É preciso falar sobre suicídio. Campanha Setembro Amarelo sensibiliza para a prevenção. Na região de Campos Novos foram 17 suicídios entre 2016 e 2017.
Setembro Amarelo é uma campanha que acontece desde 2014 em todo o país e visa a conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio. Durante todo o mês é comum ver espaços públicos e privados decorados ou iluminados com a cor amarela. O período foi escolhido porque 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.
Com o Setembro Amarelo, a ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio, além de divulgar o tema e alertar a população sobre a importância de sua discussão. O suicídio é um problema de saúde pública no Brasil e a sua ocorrência tem crescido entre os jovens.
De acordo com os números oficiais, 32 brasileiros se matam por dia. Essa taxa é maior do que a de vítimas de AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Santa Catarina é o segundo estado com maior número de suicídios no país, com uma taxa de 7 suicídios para cada mil habitantes. Rio Grande do Sul lidera a estatística, com uma taxa de 11 suicídios para cada 100 mil habitantes.
Na Região de Campos Novos, conforme dados do Instituto Geral de Perícias – IGP, entre o ano passado e este ano, foram registrados 17 suicídios, com maior índice entre homens jovens, com idade até 25 anos. 14 homens cometeram suicídio, sendo que desses apenas 3 eram idosos. Outros três suicídios foram de mulheres. Já o índice de tentativas de suicídio é maior, a estimativa é que para cada suicídio ocorram 10 tentativas.
Conversamos sobre a temática com o Comandante do Corpo de Bombeiros Militar de Campos Novos, 2º Tenente Luiz Gustavo Bontelli e com a coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Vida e Saúde – CAPS de Campos Novos, a psicóloga Luana Lorenzini.
Fatores de Risco
Tenente Bonatelli nos apresentou um trabalho de conclusão de curso de 2014 do 1º Tenente BM Tenente Raniel Telles Pinheiro, com apontamos sobre fatores de risco e características de quem comete suicídio. Os dados da pesquisa foram coletados e compilados entre 2009 e 2013. Entre os apontamentos consta que o histórico de tentativas de suicídio e transtornos mentais são os principais fatores de risco para o suicídio. Neste rol de fatores enquadram-se transtornos como esquizofrenia, depressão, distimia, transtorno afetivo bipolar e o alcoolismo. Outros fatores a serem considerados são a perspectiva biológica (fatores biológicos e genéticos), teorias psicológicas (relacionadas a fatores de distúrbios e transtornos) e sentido sociológico (se enquadram aqueles que se matam para acabar com o próprio sofrimento ou para não dar trabalho a ninguém). A pesquisa comprova que o ato de tirar a própria vida é praticado mais por homens. “São mais homens e os três métodos mais utilizados são o enforcamento, arma de fogo e medicamentos. Já as mulheres adotam métodos mais lentos e menos dolorosos e que consequentemente tem mais chances de serem revertidos, caso haja atendimento em tempo hábil”, afirmou o Tenente.

Conforme a pesquisa, o conhecimento do método adotado pelo suicida possibilita ao Comando da Operação planejar previamente as ações táticas a serem adotadas no atendimento de uma ocorrência, visando garantir a segurança da vítima, dos bombeiros e ainda dos populares e curiosos no local. A abordagem verbal é a forma mais segura de tentar convencer o suicida a desistir do intento.
O Comandante cita ainda entre fatores de risco o ambiental. “O fator ambiental é importante a ser considerado. De repente a pessoa está pensando em se matar, mas não tem acesso, por exemplo, a uma arma de fogo acaba não cometendo o ato. A questão ambiental é o acesso da pessoa aos métodos para cometer o suicídio”.
No fator idade, a pesquisa constatou que a faixa etária de 20 a 49 anos detém a maioria dos casos. Quanto ao estado civil, os casados são os que mais cometem suicídio em Santa Catarina, detentores de cerca de 39% dos casos em relação ao total, seguidos de 32% de solteiros, contra 9% dos separados judicialmente. A pesquisa aponta ainda que as macrorregiões do Vale do Itajaí e do Grande Oeste são em que mais se cometeu suicídio.
Entre os casos atendidos pelo Corpo de Bombeiros de Campos Novos, observou-se o histórico familiar. “Geralmente falta acompanhamento, são pessoas que já tem um histórico de depressão e é preciso alguns cuidados por parte da família, como não deixar medicamentos à mostra, objetos pontiagudos e cordas, para não dar oportunidade, como cita em seu trabalho o Tenente Alves”, observou ainda Bonatelli.
Sim, é preciso falar sobre suicídio

O Setembro Amarelo conta com o apoio do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Mundialmente, a Associação Internacional para Prevenção do Suicídio (IASP) também participa da divulgação do projeto.
Para a psicóloga e coordenadora do CAPS Vida e Saúde, Luana Lorenzini, falar sobre suicídio é a melhor solução. “Falar sim é a melhor solução, o suicídio não é uma doença específica, mas resultado de um comportamento que pode ocorrer em quadros clínicos diversos, que necessitam de uma atenção especial, terapias peculiares e abordagens individualizadas”.A psicóloga esclarece que na maioria dos casos as pessoas apresentam sinais indicativos do suicídio. “Na maioria das vezes as pessoas apresentaram sinais sim e na maior parte dos casos são portadores de transtornos mentais e precisam de uma atenção especial”.
Desmistificar os mitos e acabar com os preconceitos sobre o tema é fundamental. É preciso estar atento ao comportamento diário da pessoa, se há uma desconfiança, é importante que se converse diretamente com quem está sofrendo. Um diálogo aberto, respeitoso, empático e compreensivo pode fazer a diferença. É possível prevenir, destaca Luana Lorenzini. “Campos Novos apresentou um número bem preocupante de suicídios no início do ano, principalmente nos primeiros meses e a maioria que cometeu suicídio não estava em tratamento no CAPS. Dos pacientes em tratamento dificilmente a gente perde alguma pessoa por suicídio”, reforçou.
Em períodos de crise é imprescindível que a família acompanhe e forneça os remédios necessários, não deixando os medicamentos à disposição, a fim de evitar a ingestão em demasia pelo paciente. Quanto mais apoio e diálogo, maior será o sentido de proteção e segurança. “Infelizmente nós ainda nos deparamos com situações de preconceito, tanto quando se trata de suicídio, quanto de problemas emocionais, situações que estão mais próximas de nós do que imaginamos. Também é importante falarmos e incentivarmos os fatores de proteção, que é a valorização da vida, atividades de lazer, envolvimento na comunidade e o acesso facilitado aos serviços de saúde mental”, orientou ainda a psicóloga.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1496 de 14 de Setembro de 2017.







