Mulheres Fortes!

Entre sorrisos e lágrimas, conquistas e perdas, elas continuam incansáveis na busca por mais respeito.

Ser mulher não é uma missão muito fácil, mas justamente por não ser uma missão fácil é que elas se tornaram fortes, e disse ninguém duvida. Elas são multifuncionais, se destacam em tudo que fazem. Mas, infelizmente lhes falta o devido respeito, falta quem respeite suas decisões, suas imposições, suas escolhas. O “Não” de uma mulher não basta para que um homem respeite sua vontade, hoje é preciso mais que uma negativa por parte de uma mulher, é necessária a intervenção de órgãos de defesa. Tem se tornado cada vez mais comum crimes denominados “passionais”, aonde homens não aceitam um fora, um termino de relacionamento, ou qualquer posição que parta da mulher. Para alguns homens isto se configura um confronto inaceitável, pois eles as veem como um objeto no qual são os donos.

Recentemente, vimos um retrato desta realidade acontecer no município de Campos Novos, quando uma senhora foi morta por tiros, tendo como suspeito o ex-companheiro. Para se proteger do algoz, que fazia ameaças há algum tempo, a vítima já havia feito denúncias contra o ex, e inclusive ela tinha uma medida protetiva. Porém, mesmo assim, o crime aconteceu, deixando o município em choque. Acontecimentos como esse soam como um sinal de alerta para que sejam pensadas medidas e políticas públicas mais eficazes para proteger e defender mulheres contra o perigo de se submeterem a relações tóxicas e abusivas. Vale ressaltar que, até que se culmine em situações extremas, como esta que aconteceu em Campos Novos, muitos fatos antecedentes devem ser observados, pois configuram-se como ameaças a integridade feminina.

A luta pela integridade feminina tem ganhado força, e as mulheres são incansáveis nessa busca, mas elas ainda precisam ser levadas mais a sério. As mulheres atualmente tentam se livrar da sombra do machismo que está enraizado na cultura de nosso país. Na política, nas empresas, no mercado de trabalho e na família, elas começam a sair da retaguarda masculina e aos poucos vão emitindo sua voz ao mundo. Isso pode parecer assustador para alguns homens que não aceitam que as mulheres assumam posições de igualdade. Mas essa é uma luta que vale a pena ser enfrentada, não apenas pelo ego feminino, mas por seu bem-estar físico, mental e psicológico, que muitas vezes é pisoteado por homens que as menosprezam, fazendo-as crer que elas não são capazes. Para endossar esse discurso as mulheres precisam mudar a visão sobre si mesmas e reconhecer os perigos que lhe rondam. É preciso reconhecer que não existe apenas a violência física, existem também agressões que ferem a alma e o coração, e estas precisam ser combatidas imediatamente, para que faça cessar o discurso machista e egoísta.

Em conversa com a secretária de Assistência Social do município, Celina Maria Manfroi Cassiano Barros, pudemos detectar que, infelizmente, em Campos Novos ainda existem mulheres que sofrem diversos tipos de violência, tanto física quanto psicológica, e algumas delas enfrentam essa situação há muito tempo, mas não conseguiram se livrar do companheiro opressor. Celina acredita que isso se dá devido a predominância do discurso machista ainda presente na sociedade. “O ciclo de violência contra a mulher se inicia desde a crença de que o homem é superior a mulher. É uma cultura machista que está impregnada não apenas nos homens, mas também nas mulheres. Essa cultura cria até mesmo uma competição entre as mulheres. Por costume colocamos a responsabilidade em cima da mulher. No crime de violência, algumas vítimas se culpam pelo que aconteceu”, diz.

Celina destaca ainda os perigos da violência psicológica, fato que tem feito com que muitas não consigam tomar atitudes para mudar sua realidade. Antes dos ataques físicos, o homem fere a mulher por dentro atingindo sua autoestima e a deixando impotente. “O homem começa a destruir a mulher por dentro, rebaixando-a, dizendo que ela não presta para nada, que ela é feia, que ela não vai arranjar ninguém. Ele ameaça tirar os filhos dela. Ele afasta a mulher do convívio social, da família, dos amigos. É uma ação que internamente destrói a mulher. Ela não sai daquele ciclo de violência porque não consegue. A mulher foi tão destruída de maneira interna que ela acredita que ela não tem forças, ela não acredita mais em si. Daí chega numa violência física ou sexual e ela acha que merecia aquilo. Ela busca justificativas para o que ela está passando”, afirma.

A.P.N., viveu uma relação que a transtornou emocionalmente. Ela diz que aos 28 anos iniciou um relacionamento que, a princípio parecia ser perfeito. Mas com o tempo o rapaz passou a fazer comentários sobre sua aparência, com o intuito de rebaixa-la. “Você não pode sair de casa sem maquiagem. Você precisa fazer academia. Essa roupa fica feia em você. Eu não vou sair com você desse jeito. Você nunca vai encontrar outra pessoa”, foram apenas algumas das frases citadas por ela que a deixaram extremamente machucada e a fizeram perder a autoestima. Felizmente ela teve o apoio da família e ajuda profissional para entender que vivia uma relação abusiva, e por fim, conseguiu retomar sua vida e abandonar o relacionamento que há um ano e meio só lhe causava mal.

Relações assim são mais comuns do que se imagina, e geralmente este é um gatilho para que as agressões físicas se iniciem. Para ajudar as mulheres a se libertar desta realidade, Celina diz que se faz necessárias mais políticas públicas para apoiar, orientar e defender as mulheres. Atualmente o município conta com o Programa Mulher Viver sem Violência, que tem ajudado muitas por meio de palestras educativas sobre o assunto e incentivo para que não se calem diante de agressões. “Já tivemos um número razoável de denúncias relacionados ao programa Mulher Viver sem Violência. O nosso trabalho com mulheres vítimas de violência envolve uma equipe psicossocial formada por uma assistente social, que entende o contexto da família, e uma psicóloga, que entende o contexto interno da mulher. Ela precisa de uma orientação para sair daquele ciclo e ter coragem de denunciar”, declara. A sociedade também precisa estar atenta para esse tipo de conduta, aquele ditado de que “em briga de casal não se mete a colher” não tem valia, em briga de casal a sociedade tem que se envolver sim, tem que denunciar. Se você presenciar agressões covardes contra alguém chame a Policia Civil ou Policia Militar, a denuncia poderá ser feita anonimamente.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1572 de 04 de Abril de 2019.

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