animais como o veado, causando sério problema para a reprodução desta espécie nativa; Come ovos e filhotes de pássaros que nidificam no solo causando baixas na população destes animais; Compete pelos alimentos que seriam naturalmente de Catetos, Queixadas, Quatis, Cotias, Pacas e outros; Prejudica as raízes das arvores frutíferas ao revirar todo o solo na base da planta. Pelo visto o animal é perigoso e deve ser combatido.
O que fazer para erradicar ou minimizar os efeitos da presença do javali na natureza? O controle populacional, por meio do abate animal, tem sido o mais indicado, conforme afirma o veterinário Diego. Porém, o abate não pode ser feito por qualquer pessoa e nem de qualquer forma, é preciso seguir alguns procedimentos para receber autorização de órgãos competentes, conforme esclareceu o comandante da 1° Companhia do 2° Batalhão de Polícia Militar Ambiental, Marco Marafon. “Nós somos autorizadas a ceder autorização para o abate de javalis desde 2010. No Brasil é o IBAMA quem faz essa emissão. Tem duas formas de realizar o controle: por meio de armamento, nesse caso, o produtor ou controlador precisa da autorização do Exército e do cadastro técnico federal junto ao Ibama que confirma o compromisso da pessoa de fazer o controle de animais exóticos. Existem as gaiolas que são colocadas como armadilha, porém, é importante que o produtor chame um controlador para fazer o abate do javali. Nós da Policia Ambiental não fazemos o controle através do abate, nós apenas fiscalizamos, pois é uma atividade em que as pessoas usam armas. Se o produtor tiver cadastro junto ao exército para armamento ele só precisa repassar o CPF junto ao Ibama para realizar o controle dentro da propriedade dele”.
Por se tratar de saúde pública é importante que as autoridades se atentem ao perigo desse problema se tornar ainda maior e acabe prejudicando a condição sanitária do país perante o mundo. A Cidasc tem feito um rastreio para se certificar que as doenças estejam sobre controle. “Nós temos o status como livre de febre aftosa sem vacinação e de peste suína clássica, logicamente vemos com preocupação essa situação. Apoiamos o controle populacional de javalis, pois são nocivos. Quanto a defesa agropecuária temos muita preocupação, e temos como colaboradores os controladores que são os caçadores de javalis. Eles nos trazem amostra de sangue e a partir disso conseguimos fazer alguns exames, até o momento não encontramos nenhum caso grave da peste suína clássica em javalis. Erradicar acho que será algo muito difícil, nem mesmo na Europa isso foi possível. Mas devemos contribuir para a diminuição desses animais”, declarou.
O veterinário Diego aconselha o produtor a ter o máximo de o cuidado para evitar que o javali se aproxime das suas propriedades para que não destrua as lavouras ou tenham contato com os demais animais ou pessoas. Apesar dos órgãos auxiliarem na fiscalização, eles não são responsáveis pelo controle populacional. No entanto, requer mais ações para o reconhecimento da realidade que se apresenta, e o medico veterinário diz que já existe um plano voltado para este tema. “Desde 2010 temos uma portaria que fala sobre o controle populacional. O estado está em vigilância do problema. Precisamos de mais estudos e pesquisas para ter uma noção da quantidade de animais soltos no estado. Precisa haver um investimento maior em pesquisa para termos noção da realidade deste animal. Temos o projeto de um Plano Estadual de Controle do Javali, talvez em 2021 esse plano saia do papel, isto envolve diferentes órgãos como Ministério Público. É uma questão de saúde pública”, finalizou o veterinário.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1662 de 04 de Fevereiro de 2021.


