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Setembro Amarelo: Convivendo com a ansiedade e a depressão

Tristeza, angústia, aflição, desânimo e medo afetam diariamente
pessoas com transtorno de ansiedade e depressão.

Jovem, bem sucedido e com uma família linda. Uma vida perfeita, diriam muitos. Essa pessoa tem tudo que quer e o que muitos almejam. Porém, quem a vê jamais imaginaria os conflitos e aflições emocionais que enfrenta diariamente. A redação do jornal ‘O Celeiro’, conversou com três pessoas que vivem com transtorno de ansiedade e depressão e relataram sua experiência.

P.D. é a pessoa citada acima. Bonita e com um futuro promissor, ela conta que é difícil lidar com os turbilhões de sentimentos que, em alguns momentos a esgotam e deixam sem forças. Diagnosticada com depressão aos 14 anos, desde então ela enfrenta altos e baixos, e como a maioria das pessoas com depressão, ela se sente culpada por se sentir assim, e seu desejo era poder ser diferente. “Eu queria estar sempre no controle da situação. Qualquer imprevisto me gera ansiedade. Busco constante aprovação das pessoas. Tenho medo do julgamento dos outros. Esperava que as pessoas aceitassem as minhas fraquezas e não achassem que sou o que elas pensam. Às vezes, quando tento desabafar com alguém me sinto ainda pior. Acho que o otimismo deveria ser usado para ajudar não depreciar a dor outro”, relatou. Nos momentos de crise P.D. se vê sem propósito na vida, e os sentimentos de baixa-estima já afloraram o desejo de tirar a própria vida. Felizmente ela encontrou motivos para seguir em frente. Atualmente ela faz terapia em grupo e se vê mais compreendida por pessoas que passam pelos mesmos problemas.

Quem vive uma realidade similar é A.C., uma jovem sorridente e calma que compartilha parte de sua história ao conviver com o transtorno generalizado de ansiedade. Desde bem jovem ela diz que sente medos inexplicáveis e sem fundamento, mas que o diagnóstico só veio há cerca de 5 anos após ter crises de pânicos constantes, fato que afetou sua vida dramaticamente a impedindo até mesmo de trabalhar. “Foram dias bem difíceis, o medo e a angústia começaram a tomar conta de mim e a ansiedade saiu do controle. Não dormia e nem comia mais. Comecei a fazer terapia e o psiquiatra me indicou um tratamento medicamentoso. Hoje me sinto melhor, consigo trabalhar e fazer minhas atividades do dia a dia. Mas ainda tenho um sentimento de inutilidade e de frustração constante. Não entendo porque isso acontece comigo. Tem dias que queria dormir e não acordar. Tem dias que acordo sem querer levantar da cama, mas sei que preciso levantar. Lidar com a ansiedade tem sido uma batalha, mas com a ajuda da minha família e os tratamentos consigo me esforçar para ter um olhar positivo sobre a vida”, desabafou.

M.F., que vive com depressão há anos, relata semelhante rotina ao lidar com sentimentos de baixa-estima e de rejeição. “Não me sinto amada e nem querida por ninguém. Alguns dizem que isso é coisa da minha cabeça, e eu sei que é. Mas é o que sinto. Parece que sou um fardo para meu marido e amigos. Fico triste, fico com raiva, e tem dias que não quero ver e nem falar com ninguém. Sinto-me uma pessoa péssima. Quando estou em crise só queria sumir. Mas não tenho coragem de acabar com tudo. Suicidar-se é um ato de coragem”, reflete.

São muitos os sintomas das pessoas que sofrem um transtorno emocional e tudo isso influencia em todas as áreas da vida: na vida familiar, nas amizades e no trabalho. Além dos sintomas, o que essas três pessoas têm em comum é um passado marcado por momentos de opressão e violência. “Nunca tive atenção do meu pai, sofri vários abusos físicos e emocionais na infância”, disse P.D. “Recebia duras críticas quando criança e nada que eu fazia era bom ou certo. Cresci me achando sem valor”, acrescentou A.C. “Quando criança meu pai tentou me molestar algumas vezes, eu tinha medo dele. Logo ele e minha mãe se separaram”, afirmou M.F.

É possível que todos os traumas vividos no passado continuem inconscientemente afetando a vida adulta. Para conviver com esta dor emocional é preciso uma rede de apoio para que a pessoa encontre suporte e consolo. O Setembro Amarelo ressalta a necessidade de prevenção do suicídio e o que cada um pode fazer para ajudar os que pensam ou já pensaram em cometê-lo. A psicóloga clínica, Juliana Rafaela Carvalho, falou sobre a importância de prestar auxílio. “Acolha, mostre-se disponível e incentive a pessoa a procurar ajuda de um profissional, como um psicólogo. É muito importante que a família esteja perto, ouça mais está pessoa, evite críticas e sempre se deve saber o que NÃO dizer. Jamais condene e não banalize com frases “isso é frescura, fraqueza, loucura.” Como profissional reitero, que é preciso respeitar o tempo do paciente, ter empatia e acompanhá-lo sem pressa, para que um tratamento efetivo possa reduzir as crises e ter uma melhora significativa, para que ele possa viver a vida normalmente. Precisamos compreender a gama de sentimentos e como eles vão impactar a vida deste paciente que está em sofrimento. Somente assim vamos encorajá-lo a pensar no futuro e dar possibilidades para que ele caminhe até lá”, conclui a profissional.

*Reportagem publicada Jornal O Celeiro, Edição 1643 de 10 de Setembro de 2020.

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