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Quem conta a história: Dr. Riscala Miguel Fadel

A evolução da saúde em Campos Novos

Um cenário de ultrapassado e necessitado foi aos poucos sendo substituído por novos aprendizados e tecnologias.

Há 62 anos o médico cirurgião-geral, Doutor Riscala Miguel Fadel, chegava a Campos Novos para atuar no pequeno hospital Dr. José Athanázio. Sua intenção era ficar apenas dois anos no município e depois voltar para Curitiba, sua cidade. Porém, seus planos mudaram definitivamente quando ouviu o coração e se apaixonou por uma camponovense formando uma bela família. Desde então ele viveu aqui suas grandes experiências e dificuldades na medicina tornando-se conhecido de toda a comunidade camponovense.
Quem reclama da situação da saúde hoje, nem imagina como era no passado, e o Dr. Riscala nos ajuda a contar essa história repleta de emoções, tristeza, mas também muitas alegrias. O médico presenciou muitas mudanças e evoluções, como o início das vacinações como forma de prevenção. Determinado e apaixonado pela profissão ele ajudou a trazer novas tecnologias e ferramentas para ajudar a melhorar o atendimento. Foram momentos de muita felicidade. Mas antes disso foram muitas e muitas dificuldades, ele relembra a época em que precisou trabalhar usando apenas a intuição médica baseada na experiência, visto que eles não tinham a disposição os inúmeros equipamentos existentes hoje. Confira os relatos e paralelos feitos pelo médico que comparou a medicina de hoje com a feita há mais de sessentas anos.

“Em 1958 eu me formei e passei seis meses em São Paulo aumentando em conhecimento. Eu cheguei a Campos Novos em 1959. Não dá nem para comparar a medicina de hoje com a medicina daquele tempo”, já inicia o médico, relatando como era a situação do hospital Dr. José Athanázio e algumas de suas experiências. “O hospital que existe hoje é o triplo do que era na minha época. Havia apenas a parte central e nenhum equipamento. Quando eu cheguei aqui nem oxigênio tinha e eu não sabia trabalhar sem ele. Peguei meu Jeep e fui a Curitiba comprar uma bala de oxigênio para usar nos atendimentos. Quando acabava eu ia em Curitiba novamente encher meu tubo. Hoje isso é proibido, não se pode transportar oxigênio desta forma”, recorda. O hospital também não contava com equipamentos de ressonância, Raio X, ultrassom e nada que ajudasse nos diagnósticos médicos.
E quanto as funções médicas, haviam diversas especialidades disponíveis? O hospital contava apenas com três médicos que exerciam as mais diversas funções. “Naquela época eu era ortopedista, cirurgião, pediatra e obstetra, a gente tinha que se virar. Não tínhamos a quem recorrer. O que eu precisava era, por exemplo, de cardiologista, dai eu mandava para um professor em Curitiba, mas naquela época enviar um documento demorava muito. A medicina era muito complicada. As gestantes não tinham o costume de fazer o pré-natal. Aqui tinham muitas parteiras e a maioria não entendia nada de parto. Era um desastre, recebíamos muitas mulheres mutiladas. A maioria dos partos aconteciam em casa, e quando as mulheres chegavam ao hospital elas estavam com problemas. Felizmente quando eu era estudante eu trabalhei nos hospitais como anestesista e isso me ajudou muito. Eu também fiz muitos partos e tinha bastante experiência”, conta.

Outra situação comum em Campos Novos eram casos de acidentes de trabalho, esfaqueamento e baleamento, muito comuns àquela época, conforme relembra o médico. “Haviam muitas serrarias, por isso aconteciam muitos acidentes de pessoas com um corpo estranho na mão, como pedaços de metal ou de madeira. Em Campos Novos também ocorriam muitos crimes. Eram muitas pessoas baleadas e esfaqueadas que atendíamos, principalmente nos finais de semana quando aconteciam os ‘bailinhos’. Era bem difícil ter a dimensão do que tinha acontecido, então fui em Curitiba e comprei um pequeno aparelho de Raio X com 25 mil amperes. Era sofrido, mas salvamos muita gente”, diz, citando que o trabalho não tinha dia nem hora.

A ajuda dos enfermeiros era importante, porém, naquele tempo estes profissionais não tinham um bom treinamento, o que dificultava o trabalho. Com o tempo os próprios médicos ensinaram e preparam os enfermeiros para auxiliá-los, pois os atendimentos aconteciam sem parar.

Quando Dr. Riscala chegou a Campos Novos o hospital ainda não era um órgão público, apenas anos mais tarde aconteceu a mudança Nesse tempo o hospital era uma sociedade gerida por cinco irmãs que também atuavam como enfermeiras. Com o tempo as irmãs se afastaram do hospital e ele passou a ser administrado pelo município. Dr. Riscala relata que alguns profissionais tentaram comprar o hospital com a intenção de ter melhores condições, mas quando o prefeito a época soube desse projeto ele não permitiu a compra e municipalizou o hospital. Com isso houve o afastamento das irmãs da direção. Com a saída delas houve um grande vazio, e o médico assumiu o hospital sozinho, pois os demais médicos já haviam ido embora. Além do hospital, havia apenas um posto de saúde localizado no local em que é hoje a Biblioteca Municipal

Como é possível ver, a situação da saúde era um verdadeiro caos, os médicos não tinham muitas opções. Com relação as doenças infecciosas que afetavam muitas crianças, a situação era ainda pior. Sem vacina os médicos assistiam muitas mortes. Mas Dr. Riscala testemunho o marco do início das campanhas de vacinação e sobre isso ele falo com muito carinho. “Nos períodos de julho, agosto, setembro começavam as doenças próprias da infância: sarampo, coqueluche, difteria, e muitos casos de poliomielite. Depois de um tempo fomos a Florianópolis e conseguimos iniciar as vacinações. Também foi uma fase difícil, tínhamos de obrigar as pessoas. Quando ocorreu a primeira vacinação geral no Brasil a determinação era vacinar 95% das crianças. Campos Novos ainda não havia se desmembrado de outros municípios, tínhamos que ir em todos os lugares. Alguns não quiseram aceitar a vacina, tínhamos que recorrer a polícia porque a meta tinha que ser alcançada”, explica.

Hospital Dr. José Athanázio, parte antiga e atual

São tantas histórias que daria um livro se fossemos conta-las, como, por exemplo, a da Dona Talita, uma parteira querida pela comunidade. Mas dr. Riscala conclui com um sorriso no rosto de alegria por ter participado dessa rica história que ainda está sendo contada. Muita coisa mudou no decorrer dos anos, mas o médico também arrisca um palpite sobre tudo isso. “Hoje temos tudo ao alcance para identificar e tratar o paciente. São muitas vantagens, a desvantagem é que os médicos deixam de pensar, eles confiam apenas no exame e se tornaram dependentes deles. O médico precisa ter uma noção boa de medicina para saber que exames pedir”, pondera.

Sobre o hoje, Dr. Riscala reflete que o município ainda tem muito o que melhorar e investir em saúde, mas que já foram dados passos largos para melhorar este setor. “Cada conquista pequena do Hospital era uma glória para nós. Lembro de uma vez em que o Funrural nos deu alguns materiais para serem retirados no Rio de Janeiro. Fomos lá e pegamos tudo que podíamos, foi uma alegria. Quanto a vacinação, quando começou a acontecer, vimos que as doenças infectocontagiosas diminuíram, e tínhamos o poder de trabalhar a doença era uma coisa extraordinária. É uma festa até hoje quando vejo os avanços na medicina. Nós ainda precisamos de condições materiais e de condições humanas para que o paciente tenha a segurança. Os médicos devem se aprimorar ao máximo. A medicina evolui com muita rapidez. É importante focar nisso, pois a saúde é fundamental para o mundo”, finaliza.

*Reportagem publicada no Jornal ‘O Celeiro’, Edição 1676 de 13 de maio de 2021.

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