Crianças e adolescentes no tráfico: o outro lado

Dinheiro fácil, vulnerabilidade social e falta de estrutura familiar são fatores apontados para o envolvimento de meninos e adolescentes no tráfico de drogas em Campos Novos.

O crescente envolvimento de crianças e adolescentes no mundo do crime não tem passado despercebido em Campos Novos. É frequente a apreensão de menores por envolvimento em atos infracionais como furto, roubo e posse de entorpecentes.

Uma realidade que não é só nossa, mas de um país onde a exclusão social ainda predomina. Embora a maioria da população se revolte com a ação de adolescentes envolvidos no mundo do crime, há fatores que devem ser levados em consideração para o envolvimento cada vez mais cedo deste público na criminalidade, principalmente no tráfico de drogas.

De 1º de janeiro a 14 de fevereiro 2017, segundo o Comandante da Terceira Companhia da Polícia Militar de Campos Novos, Tenente Rodrigo Pedroso, a PM registrou 21 ocorrências envolvendo tráfico de drogas e posse de entorpecentes. Deste número, se estima que em pelo menos 20% das ocorrências há o envolvimento de adolescentes. Na última ação da Polícia Militar até o fechamento desta edição, em 09 de fevereiro, um pré-adolescente de 13 anos de idade foi apreendido com 31 micropontos de LSD, 226 pedras de crack, 46 petecas de cocaína e 91 gramas de maconha.

Tenente Rodrigo Pedroso

Tenente Pedroso avalia que o mundo das drogas é atrativo, principalmente pelo dinheiro fácil. “Nós percebemos pela realidade de Campos Novos o envolvimento cada vez mais cedo de crianças e adolescentes com o tráfico de drogas justamente devido à facilidade de dinheiro para suprirem suas necessidades e pela imagem que o traficante tem perante as pessoas do bairro dele. Essas crianças e esses adolescentes se veem como pessoas importantes pelo ponto de vista financeiro e com poder perante as demais pessoas”.

O Comandante afirma também que a maioria destes adolescentes e meninos envolvidos com o tráfico de drogas vem de um meio de extrema vulnerabilidade. “De todos os que a gente acompanha, porque a cada apreensão nós verificamos o nome deles em nosso sistema, a maioria está inserida num meio de extrema vulnerabilidade, com problemas envolvendo pais, ou não tem pai, ou não tem mãe e quando não tem nenhum dos dois, mora com avós ou tios. Então nós sabemos que eles vêm de uma situação completamente deturpada do ponto de vista familiar”, considerou.

O tráfico de drogas é considerado uma das piores formas de trabalho infantil pela Organização Internacional do Trabalho. O aliciamento muitas vezes se dá na própria família e por amigos. “Muitos dessas crianças e adolescentes são aliciados pelos próprios amigos e familiares. O último que foi apreendido foi aliciado pelo irmão, que tem várias passagens pela polícia, foi apreendido inúmeras vezes, preso depois de adulto e retirado de circulação. Inclusive imagens da Agência de Inteligência mostram o irmão e o adolescente apreendido em 9 de fevereiro enterrando drogas com explicação de todos os meandros da criminalidade. A partir do momento que o adulto foi preso, o menor continuou praticando o tráfico de drogas no lugar do irmão”, informou o Comandante.

Droga vem de Florianópolis e Videira

O maior número de apreensões realizadas pela PM em Campos Novos é de maconha, seguida de crack e cocaína. A maioria vem de Florianópolis e Videira. “A maioria dessa droga vem de Florianópolis e Videira e chega aqui por meio de veículos destas cidades. Há informações que a droga trazida desses lugares é feito um transbordo no meio do caminho em algumas situações, em outras é entregue diretamente em alguns pontos da cidade. Mas sabemos que a droga é um problema de saúde pública e não se resume apenas à prevenção e prisões pela PM, isso falando em nível nacional”, afirmou Rodrigo Pedroso.

Na opinião de Pedroso, há grande negligência por parte da família. Ele defende que se invista mais em políticas públicas, visando a prevenção ao uso de drogas, ressaltando que a Polícia Militar realiza por meio do Programa de Educação e Resistência às Drogas e á Violência – Proerd, ação de prevenção que tem resultados extremamente positivos.

O Comandante da PM reforçou ainda a necessidade da construção de um Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório em Campos Novos (CASEP), a fim de retirar das ruas adolescentes infratores, que estão envolvidos não só no tráfico, mas em crimes contra a vida, furtos e roubos.

A falsa percepção do dinheiro fácil e os riscos

O Delegado Regional, Adriano Almeida, afirma que a falsa percepção do dinheiro fácil tem levado crianças e adolescentes a ingressarem no tráfico de drogas. “Acredito que a falsa percepção de que o tráfico de drogas é o único meio de “crescer” na vida é o principal vetor que tem levados os adolescentes a ingressarem no tráfico de drogas. Os adolescentes veem no tráfico, a possibilidade de ganhar dinheiro rápido, porém, como eu disse, é uma falsa percepção, pois o envolvimento com a criminalidade faz com que eles tenham uma vida cheia de riscos, inclusive, de morrer em razão de estarem inseridos em um mundo em que praticamente não existem regras”.

Delegado Adriano Almeida

Segundo Delegado Adriano, a maioria desses jovens são provenientes de famílias pobres, totalmente desestruturadas, que abandonam a escola muito cedo, dedicando-se integralmente ao tráfico de drogas, com o único objetivo de ganhar dinheiro.

Na oportunidade Adriano Almeida também informou sobre as ações da Polícia Civil para atuar na repressão ao tráfico e dos desafios enfrentados. “A Polícia Civil, constitucionalmente incumbida de realizar a investigação de infrações penais comuns (art. 144, § 4º, da Constituição Federal), tem se dedicado arduamente ao trabalho investigativo que visa reprimir o tráfico de drogas. Ocorre que quando falamos sobre o tráfico de drogas praticado por adolescentes, muitos são os desafios, sendo um deles, a sensação de impunidade que os adolescentes sentem, especialmente, pelo fato de que a legislação não considera, como regra, o tráfico de drogas como sendo uma infração em que o jovem deva ser internado em estabelecimentos destinados aos adolescentes em conflito com a lei”.

Em alguns casos, observou ainda o delegado, especialmente em razão da reiteração na traficância, alguns adolescentes acabam tendo expedidos contra si mandados de busca e apreensão (internação). Entretanto, ressaltou Adriano, a falta de estabelecimentos na região frustra o cumprimento desses mandados. Os estabelecimentos mais próximos ficam em Joaçaba, Caçador, Curitibanos e Lages, o que encoraja os adolescentes a permanecerem na atividade ilícita.

Delegado Adriano se pronunciou também quanto à responsabilidade das autoridades públicas e da sociedade perante esta problemática. “A responsabilidade é de todos, eis que os problemas advindos do tráfico de drogas incomodam a sociedade em geral, principalmente, em virtude de que se trata de um problema de saúde pública, com grave repercussão social. É imperioso que haja um debate sério, com a finalidade de que se busquem alternativas ao atual sistema. Aliado a isso, uma reforma na legislação sobre o tema também se faz necessária (Lei de Drogas e Estatuto da Criança e Adolescente), para que ao final, tenhamos sucesso em uma área extremamente sensível como é a questão das drogas no Brasil, ainda mais quando envolve adolescentes”, finalizou.

“Não há como fechar os olhos”

Para o Promotor de Justiça da Primeira Promotoria da Comarca de Campos Novos, que responde pela área cível e da infância e juventude, Fernando Wiggers, embora o envolvimento de meninos e adolescentes no tráfico seja uma realidade mundial, o fenômeno social está presente no município e não há como fechar os olhos. “Aqui em Campos Novos não é diferente, a gente tem percebido um número grande de adolescentes iniciando nesta vida ilícita, que é um mundo sem futuro e muitas vezes sem volta. O que leva um jovem a seguir este caminho é uma resposta que eu não tenho, do porque acontece este fenômeno social, mas acontece, não tem como fechar os olhos. A gente percebe isso claramente na nossa atuação diária”, comentou.

Fernando Wiggers

Fernando Wiggers entende, porém, que uma série de fatores contribui para o ingresso destes adolescentes no mundo das drogas, entre eles a desestrutura familiar, falta de políticas públicas e o afastamento da escola, o que futuramente dificulta o ingresso formal no mercado de trabalho, mantendo esses jovens no crime.

Vida fácil? Para o promotor, o mundo obscuro do tráfico de drogas não tem nada de facilidades. “Particularmente não vejo muito por esse lado, porque não me parece que a vida desses adolescentes e jovens seja uma vida fácil. É uma vida extremamente difícil exposta a inúmeros riscos e inúmeras privações e que no futuro não traz boas perspectivas. Muitos atingem a maioridade e passam boa parte da vida encarcerados ou acabam morrendo cedo, por conta de uma decisão errada tomada num momento em que talvez não teriam nem condições de tomar essas decisões”.

A adoção de políticas púbicas voltadas a este público adolescente é uma das formas de enfretamento do problema, no entanto, afirma Fernando Wiggers, a responsabilidade pelos adolescentes é da família, estado e sociedade. “É um tripé, se um destes pés não funciona bem, a tendência é não se manter. A formação de um jovem depende de uma estrutura de sociedade que acolha e permita um desenvolvimento sadio dessas crianças e adolescentes”, reforçou.
Na vivência à margem da lei, uma série de outros delitos é praticada pelos adolescentes, ou seja, o tráfico de drogas não se restringe pura e simplesmente ao comércio de entorpecentes, observou ainda o promotor. Além de fomentar a violência, também leva à prática do tráfico de armas, roubos, furtos e crimes contra a vida. Muitos dos dependentes químicos que não conseguem quitar suas dívidas junto aos traficantes, pagam com a vida.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1467 de 23 de Fevereiro de 2017.

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