Irmãos de Campos Novos recriam com precisão histórico quadro de Jesus Misericordioso.
Foi a partir da leitura do livro O Diário de Santa Faustina que os irmãos Jonatas Mendes Barboza e Diego Mendes Barboza, de Campos Novos (SC), decidiram iniciar a reprodução do quadro de Jesus Misericordioso, uma imagem descrita por Santa Faustina após experiências místicas e que se tornou símbolo da devoção à Divina Misericórdia.
A entrevista, concedida ao jornal O Celeiro, revelou os bastidores do processo de criação da réplica, desenvolvido ao longo de três anos e marcado por pesquisas minuciosas, trocas com uma restauradora na Polônia e uma série de desafios técnicos e espirituais enfrentados ao longo do caminho.
CURIOSIDADE E HISTÓRIA
A iniciativa dos irmãos nasceu da união de duas paixões antigas: a arte e o fascínio pela história, especialmente pelas narrativas ligadas aos santos da Igreja Católica.
“Sempre tivemos esse gosto por pesquisas e curiosidade sobre a vida dos santos. Desde pequenos, também pintávamos juntos. Quando lemos sobre o quadro no diário de Santa Faustina, sentimos o desejo de recriar essa imagem que tem tanto significado para os fiéis”, contou Jonatas durante a entrevista.
A decisão de iniciar a obra surgiu da vontade de entender mais profundamente o que a imagem representava, bem como da intenção de se aproximar o máximo possível da versão original.
“Sabíamos que o quadro havia passado por modificações ao longo do tempo, por isso queríamos buscar a maior fidelidade possível”, explica.
PESQUISA E OBSTÁCULOS
Para além do conteúdo do livro, os irmãos passaram a consultar documentários, artigos e sites especializados para compreender todos os elementos que compunham o quadro. A principal dificuldade foi encontrar as medidas originais da imagem, que não estavam disponíveis publicamente.
A reviravolta aconteceu quando Jonatas encontrou, num site, o contato da restauradora responsável pela obra original, atualmente localizada em Vilnius, na Lituânia.
“Escrevi um e-mail traduzido pelo Google Tradutor e enviei. Depois até me esqueci, achava que não receberia resposta. Mas quinze dias depois, para a nossa surpresa, ela respondeu com as medidas exatas e algumas imagens”.
RECRIAÇÃO DA OBRA
Com as medidas em mãos, os artistas encomendaram a moldura em Joaçaba. O transporte até Campos Novos foi mais um dos vários desafios enfrentados.
“A transportadora estava relutante. Eu disse que me responsabilizava por qualquer dano. No fim, correu tudo bem.”
Começou então o processo de pintura. Um dos pontos mais complexos foi a tentativa de reproduzir as cores originais. Por ser uma obra antiga, com misturas de tinta que mudaram com o tempo. Tentaram chegar o mais perto possível, mas foi um trabalho delicado.
A iluminação também foi um ponto central: os feixes de luz que saem do peito de Jesus são a única fonte de luz na imagem. “Esse efeito é crucial para o significado do quadro. A luz simboliza a salvação que emerge das trevas.”
ANDAMENTO E EXPERIÊNCIA
Durante três anos, o quadro passou por momentos de paralisação. Em certos momentos, em que faltava motivação. A tela ficava encostada, mudando de lugar pela casa.
Foi no início deste ano que tudo se transformou. “Havia um desejo crescente de finalizar. Em determinado momento, ao pintar os feixes de luz, achei que não tinha conseguido. Peguei um pano para limpar o excesso, e por baixo da tinta, a imagem apareceu incrivelmente bonita. Foi como um sinal.”
Esse episódio marcou a retomada definitiva do trabalho. “Foi um momento de inspiração intensa. Comecei a pintar em fluxo e, de repente, boa parte do quadro já estava pronta.”
A moldura, que teve um custo superior a mil reais, foi financiada com ajuda de amigos.
“Juliana de Cristo Nunes Varela pagou metade. O restante veio do Simão Wolf. São pessoas que acreditaram no que estávamos a fazer. A J2 e a CN Print, também ajudaram lá no início do projeto com impressões ampliadas que permitiram visualizar os detalhes do rosto de Jesus”.
Finalizado no período da Quaresma, o quadro foi entregue à comunidade Água Viva para integrar a novena da Divina Misericórdia, iniciada na Sexta-feira Santa. O destino definitivo da obra ainda está em discussão, mas os artistas desejam que ela permaneça acessível ao público. “Não é uma obra para ficar escondida. A intenção é que esteja à vista, como Jesus pediu a Santa Faustina. Queremos que traga conforto a quem olhar para ela.”
Jonatas descreve o projeto como um percurso de entrega pessoal.
“Conversávamos com a imagem durante o processo. Pedíamos inspiração. Não havia intenção de fama, apenas vontade de realizar algo que admirávamos. A experiência foi mais do que uma obra de arte. Esperamos que quem olhar para ela sinta algo. Que encontre consolo, paz, ou simplesmente uma conexão. Foi para isso que fizemos.”
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1875 de 24 de abril de 2025.


