Para relembrar parte dessa trajetória e refletir sobre a formação histórica da cidade, o Jornal Celeiro conversou com Dirceu Carneiro e Terezinha Carneiro, integrantes de um grupo de estudos dedicado à pesquisa e valorização da história local.
Durante entrevista ao Jornal O Celeiro, Dirceu Carneiro destacou que a formação histórica de Campos Novos está diretamente ligada ao ciclo do tropeirismo. Segundo ele, a circulação das tropas que transportavam gado do sul do país em direção a centros comerciais como Sorocaba ajudou a consolidar rotas de passagem e a atrair moradores para a região. De acordo com Dirceu, ainda no século XVIII começaram a surgir caminhos alternativos utilizados pelos tropeiros para desviar de registros de cobrança de impostos existentes na região, especialmente do Passo de Santa Vitória.
Um desses caminhos passava pela área conhecida como Passo do Pontão, que acabou se consolidando como importante rota de passagem de tropas e mercadorias.
Registros históricos também apontam que já em 1790 havia movimentação pela região. Conforme citado pelo pesquisador Paulo Blasi, em uma de suas obras, o patriarca da família Almeida, Inácio de Almeida, teria passado por esse caminho ao retornar do Rio Grande do Sul, evidenciando a presença de viajantes e tropeiros na região ainda no final do século XVIII.
Esse movimento acabou atraindo os primeiros moradores para a região. Entre as famílias pioneiras citadas por Dirceu estão os Almeida e os Ferreira da Silva, que teriam se estabelecido na região entre o final do século XVIII e início do século XIX.
Grande parte dos primeiros habitantes, segundo ele, tinha origem em localidades como Ponta Grossa, Castro e Sorocaba, regiões diretamente ligadas ao ciclo econômico do tropeirismo.
A importância dessas rotas também foi lembrada por Terezinha Carneiro, que ressalta que a região registrou intensa movimentação tropeira ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX.
Segundo ela, a antiga estrada utilizada pelas tropas não era carroçável em alguns trechos, especialmente na chamada Serra da Entrada, sendo percorrida principalmente a cavalo pelos caminhos que ligavam o sul do país ao interior paulista.
Conforme relatado por Terezinha, em 1848 ocorreu a transferência do registro de Santa Vitória para a região, o que intensificou o movimento de viajantes e tropas de gado. No período seguinte, a arrecadação gerada pela passagem de animais e comerciantes chegou a ser uma das mais expressivas da então Província de São Pedro, denominação utilizada na época para o território do atual Rio Grande do Sul.
Levantamentos históricos citados por ela também indicam que grande parte do gado proveniente da região das Missões passava por esses caminhos e seguia em direção à tradicional feira de Sorocaba, um dos principais centros de comercialização de bovinos do país durante o século XIX.
Outro registro mencionado nas pesquisas históricas é o da moradora Anna Maria de Mattos, conhecida na região como viúva de “Chico Forro”, que no século XIX teria assumido a administração de um registro de passagem na região do Barracão. Segundo relatos históricos, durante o período em que esteve à frente da atividade, a arrecadação foi uma das maiores da província, evidenciando a importância econômica da rota naquele período.
Ainda de acordo com Terezinha, em 1851 foram realizadas melhorias no caminho entre Marombas e a divisa com o Rio Grande do Sul, obra executada pelo vigário de Lages, Camilo Lelis Nogueira, o que facilitou a circulação das tropas e fortaleceu a atividade econômica ligada ao transporte de gado.
A região do Passo do Pontão, localizada na comunidade de Entre Rios, também ganhou relevância histórica e cultural ao longo do tempo.
O chamado Marco Zero envolve atualmente três municípios — Campos Novos, Celso Ramos e Barracão — que reconheceram o local por meio de leis municipais como patrimônio público, destacando sua importância para a memória regional. Segundo Terezinha, o espaço também passou a ser utilizado em iniciativas de educação ambiental e patrimonial junto à comunidade de Entre Rios, em Celso Ramos, onde está localizado o Mirante Passo do Pontão Valmorinda, considerado um ponto estratégico para atividades educativas e de valorização da história local.
No início do século XX, o município viveu transformações importantes com a chegada da ferrovia São Paulo–Rio Grande, por volta de 1910, além dos reflexos da Guerra do Contestado, conflito ocorrido entre 1912 e 1916 na região.
De acordo com os relatos reunidos nas pesquisas históricas, mesmo após a chegada da ferrovia o movimento de tropas continuou por muitos anos. Na década de 1950, por exemplo, ainda passavam muitas tropas pelo Passo do Pontão com destino ao embarque na Estação Rio Capinzal.
Dirceu também recorda que, nesse período, havia pouso de tropas na Fazenda Boa Vista, propriedade de seu pai, experiência que ele próprio vivenciou e que demonstra a importância econômica e social da atividade na região.
Nesse período, também houve a chegada de imigrantes de diferentes nacionalidades, como poloneses, russos e libaneses, além de descendentes de alemães e italianos vindos principalmente do Rio Grande do Sul, o que contribuiu para a diversidade cultural e para o desenvolvimento econômico da cidade.
Hoje, aos 145 anos, Campos Novos mantém forte vocação agropecuária e continua ampliando seu desenvolvimento econômico, social e cultural, sem perder de vista as raízes históricas que ajudaram a construir a identidade do município.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1921 de 26 de março de 2026.







