Mulheres na política: Candidaturas aumentam, mas presença no poder ainda é pequena

Mulheres com experiência política discutem o que separa a candidatura da chegada efetiva aos espaços políticos.

As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros. Dados da Justiça Eleitoral mostram que são 83,8 milhões de eleitoras, contra 74,8 milhões de homens. A diferença acompanha a composição da população brasileira. Segundo o IBGE, o país tem cerca de 6 milhões de mulheres a mais do que homens.

Mesmo sendo maioria, elas ainda têm participação menor nos cargos de liderança e nos espaços de decisão.

Na política, a presença feminina nas eleições aumentou nos últimos anos, mas ainda existe uma diferença entre estar na disputa e chegar aos lugares onde as decisões são tomadas.

Santa Catarina também repete esse cenário: o eleitorado feminino é maior, mas a presença das mulheres no poder ainda é pequena. Diante desse cenário, surge a pergunta: se o número de mulheres candidatas aumentou, por que esse crescimento não aparece da mesma forma entre as eleitas?

As razões podem ser diferentes. Falta de espaço dentro dos partidos, recursos, estrutura de campanha, responsabilidades familiares, violência política e até o interesse das próprias mulheres em entrar na política são alguns dos pontos que aparecem nessa discussão.

POSIÇÃO

Para a advogada e presidente da OAB de Campos Novos, Janaína Dias de Deus, um dos pontos está justamente na diferença entre ser candidata e ter condições reais de disputar uma eleição. “Registrar uma candidatura é diferente de oferecer uma candidatura competitiva”, explica.

A legislação determina que partidos e federações tenham, nas eleições proporcionais, pelo menos 30% e no máximo 70% de candidaturas de cada sexo. A regra aumentou o número de mulheres nas urnas, mas, na avaliação de Janaína, não foi suficiente para aumentar na mesma proporção o número de mulheres eleitas.

Para ela, uma candidatura precisa de mais do que um nome colocado na urna. É necessário ter recursos, estrutura, visibilidade, apoio do partido e tempo para construir uma trajetória política.

“Muitas mulheres são chamadas apenas próximo da eleição, sem formação e sem base eleitoral consolidada. Além disso, ainda acumulam responsabilidades profissionais e familiares. Não falta capacidade das mulheres. Muitas vezes falta condição real de disputa”, afirma.

A advogada também chama atenção para a violência política contra a mulher, que pode aparecer em ameaças, humilhações, perseguições, ataques pessoais e tentativas de silenciamento. Mas faz uma ressalva: críticas à atuação de um político fazem parte da democracia. O problema, segundo ela, está quando a mulher é atacada ou deslegitimada pelo fato de ser mulher.

DEPOIMENTOS

A EXPERIÊNCIA DE QUEM JÁ ESTEVE LÁ!

A advogada Celina Manfroi Cassiano Barros conhece essa realidade de perto. Ex-vereadora de Campos Novos, ela foi a primeira mulher a presidir a Câmara de Vereadores do município e, nas últimas eleições, também disputou a Prefeitura.

Durante os quatro anos em que esteve no Legislativo, levou para as discussões temas como violência obstétrica, amamentação, pobreza menstrual e abuso sexual infantil.

Mas também enfrentou situações em que sentiu que sua condição de mulher influenciou a forma como sua atuação era recebida.

Em uma delas, quando era presidente da Câmara, ouviu de um colega: “Essa menina não sabe o que está fazendo”. Em outra situação, durante um pronunciamento pelo Dia da Mulher, recebeu os parabéns pela data, mas também ouviu que ainda não seria uma “mulher completa” por não ser mãe.

Para Celina, situações como essas mostram que, mesmo depois de eleita, a mulher ainda precisa provar que merece estar naquele espaço. “Nós mulheres, apesar de termos o mesmo direito de ocupar os espaços de poder, somos constantemente colocadas na posição de ter que provar que somos capazes, que pertencemos àquele lugar e que a política também é um espaço para nós”, afirma.

Celina avalia que as cotas foram importantes, mas não resolvem sozinhas a questão. Para ela, as mulheres ainda encontram dificuldades para conseguir recursos, espaço dentro dos partidos, tempo de propaganda, formação política e apoio para construir uma candidatura.

Também existe outro fator: a responsabilidade com a casa e com os filhos, que ainda pesa de forma diferente para homens e mulheres.

“Não basta colocar mulheres nas listas de candidaturas. É preciso oferecer condições reais para que elas possam disputar, ocupar espaços de poder e exercer seus mandatos”, defende.

QUEM ESTÁ PRESENTE

A vice-prefeita de Campos Novos, Claudia Lessi, também afirma já ter passado por críticas, questionamentos e situações que fizeram refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na vida pública.

Para ela, é preciso aprender a diferenciar uma crítica à atuação política de um ataque direcionado ao fato de ser mulher.

“Quando escolhemos participar da vida pública, precisamos ter coragem para ouvir críticas, mas também saber diferenciar uma crítica legítima de um ataque que tenta diminuir simplesmente por sermos mulheres”, afirma.

Claudia também defende que a participação feminina seja acompanhada de informação e preparação. A orientação é que as mulheres estudem, conheçam a realidade da comunidade e estejam preparadas para defender aquilo em que acreditam.

“Não precisamos esperar que alguém diga que estamos preparadas. Precisamos nos preparar e ocupar os espaços que também são nossos por direito”, defende.

A vice-prefeita chama atenção ainda para os caminhos de denúncia em casos de violência política. Segundo ela, mulheres que sofrem ameaças, assédio, constrangimentos ou outros ataques relacionados à atuação política não devem enfrentar essas situações sozinhas.

Para Claudia, quando uma mulher é intimidada ou impedida de exercer seus direitos políticos por ser mulher, a questão deixa de ser apenas individual e também afeta a participação feminina na vida pública.

E, para quem ainda pensa em entrar na política, a mensagem da vice-prefeita é direta: “Venha com coragem, com propósito e com vontade de fazer a diferença.”

É PRECISO CORAGEM

A enfermeira e ex-vereadora Adriana Correa, que já foi vereadora e candidata à Prefeitura de Vargem, traz outra experiência.

Ela também relata situações constrangedoras que viveu, principalmente em um ambiente onde a maioria dos colegas era formada por homens.

Segundo Adriana, houve momentos em que enfrentou dificuldades para participar de comissões e ouviu manifestações desrespeitosas.

Ao mesmo tempo, ela afirma que atualmente encontra espaço dentro do partido e não percebe diferença na distribuição de recursos entre homens e mulheres. Para Adriana, aumentar a participação feminina depende também de as próprias mulheres se colocarem como candidatas. “Quando a gente dá nossa cara, somos enxergadas por outras mulheres e damos também coragem para que outras mulheres participem desse processo”.

E o interesse das próprias mulheres?

É aí que a discussão fica mais ampla. Se existem cotas, mulheres preparadas e cada vez mais candidaturas femininas, será que o problema está somente na falta de oportunidades?

Ou as próprias mulheres ainda precisam se sentir mais motivadas a ocupar esses espaços? As entrevistas mostram que as respostas podem ser diferentes. Para Janaína, é preciso preparar e incentivar as mulheres antes mesmo do período eleitoral, para que tenham conhecimento, experiência e espaço dentro dos partidos.

Celina entende que a falta de representação feminina também está ligada a dificuldades que começam antes da eleição e continuam depois dela. Já Adriana defende que as mulheres precisam ocupar os espaços e mostrar que podem estar na política. Em Campos Novos, os números atuais deixam essa pergunta ainda mais evidente: por que nenhuma das nove cadeiras da Câmara é ocupada por uma mulher?

Em outras cidades, a presença feminina também é maior. Três Barras, por exemplo, tem uma mulher à frente da Prefeitura e presença feminina no Legislativo. São cenários diferentes dentro do mesmo estado, que ajudam a ampliar a reflexão sobre os caminhos que levam uma mulher da candidatura até os espaços de decisão.

A questão, portanto, continua aberta: as mulheres estão tendo espaço para chegar à política ou ainda estão apenas sendo chamadas para ocupar a vaga de candidata e cumprir as cotas eleitorais?

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1948 de 01 de Outubro de 2026.

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