Quinta-feira , 19 Julho 2018
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Cultura do imediatismo

Valquiria Sampaio Mêra

Atualmente, o imediatismo é tido com um problema que envolve grande parte das pessoas. De acordo com o dicionário, Imediatismo é um sistema que funciona sem mediação, sem um termo de passagem. Isso indica que aqueles que desejam resposta imediata desejam sair de onde estão e chegar ao objetivo sem percorrer o caminho, sem mediação. O caminho da mediação é o tempo que levamos para sair de onde estamos até chegar ao objetivo final. Esse caminho prevê tempo, e, quanto maior o objetivo, provavelmente maior será o tempo para alcançá-lo. No entanto, na sociedade atual, é almejado que o caminho seja cada vez mais curto, para praticamente tudo inclusive para as terapias.

A cultura do imediatismo alterou a forma como nos relacionamos com o tempo, que deixou de ser linear. Essa cultura apresenta-se com a seguinte característica: devido às diversas transformações recebidas em tempo real, o passado é praticamente apagado; nesse contexto, não é possível pensar no futuro, uma vez que tudo muda rápido demais e qualquer planejamento pode se tornar obsoleto rapidamente; o presente se mostra dilatado, sendo considerado um instante prolongado. Pode-se considerar que vivemos na era do presentismo, seria como se estivéssemos congelados num instante e muitas pessoas não sabem lidar com isso, passando a ficar desorientadas, sem conseguir se envolver e viver cada instante. Há, ainda, um contraponto: o presente passa rápido e despercebido porque se pensa muito no momento seguinte.

O ser humano sempre quis tudo para agora. Isso fica claro no comportamento das crianças, que encontram dificuldade de abrir mão de um desejo imediato em detrimento de algo maior e mais significativo no futuro. Na geração passada nos ensinavam e obrigavam a esperar porque tudo acontecia mais lentamente. Atualmente, com advento da internet e das mídias sociais, tudo começou a se resolver rapidamente e ficamos mal-acostumados. Se os adultos que vivenciara essa transição se sentem assim, imagine as crianças, que nasceram nesse mundo conectado, com soluções rápidas e práticas (não necessariamente eficientes) para os nossos possíveis problemas?

Os impactos da cultura do imediatismo nos conduzem a termos dificuldade em sári do círculo imediatista porque essa cultura nos envolve de tal forma que ficamos paralisados. Isso acontece porque, a todo momento, surgem coisas novas e nos sentimos sempre na obrigação de dar conta de tudo. Diante deste contexto, acabamos perdendo a capacidade de planejar e de priorizar nossas atividades, o que pode transformar o cotidiano em um verdadeiro caos. Conjuntura esta que também muda a forma como pensamos a política, a economia, a ecologia e nossos relacionamentos afetivos. Muitas decisões são tomadas sem grandes reflexões, considerando apenas o momento e não as consequências. Para manter nosso ritmo acelerado de vida e o padrão de produção e funcionamento da sociedade que nos é imposto, nossas relações sociais acabam ficando superficiais. Estresse, ansiedade, transtornos psicológicos, irritabilidade, falta de paciência, intolerância com o diferente, além dos impactos ambientais e sociais são os resultados catastróficos desse momento.

Em fim, o imediatismo é um forte colaborador para alimentar frustrações e revoltas. Desse modo, as pessoas não respeitam o tempo, o trabalho e a perseverança necessária para que as coisas aconteçam. Diante das expectativas criadas não são atingidas, gerando insatisfação e frustração ao indivíduo, ocasionando distúrbios psicológicos caso não sejam enfrentados com uma mentalidade sadia. Portanto, é preciso resgatar a resiliência: a capacidade do indivíduo para lidar com problemas, adaptar-se às mudanças, superar os obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas. A virtude resiliência contribui para evitar surtos psicóticos e emocionais, por orientar o ser humano a encontrar soluções sensatas para enfrentar as vicissitudes que a vida nos impõe.

Desacelerar, acalmar as ideias, para muitas pessoas é a cura para problemas como ansiedade, depressão e pânico, pois traz a pessoa de volta ao corpo, ao espaço onde provavelmente a maior parte dos problemas desaparece. As mudanças que nos preocupa, são as relações que criamos de nossa vida como o futuro. Então que fique a lição que o presente precisa de atenção. Precisamos viver com menos pressa e mais paciência, reconhecendo o caráter processual da vida e das relações.

Por: Valquiria Sampaio Mêra
Advogada – OAB/SC 31.205

*Coluna publicada no jornal “O Celeiro”, Edição, 1535 de 28 de junho de 2018.

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