O agronegócio brasileiro está vivendo ótima fase. Por que a população tem pagado um
alto preço?
Você já foi ao supermercado nos últimos dias? Se sim, acredito que deve ter se surpreendido com o aumento dos preços de alguns produtos que são os principais itens da cesta básica como arroz e óleo de cozinha. Quem acompanha as redes sociais deve ter visualizado os inúmeros memes satirizando a alta e apresentando os produtos como itens de luxo e ostentação. Brincadeiras a parte, o assunto é sério e até contraditório, pois o agronegócio brasileiro está vivenciado um ótimo momento, sendo destaque nos principais veículos de imprensa. É preciso saber o que este por trás de tudo isso pra entender como as coisas funcionam neste segmento?
Um dos fatores é o aumento da demanda por itens da cesta básica. Com a pandemia instalada, o isolamento social fez com que muitos ficassem em casa, e consequentemente fez com que muitos cozinhassem mais. Aos poucos, com a reabertura da economia e com a injeção do auxílio emergencial, a demanda aumenta e vemos também o aumento dos preços para o consumidor. Mas o agro está despontando, não deveria ser o contrário: ter um produto a preços mais acessíveis? Bem, é que entre vender dentro do país e mandar para o exterior, o produtor brasileiro tem escolhido a exportação, porque está ganhando mais dinheiro. A Associação Brasileira de Supermercados vê o aumento de preços de itens essenciais da cesta básica com preocupação. Diz que reconhece a importância do setor agrícola e suas exportações na economia brasileira, mas alerta para o desequilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno para evitar problemas de abastecimento, especialmente na pandemia.
Com a culpa sobrecaindo aos produtores rurais, o presidente da Faesc (Federação da Agricultura e Pecuária), José Zeferino Pedroso, se pronunciou e defendeu a classe. “O consumidor brasileiro tem a tranquilidade de viver em um regime de segurança nutricional, com oferta de alimentos baratos e em abundância. De tempos em tempos a conjugação de alguns fatores, como seca, redução de área plantada, queda de produtividade, forte demanda internacional por produtos básicos e exportação estimulada pela posição cambial – provoca a elevação dos preços de alimentos da cesta básica no mercado interno. Mas quem ganha, nessas situações, geralmente não é o produtor rural”, iniciou Pedroso.
A agricultura foi um dos poucos setores que, desde que a pandemia começou, nunca suspendeu as atividades. Mesmo com prejuízos ou margens negativas, o produtor manteve a produção de leite, grãos, frutas, hortigranjeiros, ovos e carnes. Nesse período houve a elevação do custo de produção. A agricultura é essencial, mas precisa também dar resultados. Deve ser economicamente viável e financeiramente rentável ao agente econômico, seja ele agricultor, produtor rural ou empresário rural. “Veja-se o caso do arroz, um dos cereais mais consumidos do mundo. O consumo mundial na safra 2018/2019 foi de 494 milhões de toneladas. O maior produtor é a China e o Brasil fica em 11º lugar. No ano passado, o País colheu 12 milhões de toneladas, mas, os preços ruins dos anos anteriores e a seca deste ano levaram à redução da área plantada e a safra baixou para 10,4 milhões de toneladas. Além da produção menor, a situação cambial estimulou a exportação de arroz industrializado para o México. No início da colheita, o produtor recebia R$ 45,00 pela saca de 50 kg, preço que evoluiu para R$ 100,00/saca. Entretanto, o mercado externo pagou melhor, razão pela qual o arroz brasileiro fluiu para o mercado mundial. Com a atual escassez do produto no mercado doméstico será necessário importar porque a próxima safra só entra em fevereiro de 2021”, detalhou.
Então é o produtor quem mais ganha com tudo isso? Bem, não é essa a justificativa do presidente. “Quando o preço dos alimentos está em baixa, o produtor rural trabalha no vermelho e, quando os preços estão em alta, os melhores resultados ficam com os atravessadores, as tradings, os atacadistas e varejistas”, afirma Pedroso, admitindo que essa distorção precisa ser equacionada.
*Reportagem, publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1645 de 24 de Outubro de 2020.


