Inteligência emocional é característica importante para lidar com estresse e ansiedade.
Tão real quanto a dor física, a dor emocional pode ser desgastante e limitante. Ignorado e subestimado durante muito tempo, os problemas emocionais podem causar dores reais e precisam ser encarados com a mesma seriedade que os problemas físicos. A Organização Mundial de Saúde alertou que o século 21 seria marcado por doenças emocionais e que cerca de 10% da população mundial seria acometida por problemas desta ordem, e pelo visto, com o surgimento da pandemia do novo Coronavírus, este fato tem se escancarado. Medo e incerteza sempre fizeram parte da realidade humana, mas com o surto dessa doença a incerteza aumentou. Perda da saúde, perda de parentes, dos negócios, do emprego, ócio, sobrecarga de pais e medo do futuro tem agravado os quadros de estresse, ansiedade e depressão, principalmente nas pessoas mais vulneráveis. Para falar sobre este tema o jornal ‘O Celeiro’, preparou uma live com a psicóloga Mirian Cestari Niebuhr sobre saúde mental e inteligência emocional. A profissional compartilhou informações e deu dicas importantes para lidar com as crises e desenvolver resiliência. Confira na matéria de hoje alguns tópicos abordados na entrevista.
Que controle temos sobre os fatos e que impactos o inesperado tem sobre as pessoas?
“Vemos a sobrecarga de mães com filhos que estão fora da escola, problemas de saúde, problemas econômicos. Um turbilhão de coisas que pode afetar as pessoas. Não estamos de férias, estamos interditados . As situações novas abalaram as pessoas. É preciso aprender a reconduzir a própria vida neste momento. Não estamos vivendo do jeito que nós vivíamos, mas a vida continua. Pergunte-se: O que tenho feito com a minha vida neste período? Perder um emprego é preocupante e frustrante e adoecemos em função disso. Outros tem medo da doença. Mesmo sem saber até onde essa pandemia vai podemos estabelecer metas e planos para a vida. Devemos entender que não temos o controle de tudo o tempo inteiro e isso não é necessariamente uma coisa ruim”, iniciou Mirian.
Transtorno de ansiedade e depressão podem ter causa genética, bioquímica ou podem ser problemas eventuais que podem ser desencadeadas por diversos motivos, inclusive pelo medo e perdas que estamos vivendo. “Os sintomas são nervosismo constante, dificuldade de concentração, pensamentos negativos, medo constante, inquietude, preocupação exagerada com a realidade que geram crises de ansiedade que levam a sintomas físicos como boca seca, sensação de falta de ar, dor no peito, sensação de infarto, dor no braço, suor frio. A depressão causa uma tristeza profunda e prolongada. Algumas pessoas se sentem culpadas porque sabem que está tudo bem, mas sentem uma tristeza, desânimo e irritabilidade. Mas não precisamos tentar diagnosticar o tempo inteiro porque sentir-se deprimido neste momento não há nada de errado”, explicou.
O excesso de informação
Os meios de comunicação são essenciais a população como forma de informa-las sobre assuntos relevantes. Porém, o excesso de informação pode ser um grande vilão da saúde mental neste momento. Televisão, rádio, redes sociais trazem uma enxurrada de notícias que mais assustam que informam. Mirian alerta quanto a isso e relembra que, apesar dos pesares, ainda há coisas boas acontecendo.
“Excesso de informação gera estresse e ansiedade desnecessário. Não podemos nos alienar e dizer não quero saber. Mas não precisamos fazer isso o tempo inteiro e nem somente sobre o mesmo assunto. Muitas coisas ruins acontecem, mas tem acontecido muita coisa boa também. Nossa vida vai além da pandemia. Os jornais tendem a aumentar a nossa angústia porque ouvimos muitas informações negativas. Eu nem estou doente, mas ver aquilo me faz pensar no que pode acontecer comigo se eu adoecer. Porque discutimos sobre que remédios devemos usar? Isso é competência dos médicos. Uma pesquisadora da USP disse que o número de pessoas que apresentam os sintomas de Covid-19 sem estar com a doença tem crescido. Focar somente neste assunto poderá gerar sintomas psicossomáticos”, enfatizou.
É fácil lidar com o medo e a preocupação?
Clara e direta ela diz que Não. “Vivemos um medo real. Mas quais são as possibilidades e qual o controle que tenho sobre isso? Esse período favorece a ansiedade porque não temos o controle sabe o futuro e sobre a vida”.
Inteligência emocional
Não há uma receita de bolo para lidar com os problemas e resolve-los automaticamente, mas há esforços que podem ser empreendidos para alcançar o bem estar neste momento. No entanto cada um tem seu momento e sua forma de lidar com os problemas. Afinal o que é inteligência emocional? “É a capacidade que temos de administrar emoções e situações mesmo em meio a adversidades. Ser capaz de atingir objetivos mesmo ao sentir medo e insegurança. Falando de modo popular é ‘saber fazer do limão uma limonada’. Quando temos inteligência emocional conseguimos valorizar pequenos ganhos e acertos. É preciso identificar as forças internas que temos e não usamos, mas sozinho nem sempre conseguimos ver. Alguns conseguem desenvolver essa capacidade sozinho, outras precisam de ajuda para conquista-la. A maioria das pessoas tem habilidades internas que permitem alcançar a inteligência emocional. Nesse processo a leitura pode ser útil, buscar pessoas amigas e em outros casos pode-se procurar um psicólogo, através da terapia é possível alcançar a evolução. Tudo que me causa sofrimento e atrapalha o crescimento e paz precisa ser tratado”.
Dicas para ficar bem:
1. Esteja com quem você gosta. Se não é possível estar pessoalmente utilize a tecnologia que é genial neste momento para nos aproximar das pessoas.
2. Faça coisas que você gosta.
3. Faça uso da arte. Ouça músicas, leia livros, veja bons filmes.
4. Ajude outras pessoas da forma você puder: com dinheiro, com escuta e com atenção.
5. Cante muito. Cantar faz bem.
6. Selecione e limite as notícias que vai ouvir.
7. Faça atividades físicas. Dance
8. Aprenda a respirar. Inspire e espire lentamente. Quando o cérebro recebe mais oxigênio ele fica mais funcional.
9. Divida as tarefas domésticas se houver mais de um adulto em casa.
Um ouvido amigo: Quando a dor é compartilhada
“A dor é real, mas não palpável e por isso é difícil de ser entendida. Pessoas que apresentam problemas emocionais sofrem da mesma forma que alguém que tem um pé ou qualquer outro membro quebrado”. Assim diz a psicóloga Mirian. Doenças emocionais limitam e tornam o dia a dia uma tarefa difícil.
“Não consigo ter essa alegria plena. Me sinto muito envergonhada por dizer isso porque não tenho motivos para isso. Sinto uma tensão constante e muitos não entendem. Divide sua dor a jovem C.E. que prefere não ser identificada. A dor sentida por ela se torna maior ao ouvir comentário depreciativos e preconceituosos de pessoas que minimizam seus problemas e dores. Devido a palavras mal colocadas pessoas se trancam em seu mundo e sofrem caladas durante muito tempo e a dor só aumenta. É preciso resgatar as pessoas desse mar de solidão e dor e isso só é possível a partir de uma mudança de perspectiva sobre a realidade do outro.
A psicóloga Mirian reconhece que é preciso mais empatia e tolerância com pessoas que passam por este tipo de situação para que eles se sintam acolhidos e entendidos. “Ao oferecer ajuda é preciso ter cuidado na escolha de palavras, pois elas podem machucar ao invés de ajudar. “Frases do tipo: “Se eu fosse você eu faria isso”, podem intimidar a pessoa que tenta desabafar. Temos que ser mais tolerantes e empáticos com o outro e ver que o outro não reage como eu reajo. As pessoas são diferentes. Algumas pessoas tem dificuldade de ver as coisas de forma positivas. Ao se abrir com alguém e ouvir “Isso é bobagem, não é importante, vai passar, todo mundo passa por isso”, a pessoa adoentada começa a achar que o problema está com ela. Ela passa a carregar o sofrimento e o peso da culpa. Precisamos aprender a ouvir sem julgar. As vezes a pessoa não quer que a gente diga nada, só quer ser ouvida”, disserta.
Além da falta de compreensão acerca do tema, algumas pessoas que enfrentam problemas emocionais começam a se achar inferiores e acreditam que sua dor é sinal de fraqueza e muitas vezes outros a fazem acreditar que não há necessidade de ter a ajuda apropriada e profissional como a de um psicólogo ou psiquiatra. “Algumas pessoas evitam procurar ajuda porque entendem que é uma forma de explicitar sua incapacidade. As pessoas vão no fisioterapeuta sem nenhuma vergonha, mas tem dificuldade de dizer que vão no psiquiatra ou psicólogo. Quando um ortopedista dá um diagnóstico e passa um remédio a pessoa não reluta em tomar e os outros incentivam a continuar o tratamento. Quando há um diagnóstico médico para um problema emocional a pessoa reluta em tomar e outros também desincentivam achando que a pessoa não tem necessidade disso. Um pé quebrado é visível para todos, mas a dor emocional ninguém vê. Uma dor emocional pode ser até mais dolorosa do que uma dor física. Este assunto não é uma bobagem”, conclui Mirian. Sobre os benefícios de encontra um bom ouvido e atenção C.E. diz: É muito bom quando você compartilha sua dor. Isso não resolve nossos problemas. Mas nos ajuda muito e é bom saber que tem alguém que nos ouça sem julgar”.
*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1637 de 30 de julho de 2020.


