Psicóloga do CAPS de Campos Novos chama atenção para a forma como o tema é abordado e defende mais informação, escuta e acolhimento durante todo o ano.
Quando o assunto é prevenção ao suicídio, não basta entrar no automático e replicar frases prontas. A Campanha do Setembro Amarelo é mais do que o destaque de uma cor: é uma mensagem que requer atenção e cuidado para que consiga alcançar quem passa por momentos de sofrimento emocional.
Para a psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Campos Novos, Luana Lorenzini, falar sobre o tema exige responsabilidade para que as campanhas de conscientização não acabem reduzindo um sofrimento complexo a frases prontas ou mensagens motivacionais.
A profissional avalia que o trabalho de prevenção precisa acontecer durante todo o ano e envolver diferentes setores da sociedade, não apenas os serviços especializados em saúde mental. Escolas, empresas, famílias e a própria rede pública de saúde também têm papel nesse processo.
Durante setembro, o CAPS promoveu rodas de conversa abertas à população, com o objetivo de ampliar a informação sobre o tema, orientar sobre formas de acolher pessoas em sofrimento e apresentar os caminhos disponíveis para buscar ajuda.
A iniciativa foi apenas uma parte de um trabalho que, segundo a psicóloga, precisa ser permanente. “Durante o ano todo a gente precisa trabalhar, reforçar o trabalho não só no CAPS, mas em toda a sociedade”, afirma.
Um dos pontos levantados por ela é a necessidade de rever a maneira como a prevenção é comunicada. Frases como “valorize a vida”, “a vida é tão bonita” ou “você é tão jovem” podem parecer positivas para quem as pronuncia, mas não necessariamente alcançam uma pessoa que esteja enfrentando um sofrimento intenso.
“Quando a campanha fala sobre valorização da vida, essa palavra soa bem pesada para aquela pessoa que se encontra em sofrimento emocional”, afirma.
Segundo a psicóloga, isso não significa que a pessoa esteja simplesmente “desvalorizando” a própria vida. Ela pode estar atravessando uma situação de sofrimento para a qual não consegue encontrar saída naquele momento. Por isso, a orientação é substituir respostas automáticas por escuta, acolhimento e encaminhamento para ajuda profissional.
QUER AJUDAR QUEM PRECISA DE APOIO
- O que fazer?
- Não procurar uma fórmula: nem sempre os sinais de sofrimento são visíveis e não existe uma maneira infalível de identificar uma pessoa em risco apenas pelo comportamento.
- Não transformar prevenção em promessa: falar em prevenção não significa que seja possível prever ou impedir todos os casos. O cuidado envolve acompanhamento e uma rede preparada para acolher.
- Cuidado com a linguagem: antes de dizer que alguém precisa “valorizar a vida”, é preciso considerar como essa mensagem pode ser recebida por quem está sofrendo.
- Menos espetáculo, mais informação: campanhas podem chamar atenção para o tema, mas o objetivo deve ser orientar, acolher e aproximar as pessoas dos serviços de saúde, e não transformar a prevenção em comemoração.
- Não falar apenas em setembro: saúde mental e prevenção precisam fazer parte do cotidiano de escolas, empresas, famílias e serviços públicos durante todo o ano.
- Ouvir sem julgar: diante de alguém em sofrimento, acolher e ajudar na busca por atendimento pode ser mais importante do que tentar encontrar a frase perfeita.
A preocupação com a linguagem não significa deixar de falar sobre o suicídio. Pelo contrário. A Organização Mundial da Saúde orienta que o tema seja abordado de maneira responsável, evitando simplificações e contribuindo para reduzir o estigma em torno da busca por ajuda.
A psicóloga explica que a rede municipal de saúde, por meio das unidades básicas, da Unidade Central e da Secretaria de Saúde, também pode ser procurada por quem enfrenta sofrimento emocional. O CAPS é destinado ao atendimento de pessoas com quadros graves de saúde mental e oferece acompanhamento conforme a necessidade de cada caso.
O mês de setembro logo chegará ao fim, mas a mensagem que ele carrega deve permanecer durante todos os meses do ano.
Para quem estiver em sofrimento ou com pensamentos suicidas, a orientação é procurar ajuda. No município, os serviços de saúde podem orientar sobre o atendimento adequado.
Em situações de emergência, o SAMU pode ser acionado pelo 192. O CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia, oferecendo apoio emocional.
*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1947 de 24 de Setembro de 2026.







