A primeira professora ninguém esquece: Tia Roze fala sobre os desafios da iniciação escolar
Professora foi a precursora da Pré-Escola no Colégio Paulo Blasi, por onde lecionou por mais de 20 anos.
Em mais uma Edição “Especial Professores”, a reportagem do Jornal O Celeiro traz a história de uma professora-mãezona, que aplicava disciplina, ensinava, dava colo e enxugava lágrimas. A Tia Roze esteve à frente da Pré-Escola do Colégio Paulo Blasi por mais de 20 anos e fez parte da primeira experiência em sala de aula de milhares de crianças.
Filha de Antônio Chiochetta e de Maria Panison Chiochetta, Rozilene Chiochetta Sartori (60) é a primogênita de seis irmãos. Nascida e criada na Serraria Mânica e Götz, no Rio da Vargem, distrito de Campos Novos, estudou na escola Isolada, onde a sua mãe era professora, e consequentemente dali veio a sua fonte de inspiração.
“Minha infância foi muito boa, muito bem aproveitada, nos divertíamos bastante, tinha muita criança onde nós morávamos, brincávamos na serraria, de casinha, fazíamos bolos de serragem. E como a minha mãe era professora, e naquela época os pais achavam que a mulher tinha que fazer o magistério, sempre me imaginei sendo professora, era algo cultural”, explica.
Para dar sequência aos estudos, sua família se mudou para a Vargem, onde cursou de 5ª a 8ª Série. Após concluir o Ensino Fundamental, fez o Magistério no Colégio Auxiliadora, e em 1979, um ano antes de concluir os estudos, teve a oportunidade de se mudar para Campos Novos, vindo morar na casa de seus avós.
Após concluir os estudos, não demorou muito para ter a sua primeira oportunidade em sala de aula. O primeiro trabalho como professora foi no ano de 1981, recém formada, trabalhou de 5ª a 8ª série com a disciplina de matemática na Escola Estadual Paulo Blasi. “Foi um grande desafio, cumprir durante um ano as 40 horas com esta disciplina”, relembra.
Em 1982 ficou trabalhando na biblioteca da escola e no ano seguinte teve início a Pré-Escola no Estado, onde por meio de um convite da Diretora, Dona Eva Tessaro, a Tia Roze começou a sua história na iniciação escolar. “Por ser algo novo, faltava a experiência, foi difícil, e sobretudo para as crianças e suas famílias, existe o contexto de adaptação a novos espaços, pessoas e relações. Contudo, nós passamos por vários treinamentos, tínhamos bastante encontros, orientações e isso contribuiu bastante para o meu preparo profissional”, relata.
Foram mais de 20 anos na Pré-Escola e, detalhe, trabalhou em uma única escola em toda a sua carreira como professora. Período suficiente para dar aula para os filhos dos seus primeiros alunos. Entre este meio tempo também se casou, teve as filhas Danielli e Laís, e fez diversas capacitações na área da Educação como, os Estudos Adicionais da Pré-Escola, Pedagogia e Pós-Graduação.
Atualmente a Tia Roze curte a sua aposentadoria, participa de clubes de serviços, produz pães e cucas sob encomenda, viaja bastante e aproveita a vida. Mas será que ela aceitaria retornar para sala de aula, caso houvesse um convite? Essa resposta e outras história nós iremos acompanhar na entrevista a seguir.
- Quais lembranças ficaram do início da Pré-Escola?
Era muito gratificante. Nós iniciamos numa salinha pequena, onde era o laboratório do Paulo Blasi, foi montado um ambiente para receber as crianças. Tenho várias lembranças, de alguns alunos que marcaram, de vários momentos, foram muitos anos de muitas alegrias. Por quatro anos eu trabalhei por 20 horas na Pré-Escola, e em 1987 a minha carga horária passou para 40 horas, numa média de 30 alunos por turma, um total de 60 alunos por ano, faça a conta de quantos alunos passaram pela minha sala, são milhares.
Lembro ainda que lá no início, a Pré-Escola sempre tinha lugar para mais um, com a Tia Roze sempre teve vaga para mais um. As mães que não tinham com quem deixar seus filhos, levavam para escola e lá eles ficavam no “Pré” por até três anos.
- Ao longo destes anos, as crianças mudaram muito?
As crianças daquela época, início dos anos 80, para as crianças de hoje, tem uma grande diferença. Antigamente as crianças eram mais calmas, mais tranquilas, tudo era novidade para elas, uma simples bolinha de papel já era o suficiente para prender a atenção, tudo era um grande atrativo, afinal, não tinha nem de perto a tecnologia que possuímos hoje.
- A Professora também trabalhou com alunos especiais, como foi esta experiência?
Foram desafios muito grandes e simplesmente tínhamos que assumir. Nós não éramos preparados para receber crianças com necessidades especiais, não tínhamos orientação e nenhum tipo de suporte, diferentemente de agora, os estudos evoluíram, já existem profissionais capacitados, que fazem um trabalho especializado para estas crianças, além da visão de mundo, que hoje felizmente evoluiu muito neste sentido.
- Como foi o desafio de encarar dois processos de reestruturação no ensino?
Eu sempre gostei de começar as inovações, assim foi na Pré-Escola e depois com a alteração do ensino fundamental de 9 anos. A Pré-Escola chega ao fim no Estado no ano de 2006 e logo no ano seguinte assumo o 1º ano e ali desempenho meu trabalho nos anos de 2007 e 2008.
- A senhora deu aula para milhares de crianças, agora, com eles na fase adulta, ainda costuma receber muito carinho?
Quando eu encontro os meus alunos da época, hoje adultos, pais de família, bem sucedidos na vida, ex-alunas que se tornaram professora, eu fico realizada. Eu penso, uma sementinha boa a gente plantou lá atrás. Da mesma forma, fico muito triste em ver meus ex-alunos que já não estão mais entre nós ou acabaram se envolvendo com coisas erradas.
Nesta última semana, inclusive, estava no Supermercado e uma senhora me parou e disse “Tudo bem Tia Roze, quanto tempo”, eu respondi com a mesma simpatia, mas não tinha ideia de quem era a pessoa. Nos lugares que eu vou, muitas pessoas se manifestam dizendo que foram alunos da Tia Roze, e eu acho o máximo, afinal, o primeiro professor ninguém esquece.
- O ano de 2008 foi o seu último em sala de aula, como foi assumir um novo compromisso depois de tanto tempo?
Em 2009, o Gerente de Educação da Gered, me convidou para assumir o cargo de Integrador do Ensino Fundamental. Lá fiquei por seis anos. Tinha um sonho muito grande de conhecer outras realidades, porque minha vida profissional foi só dentro da Escola Paulo Blasi. Por meio do meu trabalho com a regional, conheci as escolas dos oito municípios e, consequentemente, participei de várias atividades e desenvolvi tantas outras habilidades.
Na regional foram muitos desafios, a começar pelo Ensino Fundamental de 9 anos, crianças com seis anos já no 1º ano, a preocupação se elas iriam absorver bem estas mudanças, mas hoje a gente vê que as crianças têm a sua capacidade e estão avançando de forma muito rápida.
- Quais foram as principais ações realizadas na Gered?
No período em que fiquei na Gered eu assumi a realização das feiras, eventos grandes, que exigiam muita dedicação e planejamento. Participei de todas as etapas, municipais, regionais, estaduais e, até para a Bahia estive participando de um evento a nível nacional. Fui coordenadora das Feira de Ciências, um desafio muito grande, mas contei com o apoio do pessoal de fora e realizamos um trabalho muito bom. Também recebemos a Feira de Matemática, onde Campos Novos foi sede da etapa estadual, juntamente com a Bete Rigo, realizamos um grande evento, muito gratificante para nós, pelo resultado e por termos atingido as expectativas.
- Para finalizar, se houvesse hoje um convite, voltaria a trabalhar com a iniciação escolar?
A gente acompanha atualmente o ensino nesta faixa etária, e vemos um progresso muito grande e com muita inovação, portanto, eu teria a preocupação de fazer um grande planejamento e me aprofundar bastante em estudos. Embora, hoje eu não teria mais “pique” para voltar para a sala de aula, deixo para os mais novos, e digo para os futuros professores, entrem no magistério por vocação e não por profissão. Para você prosperar nesta área, é necessário ter muito amor pelo o que faz, sabemos que não é simples ser professor, você precisa ter constância, persistência e ser um eterno apaixonado pela educação.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição, 1769 de 09 de março de 2023.


