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Quem conta a História: Tânia Manfroi Cassiano

Tânia Manfroi Cassiano fala sobre evolução
e representatividade no agro

Uma das pioneiras do plantio direto em Campos Novos, a engenheira agrônoma testemunhou e participou do desenvolvimento do agronegócio.

Quando criança, Tânia Manfroi Cassiano dizia que seria médica e que descobriria a cura do câncer. No entanto, quando cresceu, descobriu que sua vocação era a agronomia. Nascida e criada no campo, ela foi livre para escolher o que queria ser, e optou pela área rural. “Sinceramente, nem sei por que eu dizia que faria medicina, pois eu não gosto nem de ver sangue. Logo percebi que não tinha esse perfil. Era a agronomia que fazia total sentido para mim”, diz. Ela deslanchou em sua carreira profissional e contribuiu significativamente para a evolução no campo, tornando-se uma das pioneiras no plantio direto. Há quase quarenta anos nesta lida, ela viu muita coisa acontecer e compartilha sua experiência como agrônoma e como mulher neste setor predominantemente masculino.

Lageana de nascimento e camponovense de coração, chegou ao município com cinco anos, saindo apenas para estudar, retornando em seguida para iniciar sua carreira profissional. Destemida e determinada, Tânia usava o medo do novo como combustível para enfrentar os desafios, que não foram poucos. Ela poderia ficar ao lado dos pais cuidando das plantações de trigo da família, mas preferiu ir para a cidade e empreender ao lado de um dos primos. “Me formei em dezembro de 1985 e meu pai me fez ficar com eles até o dia do aniversário dele. Em março de 1986 me despedi e mudei para Campos Novos. Não saímos prontos da universidade, aprendi na prática. Em 1987, meu primo e eu, montamos um escritório de planejamento agrícola”, conta.

Quando iniciou no agro, este setor era rudimentar e lento, mas logo as tecnologias se apresentaram e promoveram uma mudança radical na vida dos produtores. Tania viu de perto esta evolução e participou em levar conhecimento para o campo. Neste meio tempo o plantio direto surgiu como grande aliado do agricultor. “Durante a faculdade nós ouvíamos falar pouco sobre o plantio direto. Anteriormente o pessoal havia tido uma experiência e não foi muito positiva. Por volta de 1994 retornamos esse movimento. Nesta época a pecuária era muito forte em Campos Novos, uma das dificuldades do plantio direto era a interação lavoura-pecuária. As primeiras lavouras em plantio direto tivemos problemas para controle de invasoras, para fazer um stand bom e uniforme. Neste mesmo período surgiu a empresa Na Palha que trouxe maquinários e nos deu suporte no campo. Realizamos durante anos o Seminário de Plantio Direto”, relembra.

O trabalho não foi um impedimento para que Tânia construísse sua família. As responsabilidades aumentaram, mas com ajuda ela deu conta de tudo. “Quando me casei fomos morar na fazenda. Geralmente os produtores moravam na cidade e trabalhavam no campo. Comigo era o contrário. Eu tinha que fazer os dois caminhos. Fazia o trabalho no campo e cuidava da parte burocrática. Eu tive dois filhos, a Celina e o Erom. Meu marido Nery dividia as responsabilidades comigo. Ele era um grande apoiador e tinha orgulho de me ver trabalhando. Eu tive apoio para cumprir com minhas responsabilidades. Nas vezes em que eu não conseguia ajuda eu levava a Celina junto comigo”, relembra.

Participativa e trabalhadora, Tania também integrou o movimento cooperativista iniciado em Campos Novos. Ela é uma das fundadoras da Coperacel, e conta sobre a importância das cooperativas como fomentadoras da produção. “Somos o município que tem o maior número de cooperativas. Demos um salto na produção. Quando nós saímos do plantio convencional a nossa média era de 40 a 45 sacos por hectare. Hoje a colheita é muito maior. Aumentamos a área de plantio, e as lavouras foram aumentando a produtividade. Para receber essa produção as cooperativas se fizeram necessárias, além disso, os departamentos técnicos das cooperativas deram o suporte para os produtores”, enfatiza.
Em toda essa caminhada, já se sentiu intimidade ou inferiorizada por ser uma das poucas mulheres no agro? “Nem um pouco. Eu era a única mulher no campo naquele tempo, mas eu nunca tive me senti inferiorizada”, responde. Ela prossegue: “Meu pai sempre me incentivou a buscar o que eu queria. Nunca achei ninguém superior a mim e nunca me achei superior a ninguém. Trocávamos ideias de igual para igual. Sempre tive o cuidado de me posicionar e saber qual era o meu lugar”, declara, acrescentando que hoje o número de mulheres envolvidas no agronegócio aumentou. Sem exaltar gêneros, ela trabalhou dando o melhor de si e deixando um exemplo de liderança. “Eu nunca dei ordem. Eu chegava com os produtores e pedia a sugestão deles. “O que vocês acham que devemos fazer?” eu sempre perguntava. Com isso eles se sentiam bem e conversávamos sobre o que era o melhor a ser feito”, conta.

Realizada e grata, Tânia sente orgulho de fazer parte do crescimento e do desenvolvimento do agronegócio e de Campos Novos. “Me vejo como camponovense, minhas principais memórias estão aqui. Foi aqui que comecei a exercer minha profissão e cresci como pessoa e como profissional. Aqui nós fundamos a Coperacel, ela é a personificação de um sonho”, afirma. Apesar de todos os avanços já vivenciados, ela acredita que há muito campo para crescimento. “Precisamos melhorar a parte de industrialização e agregar valor à nossa produção. Isso é um trabalho para ser continuado. Temos um caminho muito bonito pela frente”, diz. Tânia conclui exaltando a importância do trabalho, mas deixando um oportuno conselho: “Trabalhar é muito importante, mas quero que as pessoas tenham equilíbrio. Não somos só trabalho, temos de saber usufruir com sabedoria do fruto do nosso trabalho.

*Reportagem pulicada no Jornal ‘O Celeiro’, Edição 1708 de 23 de dezembro de 2021. 

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