A satisfação no casamento depende das expectativas depositadas pelo casal na relação. Antigamente as opções de atividades fora do convívio familiar eram bastante limitadas, não só para as mulheres que cuidavam da casa e dos filhos, como para os homens que do trabalho iam direto para o aconchego do lar. Desconhecendo outras possibilidades de vida, não almejavam nada diferente, e o grau de insatisfação era muito menor. Para saber o que pode estar gerando tanta insatisfação, especialmente sexual nos casamentos, entrevistamos o Psicólogo, Psicopatologista e Terapeuta Sexual, Clécio Carlos Gomes. Confira.
– O Celeiro – Clécio, não é de hoje que a insatisfação sexual ronda os casamentos. Por um lado mulheres reclamando da falta de desejo, cansaço, uma jornada estressante e da ausência de compreensão de seus maridos. No contraponto, homens se queixam da grande demanda afetiva das suas esposas, colocando o sexo em segundo ou terceiro plano. Afinal quais são as razões tanta insatisfação sexual no casamento?
Existe muita coisa errada e, não daria para dizer que há uma origem, mas, sim, um contexto. Primeiramente, nem homens e nem mulheres são educados para viverem sua sexualidade de maneira saudável e gratificante. Aliás, a educação sexual é, praticamente, inexistente, até os dias de hoje. Refiro-me, sim, ao terceiro milênio, a era da alta tecnologia e do contínuo abandono do ser humano.
Culturalmente falando, à mulher é vedada a vivência efetiva de sua conduta sexual. Em contrapartida, ao homem tudo é permitido, até mesmo os mais gritantes e grotescos comportamentos inconvenientes como a traição e a postura ogra diante do outro. As pessoas não sabem a razão do porque casam. Pior, desconhecem os motivos que os mantêm em suas relações. Pode parecer surpreendente, mas até mesmo a escolha por filhos é desconhecida. Percebe-se uma onda social em que temos que perpetuar padrões. Consequentemente, há uma insatisfação grandiosa para homens e mulheres.
Isso acarreta numa realidade onde parte importante, dos homens, não sabe, efetivamente, amar seus pares, muito menos fazer da cama um cenário de prazer e satisfação plenos. Em relação às mulheres, uma repressão que encarcera a feminilidade, o desejo e esse prazer reprimido. Então, parte-se para novas tentativas, novas buscas, também muito estimulada pela mídia, afinal, sexo passou a ser um artigo de comercialização no mercado, onde se deve obter a qualquer preço, porém, necessariamente, sem grande valor.
– O Celeiro – A concepção de que o desejo sexual masculino é muito maior e o feminino é mais complicado está presente nos discursos de homens e de mulheres. É cultural ou corresponde à realidade dos casais?
Não, isso não é verdade! As mulheres gostam tanto de sexo quanto os homens. O que é verdade é que muitas mulheres não gostam e não se satisfazem através da maneira como muitos homens se comportam na cama. Outra inverdade está no fato de que a mulher não precisa ter prazer sempre. Mulheres amam vivenciar seus orgasmos, com intensidade e qualidade. Isso é uma desculpa usada pelo senso comum para encobrir a inabilidade de machos que sempre foram detentores de um suposto poder e domínio sobre a mulher.
A maior de todas as verdades é que, mulheres detestam serem mal amadas. Isso as torna com o desejo reduzido ou eliminado, sem excitação e sem reação frente à posição inadequada de seus pares.
– O Celeiro – Muitas mulheres preferem fingir prazer a dizer não aos seus esposos e a relação sexual acaba se tornando uma obrigação. Como resolver o impasse? Diálogo franco com o companheiro seria a melhor saída?
Tudo em nossa sociedade passou a ocupar um primeiro plano, menos o próprio ser e as pessoas que o rodeiam. Optamos em sermos competitivos, derrubando e eliminando o outro e abandonamos, negligentemente, a nós mesmos. Um casal precisa de intimidade, proximidade, troca. Não basta se envolver na relação a dois, é preciso se comprometer com ela. Para isso é de fundamental importância que as pessoas se coloquem à disposição da consciência sobre as diferenças que existem e transformá-las de ameaças em oportunidades. Sexo vai muito além da penetração. Está no abraço, no beijo, na carícia, na manifestação da vontade e do desejo que motivam estar ao lado, e assim por diante. Isso se dá com a troca entre os dois.
– Celeiro – A insatisfação sexual no casamento leva muitas vezes, tanto homens como mulheres a procurar esta satisfação fora de casa, embora o matrimônio se alicerce em valores que vão além do ato sexual, baseados no amor, respeito e lealdade, além da divisão dos cuidados com os filhos e manutenção da casa. O que mudou na concepção do casamento no século XXI, a independência feminina tem influenciado?
Existem vários fatores: sim, a independência da mulher permitiu a realização de novas escolhas, pois há uma possibilidade material. A maturidade, no sentido de passar a ter a consciência sobre os motivos que levaram ao casamento é outra. A insatisfação nas relações sexuais também vai participar dessas hipóteses.
O mundo belo e fantasioso das redes sociais e do mundo virtual estimula, para muitos, a adoção de comportamentos e reações afetivas imaturas, conduzindo homens e mulheres a escolhas nada saudáveis, frente a possibilidades de sucesso dentro da própria relação. Também não podemos deixar de considerar as pessoas com transtornos mentais que se deixam levar pelo impulso sexual, assim como também há indivíduos com um caráter comprometido, levando as pessoas à sua volta a viverem sofrimentos desnecessários e marcantes através das marcas da traição.
– O Celeiro – O respeito à individualidade de cada um no casamento também é importante para manter uma relação saudável? Mulheres são mais propensas a se anularem em nome de um suposto casamento feliz?
Respeito deveria ser a maior e principal religião dentro da nossa sociedade. A mulher, sem dúvida, nem se respeita e, consequentemente, ainda não é devidamente respeitada. A anulação encontra-se, também, na zona de conforto que se constrói numa vida a dois, fazendo com que muitas mulheres não se permitam a mudança para não se desfazerem desse ganho secundário.
– O Celeiro – Dicas para que os casais que escolheram permanecer juntos superem esta insatisfação e busquem o bem estar da família.
Autoconhecimento, leitura, conversas que aproximem os casais, terapia individual ou de casal.
- Esta reportagem foi publicada na edição impressa do Jornal O Celeiro de quinta-feira, 15 de outubro.







