Respeitada e Amada: Professora Doris narra sua trajetória de 43 anos de Magistério
Nascida no Rio Grande do Sul, Doris escolheu Santa Catarina para construiu uma linda história na educação.
Natural da cidade gaúcha de Cerro Largo, Maria Doris Kolling, a professora Doris, teve uma infância marcada por perdas muito doloridas. Logo aos quatro anos de idade perdeu o seu pai e, um ano depois, voltou a sofrer com mais uma tragédia, dessa vez com a morte do irmão mais velho. Morando lá no interior, na Vila Salvador das Missões, Doris se dedicava muito ao trabalho e aos estudos, desde pequena, ajudava a mãe na lavoura e ouvia dela, que a maior prioridade era dar estudo aos filhos.
A nossa personagem de hoje do Especial Professores lembra que por trabalhar e ir bem na escola, sempre tinha como recompensa a autorização da mãe, hoje com 90 anos, de poder viajar com os colegas de classe. Desde aquela época, ela tinha facilidade em se comunicar, já demonstrava talento com a declamação, participava de eventos culturais e apresentações de grupo de danças.
Doris conta que tinha sede de conhecimento e isso permitiu que sempre fosse destaque na escola, na época, inclusive, pelo ótimo desempenho obtido durante o exame de admissão ao ginásio, teve a possibilidade de avançar um ano sem precisar cursar a 5ª série. Após quatro anos de ginásio, foi estudar no Colégio das Irmãs e desde aquele tempo, admirava muito a sua Professora Maria e tinha adoração pela profissão.
Outro episódio trágico, no entanto, marcou a adolescência da nossa personagem. Após a formatura, a sua turma, juntamente com algumas freiras e um padre, realizaram uma viagem com destino ao Rio de Janeiro que acabou em tragédia. O fato ocorreu em Foz do Iguaçu, enquanto aguardavam a liberação da rodovia em virtude de uma manifestação que ocorria no local. Na ocasião, as religiosas faziam comida no ônibus em que estavam, e um botijão de gás explodiu, ceifando a vida de uma das irmãs.
Voltando aos estudos, após se formar no Magistério, aos 17 anos prestou Vestibular em Ijuí e iniciou a sua carreira acadêmica na faculdade de Ciências e Matemática. Três anos depois conheceu o Professor Iltair Galli, 1980, e em 1982 casaram e vieram embora para Santa Catarina.
Aqui, a jovem iniciou a sua trajetória como profissional do magistério e por 25 anos lecionou na Escola Paulo Blasi, com a fama de professora brava e rigorosa, também foi eleita diretora por um período, além de ser professora universitária por quase 30 anos. Esta trajetória marcante da Professora Doris lhe proporcionou muita experiência e várias histórias para contar, como veremos a seguir na reportagem especial:
- Como foi a sua primeira experiência em sala de aula?
Foi uma experiência muito boa, me formei no magistério no colégio das irmãs, e paralelo à faculdade estava fazendo estágio, que consistia em pegar uma turma de escola pública e dar aula durante meio ano, de graça. Fui trabalhar na mesma vila que me criei e por incrível que pareça, todos os meus alunos, do segundo ano do primário, mais tarde acabaram indo para a área das exatas. Em virtude disso, a minha tese de mestrado foi: a influência do professor na aprendizagem do aluno. Ainda durante a faculdade peguei algumas aulas no interior do município de Cerro Largo e logo recebi um convite do estado para assumir a escola estadual na cidade de São Nicolau, como era menor de idade, fui emancipada pela minha mãe para poder assumir o compromisso, e lá fiquei por dois anos.
- Chegando em Santa Catarina, trabalhou apenas em Campos Novos?
Dias depois de chegarmos em Campos Novos, meu marido (in memoriam) e eu recebemos o convite para trabalhar em Água Doce, no Colégio Agrícola que estava começando naquele ano. Fui como professora de Matemática, Química e Física, e meu companheiro foi lecionar nas disciplinas de Português e Inglês. Para a nossa surpresa, a metade dos alunos de lá eram de Campos Novos. Ficamos três anos em Água Doce, até que fiz o concurso para professor do estado, passei como uma das primeiras colocadas e tive a possibilidade de escolher o município que eu gostaria de atuar. Por influência do marido optamos por Campos Novos, para a surpresa do coordenador regional, que reprovou a escolha, devido à má fama da cidade.
Na época, o diretor da Escola, Sr. Antônio Falcão, dizia – não te conheço, mas quero você como professora do Paulo Blasi. Ele me ligava com frequência e até hoje se orgulha dizendo que foi quem influenciou a minha vinda para cá. No Paulo Blasi trabalhei como professora com as disciplinas de Matemática e Ciências, até me aposentar, em 2010.
- De onde surgiu a fama de professora brava?
Cheguei aqui, gostei, logo me adaptei à realidade, a princípio eram 20 horas, logo alteraram a minha carga horária. Mas quando cheguei em Campos Novos a minha fama era de uma professora muita brava e rigorosa. O próprio diretor me orientou, dizendo: “Dóris, você vai trabalhar matemática com a 8ª Série C, que fica ao lado da minha sala, a última professora saiu chorando daqui e você não mostre os dentes, seja enérgica com eles. É uma sala onde a maioria é repetente, que não querem nada com estudo e você vai começar ali”. Eu mesmo novinha, com 25 anos, segui as orientações do Diretor, e logo surgiram os apelidos de cobra, jararaca e é lógico, nas outras salas eu não podia mudar muito, tive que manter o personagem de professora brava do Paulo Blasi.
- E como foi a sua gestão como diretora do Paulo Blasi?
Eu nunca pensei em ser diretora porque sempre gostei de estar com os estudantes em sala de aula, essa sempre foi a minha vocação. Mas meus alunos do 2º Grau me pediram para me lançar candidata, eu já tinha pulso firme e a escola estava precisando disso, mesmo assim no princípio reprovei a ideia. O ano era 1991, e a minha colega, Professora Ladir, se lançou candidata e eu fui de adjunta. Eram duas chapas concorrendo, sendo que na época os pais, alunos e professores votavam, e nós ganhamos aquela eleição. Um ano depois a diretora pediu para sair e eu assumi. Quando eu assumi, disse que a única condição é que não tivesse interferência política na minha escola. A minha escolha foi pela capacidade dos profissionais e não pela sigla partidária e assim eu o fiz até o término do meu mandato, no final de 1995.
Era uma maravilha trabalhar naquela escola, tínhamos orientadores, supervisores, administradores, éramos uma equipe muito coesa que sabia lidar muito bem com os mais de 1.500 alunos da época. Não éramos uma escola militar, mas as regras eram cumpridas, não se via aluno nos corredores e se alguém estivesse fora da sala, as próprias orientadoras já tomavam as atitudes cabíveis, além de contarmos com o temido “livro negro”, que colaborava para a manutenção da ordem.
Além do Paulo Blasi, também fui diretora na Escola Gasparino Zorzi, de 1999 a 2000, a convite da coordenação regional, me realizei muito naquela escola e só saí porque estava cursando o meu mestrado e precisava de tempo para me dedicar aos estudos.
- E quando surgiu o convite para ser professora universitária?
Em 1992 inicia minha trajetória como professora universitária com as disciplinas de Matemática e Estatística na UNOESC. Lá eu não precisei manter o personagem da professora “casca-grossa”, meus alunos me adoravam, me cercavam no intervalo a ponto de muitas vezes nem conseguir tomar o meu cafezinho.
Na UNOESC era professora titular e lecionava em Campos Novos, Joaçaba e Capinzal, mas era na turma de matemática que eu me realizava, pois todos os alunos que ali estavam, amavam a disciplina e era um prazer ensinar.
Na UNOESC também trabalhei no ensino à distância, no Curso de Tecnologia no Empreendimento, que englobava alunos de toda a região Oeste, bem como na primeira turma de Veterinária. Também fui coordenadora eleita do curso de Tecnologia e Informática.
Mesmo aposentada pelo INSS, continuei por anos trabalhando na universidade a pedido do Reitor da época, Sr. Aristides Cimadon, que não aceitava a ideia da minha aposentaria oficial. Desta forma, ali trabalhei por quase 30 anos, até achar uma brecha durante a pandemia, para encerrar a minha passagem pela Unoesc e o total de 43 anos dedicados ao Magistério.
- Qual é a sua leitura do ensino atual?
Já percebia na época de universidade, que os alunos que ingressavam na academia, a cada ano demonstravam mais deficiências na área das exatas, e isso me preocupava muito.
Eu percebo muito hoje em dia que muitos de nossos professores estão no magistério por falta de outra opção no mercado de trabalho. Aí vão para o magistério sem ter aquele amor pelo que fazem, aí fico me perguntado, onde vamos parar com tantos problemas na educação?
Na minha época de professora, eu cumpria horário, sempre era uma das últimas a ir para casa, trabalhava com amor, explicava tantas vezes fossem necessárias, pois se os alunos apresentavam dificuldades, eu procurava ajudá-los. É dessa forma que eu sempre trabalhei e penso que tem que ser assim, trabalhar com prazer e muita dedicação em ensinar.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1796 de 06 de julho de 2023.


