Campos Novos, o início da comunicação e da imprensa
Desenvolvimento do município foi acentuado pela atuação dos veículos de comunicação na região, aponta Maria Rossi.
Quem estuda a história da comunicação e da imprensa no Brasil e no mundo vai se deparar com uma história diferente em Campos Novos. O tempo e os meios são um dos maiores diferencias neste segmento, que, apesar de ser muito criticado, é um grande fomentador de mudanças, e em Campos Novos isso não é diferente. Quem nos ajuda a contar esta história é a professora Maria Rossi, diretora da rádio mais antiga do município, que presenciou alguns dos eventos e conheceu personagens que ajudaram a construir um legado que dura até hoje. Quem vê as notícias circularem com tanta rapidez e agilidade, através de variados meios, não imagina o quão difícil era levar informações para a população.
Nascida em Erval Velho, quando ainda era distrito pertencente a Campos Novos, Maria começou a dar aulas aos 15 anos de idade, mas seu trabalho não se limitava as salas de aulas, ela também se dividia nas funções da igreja no qual fazia uso do autofalante para dar avisos a comunidade. Inclusive o alto falante, no Brasil, foi, durante muito tempo, usado para como um dos veículos de comunicação nas comunidades. E este provavelmente foi um dos meios utilizados que deram início a comunicação local. Foi neste ínterim que Maria conheceu o Pe. Quintilho Costini, importante personalidade que chegou a região incentivando o desenvolvimento do município, sendo também considerado por muitos profissionais da área como o mentor da comunicação e da imprensa em Campos Novos.
Felizmente o desenvolvimento da comunicação local aconteceu de forma mais efetiva após a ditadura militar, que anteriormente censurava os veículos de comunicação da época.
Além disso, havia uma lentidão na comunicação, Maria diz que em sua infância os acontecimentos nacionais e políticos eram informados através dos livros. “Houve um tempo em que não era possível nem mesmo falar o nome dos gestores, mas este foi um período mais antigo em que a comunicação no Brasil enfrentou a ditadura. Mas nas cidades menores este alcance era menor. As pessoas apenas sabiam os nomes dos gestores que administravam o Brasil, como presidente, deputados, vereadores”, detalha. Mas com o passar do tempo o rádio se apresentou como uma ferramenta muito eficaz para informar, levantar debates e cobrar os agentes políticos. Em meados dos anos 50, Campos Novos ainda engatinhava no caminho do desenvolvimento, mas em 1957, quando o italiano Pe. Quintilho chegou, muita coisa começou a acontecer no município, e a partir daí a comunicação e a imprensa começou a se desenhar.
“Antigamente falava-se que Campos Novos era uma terra de cangaceiros, mas com a vinda do Pe. Quintilho, em 1957, a primeira coisa que ele percebeu foi que Campos Novos precisava de mudanças, faltava escola com ensino de ginásio, e muitas outras coisas. Quando ele chegou aqui, haviam quatro sócios que haviam montado uma rádio com 250 watts, mas naquela época quem regia os meios de comunicação era o Ministério da Agricultura. Esta rádio iniciou em 1957, mas por falta de estrutura, documentação e funcionários aptos não sobreviveu economicamente e foi fechada. O pe. Quintilho, através de sua influência política, conseguiu reverter a situação. Passados alguns anos ele comprou a emissora definitivamente. A rádio começou numa casinha. A potência da rádio foi de 250 para 1000 watts. Ele trabalhou aqui durante 24 anos”, contou Maria.
O rádio foi o começo da comunicação em Campos Novos. Mas como tudo funcionava e quais eram os desafios? “Era muito difícil. Não tínhamos profissionais especializados na área, e os equipamentos eram muito precários. Usávamos uma parafernália de equipamentos, que dificultavam a comunicação. Assim produzíamos as notícias, ou através de cortes de jornais que vinham de São Paulo de um dia para outro. Nós sintonizamos a Rádio Gaúcha de Porto Alegre e a Rádio Nacional de Brasília, e gravávamos as notícias em gravadores grandes”, diz, sendo complementada pela filha, a jornalista Roseli Rossi. “Fazíamos tudo praticamente ao vivo e sempre fomos voltados ao jornalismo e entretenimento. Não tínhamos telefone, internet, celular. Era o único meio de comunicação. Tinha apenas telefone fixo e os jornais chegavam com dois dias de atraso. Nossa fonte de informação era o rádio, porque o jornal impresso chegava muito tarde”, reiterou.
A interação com os ouvintes e a comunidade era bem menor, mas mesmo assim acontecia, e Roseli relata como funcionava. “Quando eu comecei a trabalhar em comunicação só havia a rádio Cultura, ela foi a primeira rádio do Planalto Sul catarinense e uma das primeiras do estado. No programa de auditório fazíamos a apresentação de artistas pela rádio. Recebíamos muitas cartas que eram lidas diariamente. A Hora do Recado, um programa transmitido pela rádio Cultura, era a única maneira das pessoas se comunicarem umas com as outras”, relembra a jornalista. Com o passar dos anos, surgiu a internet permitindo um pouco mais de agilidade ao rádio.
Apesar de o rádio de ter sido o veículo pioneiro no município, o imprenso veio logo em seguida para também servir como porta voz da comunicação em Campos Novos. Jornais como ‘O Espigão’ e ‘O Cruzeiro’ foram citados entre os mais antigos, mas não conseguimos fontes para informar as datas exatas. No entanto, no ano de 1992 surgiu o jornal ‘O Celeiro’, que até hoje atua e foca na notícia local. Ácido e polêmico o jornal batia de frente com as autoridades e junto ao rádio endossava o discurso de cobrança as autoridades. Havia também o extinto Jornal ‘Panorama Regional’ e o ‘Jornal Planalto’ que após alguns anos mudou para ‘Folha Independente’. Em anos mais recentes outras rádios, como a ‘Simpatia FM’ e a rádio ‘ASCUCCA Comunitária 104,9 FM’, surgiram no município fortalecendo a imprensa local junto aos sites e portais de notícias como o da Rádio Cultura, Jornal O Celeiro e Correio Camponovense, fomentando o desenvolvimento da região.
Como a comunicação contribuiu para o desenvolvimento local?
“A comunicação foi um passo importante para o crescimento do município. e a partir daí as coisas evoluíram”, diz convicta, Maria Rossi, citando algumas conquistas alcançadas através da voz do rádio na comunidade. “A rádio encabeçou inúmeras campanhas para trazer renovação e obras ao município. A ponte entre Barracão e Campos Novos era um projeto de 50 anos, mas nunca se concretizou, então nós fizemos uma campanha para conseguir assinaturas solicitando essa obra. O governador da época, Silvio Brito, aderiu a campanha e levou as assinaturas a Brasília e conseguimos construir essa ponte”, foi uma das ações citadas.
O Corpo de Bombeiros também foi lembrado pela diretora. “Antes só tínhamos um caminhão que servia mais para desentupir foças, e não conseguia atender a população de forma correta. Em 1998 iniciamos a campanha para trazer ao município o Corpo de Bombeiros. Formamos uma associação porque queríamos militares e voluntários. Foi muita luta, muita oposição. Buscamos muitas ajudas, fomentamos a discussão e em 1999 tínhamos o primeiro quartel. Então conseguimos alocar o Bombeiros ao lado da Câmara de Vereadores. No início veio um comandante com quatro bombeiros militares e quarenta voluntários. São 20 anos de uma luta iniciada por nós”, destacou Maria.
Apesar de não ser uma história muito longa, a comunicação no município foi essencial para investigar os fatos e registrar nas páginas ou nas ondas sonoras os acontecimentos importantes. Foram 140 anos com muito eventos, acontecimentos marcantes, conquistas, dificuldades e muitas mudanças. A comunicação e a imprensa local não apenas fomentaram o desenvolvimento do município como também cresceu junto a ele. Maria finaliza opinando sobre o assunto: “A comunicação escrita e falada tem grande importância para o conhecimento da população. Nossa população sabe das notícias através do rádio e da internet, mas a seriedade acontece no jornal impresso e no rádio, porque na internet nem tudo está certo. Eu acredito que a comunicação e o rádio nunca sofrerão uma decadência. E o rádio deve estimular a cultura da leitura”.
*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1666 de 04 de março de 2021.


