CAMPONOVENSES: Dirceu Carneiro (PARTE I)

Dirceu Carneiro explica como o legado da boa política pode transformar vidas

Como o prefeito de uma cidade de SC se tornou referência para o Brasil na criação dos principais programas sociais.

Estudioso, líder e revolucionário. Uma minoria ínfima (com o perdão da redundância) tem a real noção da relevância pública, política e social que Dirceu Carneiro representa ao Brasil. Apesar de ter nascido em Calmon e consolidado a sua carreira política em Lages, o nosso entrevistado tem fortes ligações com Campos Novos.

Dirceu Carneiro nasceu no ano de 1945 em ambiente rural, na fazenda do avô, numa região de campos e de bastante mato, onde as atividades na roça eram todas elas braçais, não haviam equipamentos, os alimentos eram de produção primária e familiar, à base de foice, machado e inchada, nem acesso à carroça estes locais ofereciam. Em 1953, o seu pai, Salomão Batista Carneiro, compra uma propriedade em Campos Novos, na costa do Rio Uruguai, e para cá se mudam com a sua esposa Universina Ribeiro Carneiro e seus cinco filhos.

Dirceu chega em Campos Novos aos 8 anos de idade, aqui encontraram terras mais favoráveis para a cultura de subsistência e o horizonte da família melhorava consideravelmente. Na época, o município tinha uma dimensão territorial abissal, mas não tinha a agricultura como uma potência econômica, como é hoje, haviam apenas três produtores agrícolas por aqui, que mais tarde acabaram falindo, pelas dificuldades de produção daquele período.

Somente aos 11 anos de idade Dirceu Carneiro foi para a escola, num Colégio Interno Ucraniano, em General Carneiro, e com os ensinamentos dos pais chegou lá já sabendo ler, escrever e fazer contas. Em apenas dois anos, concluiu os quatro anos do primário. Anos mais tarde concluiu o Ginásio em Caçador e, em 1963, retornou a Lages onde cursou o Colegial e lá presidiu, no ano de 1964, a União Lageana de Estudantes. O movimento estudantil atuava na comunidade, nos bairros, auxiliando os mais necessitados, em caráter de solidariedade social.

Enquanto não se sentia preparado para iniciar uma faculdade, Dirceu Carneiro presta concurso para o Banco do Brasil, passa entre os primeiros colocados e escolhe Lages para começar a trabalhar. Seis meses depois, com mais conhecimento adquirido, presta vestibular e muda-se para Porto Alegre, lá se forma em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e continua seguindo os passos de liderança popular ao presidir o Diretório Acadêmico de Arquitetura. “Nesta época haviam muitas passeatas de estudantes contra a ditadura e na arquitetura nós desenvolvemos uma visão de mundo muito interessante, e em 1968, os jovens, através dos movimentos estudantis por todo o mundo, assumiram a responsabilidade, de nós fazermos pelos outros”, destacou Dirceu.

Antes de retornar a Lages e fixar residência, foi aqui em Campos Novos que, juntamente com os saudosos Padre Quintilio Costini e Dejandir Dalpasquale, idealizaram a primeira cooperativa agropecuária da cidade e região, demonstrando uma percepção visionária, contribuindo diretamente para a construção do que mais tarde seria o Celeiro Catarinense.

No início da década de 1970, Dirceu retorna a Lages, onde se casa com Terezinha Fornari Carneiro e decide ingressar oficialmente na carreira política. Após ser Vice-Prefeito, e Prefeito de Lages, Deputado Federal e Senador da República, sendo o primeiro secretário do Congresso, Dirceu decide encerrar a carreira pública e adota Campos Novos como local para morar.

No setor público, foram aproximadamente 25 anos de trabalho prestado ao Brasil e ao mundo. O homem que revolucionou a informatização do congresso e que deteve a presidência da República por alguns momentos, sempre foi um político muito atuante e teve participação direta em fatos que marcaram a história, como na destituição do Presidente Collor e a primeira derrota da ditadura no congresso. Contudo, nesta primeira parte da reportagem “Especial Camponovenses”, abordaremos o período em que esteve à frente da Prefeitura de Lages, como Vice-Prefeito e depois como chefe do Executivo, como você confere na entrevista a seguir:

  • Como foi o início da sua carreira política em Lages?

Lages era uma cidade extremamente conservadora, fazia 40 anos que a família Ramos estava no poder, isso gerou um desgaste e eu comecei a estudar esta situação eleitoral e identifiquei que a gente sempre ganhava na cidade e perdia no campo. Foi aí que eu aproveitei da minha situação e do meu conhecimento, nascido no ambiente rural e formado em urbanista, montei uma estratégia política muito bem organizada, com diretório em todos os bairros e promovi uma aproximação com as mulheres e jovens. Na época eu estava com 27 anos, era secretário geral do partido e a princípio me lançaria candidato a vereador, mas durante as convenções me colocaram como candidato a Vice Prefeito. Na campanha eu deitei e rolei, durante o dia visitava o interior e à noite participava dos comícios na cidade, andei pelo município, como nenhum outro político havia andado, em locais onde nenhum candidato tinha pisado antes. Soube me articular muito bem com o homem do campo e para as pessoas da cidade tinha uma mensagem intelectual muito bem transmitida. E juntamente com Juarez Furtado fomos eleitos e assumimos a prefeitura de Lages, quebrando uma hegemonia de 40 anos dos Ramos.

  • Como foi a sua atuação como Vice Prefeito?

O prefeito não gostava muito de atender no gabinete e eu trabalhava muito neste contato direto com as pessoas, no pátio da prefeitura, ouvindo a população e uma coisa que é importante na política é a sinceridade, você não pode tapear as pessoas porque a conta chega, a coisa mais importante é falar a verdade e é isso que dá uma credibilidade fora de série para o político.

E neste período todo como Vice, eu fui me preparando para encabeçar a chapa da próxima eleição, e convidamos um médico muito conceituado para compor a minha chapa, Dr. Celso Anderson. Trabalhamos bastante na campanha e faltando poucos dias da eleição, um de nossos companheiros se vendeu para o adversário e apostou o dinheiro que ganhou ilicitamente na minha chapa. O episódio provocou uma grande reação na população que foram às ruas, e eu acabei saindo ainda mais fortalecido. Resultado, fui eleito prefeito com a maioria absoluta, pois somando os outros seis candidatos, os nulos e brancos, não chegava ao nosso número de votos.

  • Quais foram os atos mais marcantes do seu Mandato como prefeito?

Neste período na prefeitura nós tivemos a seguinte concepção na questão administrativa, nós percebemos que a eleição mobiliza uma quantidade gigante de energia da sociedade, e para não desanimar neste caminho, precisamos de muitas pessoas engajadas, produzindo ideias sem limites, e foi isso que fizemos. Começamos a reunir as pessoas, em associações de moradores, esportivas, nos bairros, interior, ou seja, fomos ouvir a população lá onde eles se encontravam, no Programa “Viva-se o Bairro”. Nossa equipe ficava durante uma semana resolvendo os problemas locais, melhorando o ambiente e no final do processo ainda fazíamos um baile para comemorar.

Na nossa gestão também criamos o Dia da Habitação, onde reuníamos todos os funcionários da prefeitura, com os caminhões da prefeitura que eram abastecidos com doação dos postos de combustíveis da cidade, e passávamos em todas as casas para saber se a população tinha uma sobra de material de construção para doar. E a nossa mobilização também acontecia em parceria com as rádios, que divulgavam o dia todo esse trabalho. Esse material ia todo para uma área municipal, e lá os pedreiros e carpinteiros, juntamente com populares, construíam as casas e doávamos para as pessoas com menor poder aquisitivo. No final as pessoas beneficiadas pagavam o valor equivalente a uma TV colorida para ter uma casa. O Bairro está lá até hoje, com 600 moradias construídas.

Nós também revolucionamos a questão educacional. A educação é oferecer ferramentas ao cidadão para resolver seus problemas de vida, e neste sentido, implementamos um sistema de ensino diferenciado, um aprendizado com situações do cotidiano, utilizando elementos encontrados em casa e na escola. Resultado disso, o Paulo Freire, um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, foi nos visitar sem ser convidado, curioso para conhecer a experiência que havíamos implementado.

A origem das hortas comunitárias teve início no Brasil conosco em Lages, utilizávamos terrenos baldios e terrenos públicos para a produção de alimentos. Relacionado a este programa, criamos em Lages outro projeto voltado à assistência social, que mais tarde a Dona Ruth Cardoso, esposa do Ex-Presidente Fernando Henrique, implementou a nível nacional, que foi o Bolsa Família. Um modelo onde a pessoa era selecionada e recebia 80% do salário, foi a primeira vez que isso acontecia no Brasil, e engajado no projeto das hortas comunitárias o cidadão tinha oito meses para aprender a produzir e comercializar, para ter renda e não precisar mais do dinheiro que a prefeitura fornecia.

Também dentro do programa, criamos o Armazém Popular, uma associação de micro-comerciantes que recebiam estes produtos a preço de custo para comercializar, foi criado uma Rede de Armazéns Populares e com isso surgiu uma intriga com os distribuidores da cidade, mas sentamos e conversamos e o projeto seguiu forte durante a minha administração.

A primeira célula do SUS também foi desenvolvida em Lages. Mesmo não sendo da nossa responsabilidade, nós fizemos um trabalho para acabar com as filas do INSS, levamos os médicos e demais profissionais de saúde para prestar atendimentos na periferia da cidade, bairros e interior, as casas eram cedidas pela população e se transformaram em postos de saúde. Foi ali que surgiram as primeiras agentes de saúde. Depois de acabarmos com as filas, montamos um relatório com mais de 600 páginas, com imagens e dados, e levamos para o Ministro da Saúde. O Ministro ficou com o material e convocou uma reunião interministerial para executar o projeto à nível nacional, a partir dali criaram 20 pilotos espalhados pelo Brasil, um deles em Lages, posteriormente houve uma conferência de saúde no Itamaraty e criaram uma legislação encima da nossa proposta.

O orçamento participativo também foi criação da nossa gestão em Lages. Nada melhor que a própria população dizer onde necessita de mais recursos. Fizemos isso, a proposta dividia opiniões, mas foi um sucesso, inclusive, a nossa proposta foi adotada pela Prefeitura de Porto Alegre, cujo Prefeito Fortunati, quis assumir a autoria do projeto.

Existe livro e até filme sobre a administração de Lages, o livro inclusive, encontrei no México, numa palestra que fui ministrar lá, e o filme foi um dos mais vistos do segmento no Brasil, segundo a Embrafilmes. Neste período de 6 anos de prefeito recebi várias visitas de lideranças políticas em Lages para presenciar todo esse trabalho, como por exemplo, do atual Vice-Presidente da República, Geraldo Alckmin, na época Prefeito de Pindamonhangaba, do ex-Governador do Paraná, Roberto Requião, Prefeitos do estado da Bahia, do Vale do Paraíba, enfim, era muita gente que queria conhecer os nossos projetos. Além das visitas, fomos tema de quatro “Globo Repórter”, sem ao menos ter contato direto com alguém da Rede Globo.

Na segunda parte da entrevista “Especial Camponovenses” com Dirceu Carneiro, traremos a sua passagem pelo Congresso Nacional e a sua atuação marcante como Deputado Federal e Senador da República.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1791 de 10 de agosto de 2023.

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