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ESPECIAL PROFESSORES: NEREU SUTIL

Disciplina, dedicação e respeito: O trabalho do Professor Nereu na formação de atletas e cidadãos

Multicampeão como professor do Basquete Feminino, Nereu fala da sua trajetória de vida e da sua contribuição com o esporte camponovense.

Nereu Sutil é o Nereu do Basquete, o Personal Trainer, o ex-atleta, o árbitro… ou para sintetizar, o Professor Nereu. De origem muito simples e com pais com pouca instrução escolar, Nereu seguiu seus instintos e agarrou com unhas e dentes as oportunidades que a vida lhe ofereceu para se tornar um profissional de sucesso.

“Eu venho de família muito humilde, meu pai tem a quarta série primária e minha mãe é analfabeta, nenhum dos dois praticaram esporte na vida. Meu pai apesar de ter pouco estudo, sempre foi um cara inteligente e de visão, ele sempre me disse uma coisa que hoje eu digo para meus atletas: a vida é só dois caminhos, o bom e o ruim, você que escolhe o caminho que vai pegar”, relembrou.

Formado em Educação Física e Pós Graduado em Fisiologia do Exercício e Treinamento Esportivo, Nereu está com 46 anos e é pai de três meninos. É Personal Trainer de atletas de alto rendimento, professor da ACAMB (Associação Camponovense de Baquetebool), árbitro de handebol, vôlei, basquete, futebol e futsal. Como ex-atleta disputou várias modalidades, mas atingiu resultados expressivos no atletismo, foi corredor de fundo, 5 e 10K, meia maratona e corrida rústica.

Apesar de ter uma trajetória vitoriosa como ex-atleta, Nereu já tem seu nome marcado na história do Basquetebol camponovense. Há 17 anos trabalhando na modalidade, o professor se orgulha de ter elevado o basquete à modalidade esportiva de Campos Novos com mais conquistas a nível estadual, tanto pela Fesporte, quanto pela Federação Catarinense.

Tais conquistas, no entanto, não envaidecem Nereu, que elege o seu amigo particular e ex-professor, João Carlos Aromi, como o grande nome do baquete de Campos Novos, a quem também atribui muito respeito, admiração e gratidão. E os valores do Professor Nereu não param por aí, como é visto a seguir na entrevista concedida ao Jornal O Celeiro.

  • Como era o Nereu na infância e na Escola?

Na nossa infância não se tinha celular, não tinha redes sociais, nós fazíamos os nossos próprios brinquedos, juntava as crianças para jogar bola, nós sim, tivemos infância.
Quando criança gostava muito de futebol, comecei com 12 anos nas escolinhas de futsal, tive a infância voltada para o esporte. Passei pelo handebol, com o professor Jeferson, vôlei com o professor Sérgio Silvestrin, basquete com o professor João Carlos Aromi, Atletismo com o João Nunes e com James Pereira, futebol de campo com o professor Everaldo, pelo Futsal com o falecido Nenê e com o Pitinini.

No atletismo entrei por acaso, após o adiamento do treino do futebol de campo, me juntei ao James e ao Anselmo e corremos trinta voltas ao redor da pista, e no esporte segui por mais de 20 anos, deixando de lado mais tarde as demais modalidades.

Até chegar no atletismo eu era meio preguiçoso na escola, tirava nota para passar. Até que um dia cheguei na pista para treinar e disse para o James, ‘Bah, eu odeio o português cara, fiz uma prova e não fui bem’, e ele falou para mim uma coisa que eu jamais esqueci: ‘o que você quer para a tua vida, cara? Se você não estudar vai se criar um burro!’ Eu não levei para o lado pessoal, dei razão a ele e comecei a mudar. Dali para frente as minhas notas nunca ficaram abaixo de 8,5.

  • Quando decidiu ser professor e em quais lugares lecionou?

No início eu não pensava em ser professor de educação física, e quando eu estava prestes a completar 18 anos, no Terceirão, o prefeito da época decidiu cortar o bolsa atletas da modalidade de atletismo por divergências políticas com o nosso treinador. Fui conversar com o chefe do executivo e falei das minhas necessidades em continuar no esporte e recebendo o incentivo, foi quando ele me arrumou um trabalho de professor de educação física na escola CAIC. Fui com a insegurança de nunca ter trabalhado na área e nunca mais voltei. Já fiquei para o ano seguinte, com 40 horas, e logo depois o professor João Aromi já me aconselhou em fazer faculdade.

Me forme em técnico em contabilidade, fiz vestibular para a Federal, voltei e fiz magistério. A escola CAIC, na época não era tão fácil de trabalhar com os alunos, muitos professores desistiam, mas comecei a dar escolinha de várias modalidades de forma voluntária depois do turno da criançada e comecei a ganhar o respeito e a confiança delas. Este entrosamento logo deu frutos, conquistando o terceiro lugar do JECAM daquele ano.

Do CAIC fui convidado para lecionar 40 horas na Escola Estadual Henrique Rupp Júnior, e para lá me seguiram vários alunos da antiga escola, que fizeram questão de me acompanhar. Dois anos mais tarde, ainda sem cursar a faculdade, o Colégio Auxiliadora me fez um convite e fui assumir o desafio na escola particular.

No segundo ano de trabalho no Colégio Auxiliadora, casei, e iniciei a faculdade na UNC Caçador, onde me formei em bacharel e licenciatura plena para escola e academia. Saí do Colégio Auxiliadora e fui para o Colégio Gasparino Zorzi, onde já iniciei as atividades no Basquete. Paralelo à escola, desenvolvia mais um trabalho voluntário de basquete feminino de base pela Copercampos, e um trabalho que iniciou com 12 crianças, em 40 dias já estava com 60. Pouco tempo depois assumi também o naipe masculino e, através da administração da época, comecei a trabalhar com turmas no Ginásio da Escola Henrique Rupp Júnior.

Quando já estava há muito tempo no mercado de trabalho como ACT (Admissão de cargo temporário) em escolas estaduais e municipais, prestei concurso municipal, passei e em 2008 efetivei no município. Terminado a Faculdade dei início a uma Pós-Graduação, Fisiologia do Exercício e treinamento esportivo pela UNC Concórdia.

  • Quais foram as principais conquistas no esporte?

Para mim as maiores conquistas não são os troféus e medalhas, mas sim recuperar um aluno que não tem comprometimento com os estudos, que dorme até tarde, perde aula, bate de frente com o professor, que não produz nada. Chegar ao final do ano e ver que ele ouviu nossos conselhos e passou sem exame, não tem dinheiro que pague, é gratificante demais.

Contudo, se tratando de conquista a nível de competição do Basquete Feminino, temos por exemplo: campeão de JESC de 12 a 14 anos; Campeão Mini sub-12; Campeão Olesc; Vice Estadual sub-15; Terceiro Lugar Estadual do sub-13; e 4º lugar do Nacional dos Jogos Escolares de 12 a 14 anos.

  • Como é o professor Nereu?

Sou uma pessoa do certo, de valores, de cobrar atitude. Eu quero que meus alunos tenham a personalidade de tomar decisões rápidas, escolhas corretas dentro e fora de quadra. O basquete é, das quadras para a vida, a pessoa tem que ser de coração e espírito bom, de alma grande, de valores associados a tudo isso, cidadãos educados para a vida. Também demonstro para eles a nossa simplicidade, que não podemos esquecer as nossas raízes, que essa gratidão é reflexo do nosso desenvolvimento como ser humano. Esse é o Nereu que trabalha dentro de quadra e enxerga a vida lá fora.

  • Como é o Nereu no dia a dia?

Na minha vida inteira sempre fui muito bem sucedido profissionalmente, mas nunca consegui conciliar com a minha vida particular. Sempre dei uma importância muito grande para o meu trabalho e é por isso que tive e tenho muita dificuldade de relacionamentos, e entendo, é difícil você estar com alguém que nunca está com você aos finais de semana.
Meu filho mais velho vai fazer 21 anos, cursa medicina veterinária e sempre fui muito ausente na vida dele. Com os outros dois eu tento ficar mais próximo, mas é difícil conciliar, pois todo final de semana você tem competição, na verdade eu cuido mais dos filhos dos outros, do que dos meus próprios filhos.

  • Quem é o Nereu Sutil?

É o cara que levanta às 5 horas da manhã, que crê em Deus, que ama os filhos e trabalha muito. Que se orgulha quando vê seus ex-alunos alcançarem conquistas pessoais, muitos deles formados nas mais variadas qualificações profissionais e que são gratos pelas cobranças que fizemos na época de escola.

Graças a Deus o esporte me deu muitas coisas importantes e nunca foi só correr ou só jogar, como estou no Basquete hoje, são muitos valores associados à minha vida, responsabilidade, seriedade, comprometimento de fazer o seu melhor e bem feito, e esse é um lema que levo na minha vida profissional em todos os ramos que eu atuo.

  • Quanto ainda deve durar esse pique todo do Professor Nereu?

Estou me sentindo cansado, mas preciso deixar um sucessor, como o João fez comigo lá no passado, me entregando o bastão do Basquete para a modalidade seguir. Hoje tenho a Camila que trabalha comigo, que não a considero como o meu braço direito, e sim os dois braços, e o Vinícius que é outro professor da base que está na reta final da faculdade. Mas em suma, pretendo desacelerar bastante, é muita estrada, muito alojamento e pouco tempo para minha família, para meus filhos, para minha vida, para mim mesmo. Mas preciso cuidar desta sucessão, porque caso contrário, tudo o que foi construído ao longo do tempo, corre o risco de morrer.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1747 de 22 de setembro de 2022.

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