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O lado invisível da maternidade que precisamos enxergar  

Maio costuma ser um mês de homenagens às mães, mas talvez este também precise ser um mês de reflexão sobre aquilo que quase nunca aparece nas fotos bonitas, nas mensagens emocionadas e nas celebrações de família: o peso silencioso que milhões de mulheres carregam todos os dias.

Existem mulheres que vivem em estado permanente de alerta. Mulheres que dormem pouco, se preocupam o tempo inteiro, administram contas, consultas, medicações, crises emocionais, escola, trabalho, alimentação, burocracias e ainda tentam encontrar forças para continuar sorrindo diante dos filhos. E, muitas vezes, fazem tudo isso praticamente sozinhas.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Dados do Censo 2022 mostram que 49,1% dos domicílios brasileiros já têm mulheres como responsáveis pelo lar. Estudos da FGV indicam que, no fim de 2024, o Brasil chegou a cerca de 41,3 milhões de mulheres chefes de família. O próprio IBGE também identificou aproximadamente 7,8 milhões de mulheres vivendo com filhos sem a presença de um cônjuge. E dentro dessa realidade já tão desafiadora, existe um grupo de mulheres que enfrenta uma sobrecarga ainda maior: as mães atípicas.

São mães de crianças com autismo, TDAH, deficiência intelectual e outras condições que exigem cuidado contínuo. Mulheres que vivem entre terapias, filas de espera, consultas, crises sensoriais, preconceitos, o medo constante do futuro e uma pergunta que insiste em rondar os pensamentos: “e quando eu não estiver aqui, quem cuidará?” Mulheres que, muitas vezes, precisam abandonar a própria vida profissional porque a sociedade ainda não está preparada para acolher seus filhos.

 

Recentemente, ouvi o relato de duas mães atípicas que buscavam apoio. Enquanto conversávamos, uma frase ficou ecoando dentro de mim: “nós, mães, precisamos ser fortes o tempo inteiro.” E talvez seja justamente isso que mais machuca. Porque ninguém consegue viver permanentemente sendo forte sem adoecer física e emocionalmente.

Existem pesquisas acadêmicas que mostram que o abandono paterno aumenta significativamente quando nasce uma criança com deficiência ou condição que exige cuidado contínuo. Um dos dados mais citados no Brasil, divulgado por entidades ligadas à maternidade atípica e mencionado inclusive em audiência pública na Câmara dos Deputados, aponta que entre 70% e 78% dos pais abandonariam a família antes de a criança completar cinco anos. É importante dizer que o Brasil ainda não possui um levantamento nacional oficial específico sobre esse índice, mas o fenômeno da sobrecarga materna e do afastamento paterno é reconhecido por pesquisadores, psicólogos, assistentes sociais e entidades da área.

Estudos da USP e da UEMG também identificaram relatos recorrentes de abandono, rejeição e esgotamento emocional entre mães de crianças com deficiência e transtornos do neurodesenvolvimento. E isso tem consequências profundas. Porque essas mulheres não carregam apenas a rotina do cuidado. Carregam também o peso emocional de lutar diariamente para garantir aos filhos aquilo que deveria ser básico: acolhimento, escola preparada, terapias, respeito e dignidade.

Muitas acabam criando redes paralelas de sobrevivência emocional. Grupos de apoio, espaços de escuta, movimentos de acolhimento e troca de experiências. Lugares onde, por alguns instantes, elas conseguem deixar de ser apenas as mulheres que resolvem tudo para também serem cuidadas. E quando mães precisam criar sozinhas estruturas emocionais para suportar o próprio sofrimento, isso também revela ausências da sociedade e do poder público.

Falamos muito sobre inclusão, mas ainda praticamos pouco a inclusão real. Inclusão não é apenas colocar uma criança dentro de uma sala de aula e imaginar que isso resolve tudo. Inclusão exige profissionais preparados, escolas capacitadas, acesso a terapias, atendimento multidisciplinar, acolhimento às famílias e políticas públicas permanentes.

É preciso compreender que, por trás de cada criança atípica, existe quase sempre uma mãe emocionalmente sobrecarregada tentando impedir que o mundo desista do seu filho. E quem olha para essa mãe? Quem cuida dela?

Talvez uma sociedade mais humana comece justamente quando entendermos que não basta cuidar apenas de quem precisa de atenção especial. É preciso cuidar também de quem sustenta silenciosamente tantas vidas todos os dias.

Maio é o mês das mães. Mas deveria ser também o mês em que a sociedade parasse para enxergar, de verdade, essas mulheres que seguem cuidando, resistindo e sustentando o mundo, muitas vezes no silêncio, no cansaço e na solidão. Porque ninguém deveria precisar carregar tudo sozinha para provar amor. Nem mesmo uma mãe.

POR: Marlene Fengler – Secretária-geral da Alesc

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