“SÃO JOÃO”: IDENTIDADE E A VERGONHA DE SER QUEM SOMOS

Junho chegou.

Com ele vêm o frio, o pinhão, os fogões acesos, os encontros em família e as tradicionais festas juninas.

E mais uma vez eu faço uma pergunta que parece incomodar muita gente:

O que há de tão feio na cultura de Campos Novos que ela precisa ser escondida justamente quando chega a hora de celebrarmos nossas tradições?

Todos os anos assistimos à mesma cena. Em pleno inverno, numa região marcada por uma forte herança gaúcha, nossas festas são tomadas por representações culturais que pouco ou nada têm a ver com a história local.

Aparecem os cactos onde deveriam estar as araucárias.

Aparecem as caricaturas de um caipira genérico que nunca existiu por aqui.

Aparecem danças, músicas e símbolos importados de outras realidades regionais.

E desaparecemos nós!!!

Antes que algum apressado tente transformar esta reflexão em uma disputa entre culturas, faço questão de deixar algo muito claro: não existe cultura brasileira superior ou inferior. O forró tem sua beleza. O sertão tem sua riqueza. O Nordeste possui uma das mais extraordinárias expressões culturais do país.

Mas a pergunta continua de pé:

Por que a cultura dos outros merece ser preservada e a nossa parece precisar ser substituída?

Cada Região Celebra o “São João” à Sua Maneira.

Você vai a uma festa junina no Nordeste esperando encontrar vanerão?

Você imagina uma quermesse sertaneja servindo pinhão como símbolo principal da festa?

Claro que não! Porque cada região celebra São João a partir daquilo que ela é!

E deveria ser exatamente assim em Campos Novos.

O problema é que muitos confundem festa junina com um modelo único e padronizado de festa. Não existe um único “São João” brasileiro.

Existe um “São João” nordestino.

Existe um “São João” caipira.

Existe um “São João” amazônico.

E deveria existir, sem qualquer constrangimento, um São João com a nossa cara!

Campos Novos não apenas sofre influência gaúcha. Campos Novos é gauchesca.

Aliás, a questão vai muito além da geografia. Campos Novos não possui apenas influência gaúcha por estar na divisa com o Rio Grande do Sul. Campos Novos foi socialmente construída dentro de uma tradição cultural gauchesca.

Isso está na sua formação histórica, está nos movimentos populacionais que ocuparam a região, está na pecuária, nos costumes do campo, nos bailes, na música, no vocabulário, na mesa….

Está na forma como as famílias se relacionam com a terra, com a comida, com a religiosidade e com a comunidade.

Giovani Primieri

O gauchismo aqui não é um enfeite de setembro!

É um elemento constitutivo da identidade regional.

Ele ajudou a moldar o modo de viver, de trabalhar e de celebrar de gerações inteiras.

Por isso me causa estranheza quando alguém se arrepia ao ouvir que uma festa junina pode ter bombacha, bota, rancheira, vanerão e pinhão.

Como se isso fosse uma afronta.

Como se defender a própria cultura fosse algum tipo de radicalismo.

Na verdade, o radicalismo está justamente no contrário: na ideia de que todas as regiões do Brasil precisam reproduzir a mesma estética cultural para serem consideradas autênticas.

Essa visão não valoriza a diversidade brasileira. Ela a empobrece.

O Que Há de Tão Feio na Nossa Cultura?

Por que temos vergonha da bombacha, mas não da fantasia caricata?

Por que escondemos o vanerão e importamos referências que não contam a nossa história?

Por que celebramos “São João” sem celebrar quem somos?

Está na hora de acordar!

A nossa cultura está viva! Está debaixo do nosso nariz!

Está nas famílias, nos bailes, nos galpões, nas rodas de chimarrão, no pinhão, no churrasco, na música e na memória de quem construiu esta terra.

Que as festas juninas continuem existindo.

Mas que tenham também a nossa cara.

Que tenham rancheira, vanerão e pezinho.

Que tenham bombacha e bota.

Que tenham pinhão e fogo de chão.

Que tenham orgulho.

Porque se a própria paróquia vende churrasco e faz baile de São João com o Bertussi é porque isso tem pertencimento!

Cantemos a nossa terra! Dancemos a nossa gente!

Porque eu não tenho vergonha da minha cultura.

E espero que chegue o dia em que todos nós tenhamos orgulho de dizer, sem pedir licença a ninguém, quem somos.

Por: Giovani Primieri
Escritor, figurinista, instrutor de danças tradicionais, declamador e professor de Cultura Gaúcha há mais de 25 anos

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1931 de 04 de junho de 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Jornal Celeiro
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.