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Conscientização sobre o autismo ainda é desafio para ampliar diagnósticos na região

No mês de conscientização, AMA destaca avanços, mas reforça importância do diagnóstico precoce.

Abril é o mês de conscientização sobre o autismo, um período ainda mais propício para ampliar o acesso à informação e incentivar as famílias a buscarem orientação sobre o tema.

Vera Otonelli Durli, diretora da AMA

Em Campos Novos, esse trabalho tem sido realizado pela Associação de Pais e Amigos dos Autistas (AMA), entidade focada não apenas no atendimento de pessoas com TEA, mas também comprometida com a disseminação de informações para a comunidade.

A diretora da AMA, Vera Otonelli Durli, conversou com a equipe do jornal O Celeiro sobre os avanços da entidade e destacou a importância do diagnóstico precoce para garantir melhores resultados e qualidade de vida para pessoas com autismo.

Hoje, enquanto AMA, ficamos felizes porque as pessoas estão mais conscientes. Muitos pais chegam aqui com crianças menores porque perceberam os sinais e buscam informação. Há uma década isso não acontecia”, afirma.

Segundo Vera, no passado, muitos diagnósticos aconteciam apenas na adolescência ou na fase adulta, quando o atraso no desenvolvimento já era mais evidente e com menos possibilidades de intervenção. “Recebíamos pessoas já adolescentes ou adultas, com atraso considerável no neurodesenvolvimento. Hoje é o contrário: algumas crianças chegam com dez meses, um ano, dois anos, e isso faz toda a diferença”, explica.

AS BARREIRAS QUE IMPEDEM O DIAGNÓSTICO PRECOCE

Mesmo com mais informação disponível, o diagnóstico precoce ainda esbarra em mitos, inseguranças e até negação por parte das famílias. “Muitos pais idealizam um futuro para aquela criança e, quando surgem os primeiros sinais, acabam não associando ao autismo. Outros acreditam que o filho vai falar mais tarde, como aconteceu com alguém da família, e acabam adiando a busca por ajuda”, destaca.

Esse atraso pode impactar diretamente no desenvolvimento. “Quanto mais cedo a família perceber qualquer atraso, seja na fala, no comportamento ou no desenvolvimento, e procurar ajuda, maiores são as chances de evolução”, reforça.

Na AMA, o serviço de estimulação precoce atende crianças de zero a cinco anos e 11 meses. Após essa fase, os atendimentos passam por reavaliação. “Esse é o melhor momento para trabalhar as habilidades. Quando a avaliação acontece depois dos seis anos, a evolução é mais limitada e a criança pode precisar de mais tempo de acompanhamento”, explica.

TRANSIÇÃO DOS NÍVEIS

Com quase 30 anos de experiência na área, Vera explica que os níveis do autismo podem variar ao longo do desenvolvimento. “É possível caminhar do nível 1 para o 2, do nível 2 para o 3. Por isso é essencial acompanhar, porque só assim conseguimos estabilizar o quadro”, afirma.

No entanto, segundo a diretora, o CID-11 traz uma abordagem mais ampla. “Os neuropediatras já estão utilizando o CID-11, que propõe um diagnóstico mais abrangente, incentivando a busca por ajuda o quanto antes”, explica.

RESULTADOS DA AMA EM CAMPOS NOVOS

O trabalho da equipe tem gerado resultados significativos. Segundo Vera, o número de crianças que avançam no desenvolvimento tem crescido. “Em 2025, 69 crianças receberam alta e foram para o ensino regular, com acompanhamento. Em 2026, já são 23. Isso mostra o quanto o diagnóstico precoce faz diferença”, afirma.

O Centro de Equoterapia, considerado um marco para a entidade, realiza cerca de 880 sessões mensais de forma gratuita, com apoio de empresas e recursos do Ministério da Saúde. A instituição também adquiriu um micro-ônibus adaptado para o transporte dos pacientes.

CONQUISTAS DA AMA

A cada ano, a AMA amplia seus serviços. Entre as conquistas estão o Centro Odontológico, a estruturação de um novo Centro Clínico e a aquisição do micro-ônibus adaptado. “O ônibus é adaptado, seguro e visual. Nossas crianças amam”, destaca.

O Centro Clínico, em fase final de implantação, deve ampliar os atendimentos com equipe multidisciplinar, incluindo psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e fisioterapia. “Queremos concentrar nossos serviços em um único local. Para isso, contamos com o apoio da comunidade, empresas e órgãos públicos, como a Amplasc, a Prefeitura e a Fundação Catarinense de Educação Especial”, explica.

Outro avanço importante é a utilização de metodologias reconhecidas no atendimento ao autismo, como o modelo TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication-Handicapped Children). A abordagem é baseada na organização do ambiente, uso de recursos visuais e rotinas estruturadas, com foco no desenvolvimento da autonomia e na melhoria da comunicação. O modelo também contribui para a redução de comportamentos desafiadores, ao oferecer mais previsibilidade no dia a dia das crianças.

Considerado uma das metodologias mais utilizadas no mundo no atendimento ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), o TEACCH é adaptado às necessidades individuais de cada paciente e envolve também a participação da família no processo de desenvolvimento.

AUTISMO EM MENINAS

Outro ponto observado nos últimos anos é a mudança no perfil dos diagnósticos. Se antes o autismo era mais identificado em meninos, hoje essa diferença tem diminuído.

“As meninas conseguem camuflar mais os sinais. Elas interagem, fazem amizades, mas depois se isolam para se autorregular. Isso muitas vezes atrasa o diagnóstico”, explica.

O autismo feminino leve (nível 1 de suporte) é frequentemente subdiagnosticado devido à “camuflagem social” (Masking), onde mulheres mimetizam comportamentos sociais para se ajustar.

Caracteriza-se por interesses intensos e específicos, ansiedade social, necessidade de rotina, alta sensibilidade sensorial e a sensação de ser “diferente”. A camuflagem causa exaustão extrema e pode levar a diagnósticos tardios ou errôneos de ansiedade/depressão.

As principais características e sinais em pessoas do sexo feminino são:

  • Camuflagem Social (Masking): Capacidade de imitar gestos e respostas sociais para passar despercebida, escondendo dificuldades.
  • Interesses Intensos (Hiperfoco): Foco profundo em temas específicos, celebridades ou pessoas, muitas vezes parecendo mais maduro ou focado que os pares.
  • Sensibilidade Sensorial: Baixa tolerância a ruídos, iluminação intensa, texturas de roupas ou toque físico.
  • Dificuldades na Interação Social: Ansiedade em situações sociais, dificuldade em entender normas sociais implícitas ou duplo sentido, preferindo interações previsíveis.
  • Rigidez Comportamental: Forte preferência por rotinas, irritando-se com mudanças inesperadas.
  • Expressão Emocional: Possíveis explosões emocionais desproporcionais (meltdowns) ou dificuldade em expressar sentimentos, às vezes confundida com timidez ou “inocência” excessiva.
  • Vulnerabilidade: A ingenuidade e o desejo de se encaixar podem tornar mulheres autistas mais suscetíveis a relacionamentos abusivos.

O diagnóstico correto é crucial para a saúde mental, ajudando a diminuir o estresse da camuflagem. Profissionais devem estar atentos a sinais não clássicos e à história de vida, especialmente em mulheres adultas que desenvolveram estratégias de adaptação.

AMA TEM SONHOS A REALIZAR?

A conscientização continua sendo um dos principais objetivos da instituição. “Um dos nossos sonhos é que as famílias entendam e aceitem o transtorno de forma mais leve. A conscientização ainda é fundamental para que as pessoas busquem ajuda no momento certo”, afirma.

Com o aumento no número de diagnósticos, atualmente estimado em um caso a cada 31 nascimentos, conforme relatório de Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, o desafio passa a ser não apenas ampliar o atendimento, mas garantir que mais pessoas tenham acesso à informação.

O cenário aponta para avanços importantes, mas também reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o autismo. Mais do que estrutura, o diagnóstico precoce depende de informação, acesso e, principalmente, da atenção das famílias aos sinais ainda nos primeiros anos de vida.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1925 de 23 de abril de 2026.

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