Uma história de fé, superação e o poder transformador da doação de órgãos

Augusto Anciliero, de apenas 16 anos, morador de Arroio Trinta, vive hoje o que sua mãe define como um milagre. Após enfrentar uma batalha longa e dolorosa contra um tipo raríssimo de câncer, o adolescente venceu o tempo e desafiou estatísticas graças à solidariedade de uma família doadora e à força de uma rede de apoio que nunca deixou de acreditar.

Foi no início de dezembro de 2021 que a vida de Augusto e de toda sua família mudou completamente. Na época, com apenas 12 anos, ele acordou sentindo-se cansado, com dores nas pernas e, logo depois, apresentou febre. A princípio, tudo indicava uma virose, mas a febre persistiu, e os sintomas começaram a se agravar com rapidez: perda de peso, pele amarelada e fortes dores abdominais.

A mãe, Ana Paula Nesi Alves, conta que o diagnóstico definitivo chegou após uma série de exames e transferências entre hospitais.

“Ele foi internado em Videira no dia 10 de dezembro e, naquele mesmo dia, recebemos o diagnóstico: câncer no fígado. Foi como se a terra abrisse e eu caísse num buraco”, lembra. “Era uma quarta-feira, e no domingo ele estava brincando feliz.”

O diagnóstico foi confirmado como Carcinoma Hepatocelular Fibrolamellar, um tipo raro de câncer que atinge uma em cada cinco milhões de pessoas, sobretudo adolescentes e jovens. O caso de Augusto exigiria uma jornada médica complexa e repleta de obstáculos.

CIRURGIAS, RECAÍDAS, E A BUSCA POR UM TRANSPLANTE

Augusto passou por duas cirurgias em 2022: a primeira em janeiro, quando teve 70% do fígado removido, e a segunda em novembro, após o retorno da doença em cinco novos pontos.

Ainda que as recuperações pós-operatórias tenham sido rápidas, a doença voltaria com força no final de 2023, atingindo o restante do fígado com 15 lesões.

Diante da gravidade do quadro, foi descartada qualquer nova cirurgia. O único caminho seria o transplante de fígado. No entanto, como o estado de Santa Catarina não realiza transplantes infantis e, por se tratar de câncer, Augusto não se enquadrava nos critérios normais para a fila de transplantes. A família iniciou então uma busca por médicos que acreditassem em sua chance de sobrevivência.

Foi em Porto Alegre que encontraram uma médica que, sensibilizada pelo caso, entrou com um pedido especial à Câmara Técnica Nacional. O pleito foi aceito, e Augusto passou a integrar a lista de espera. A fila era longa, e ele não tinha tanto tempo. Cada dia era uma corrida contra o avanço da doença.

A virada veio quando um médico-chefe do transplante viu, por acaso, os documentos do caso de Augusto. Comovido, ele fez contato com a família e acelerou o processo. Catorze dias depois de entrar na fila, veio a ligação que a família tanto esperava: um órgão compatível havia sido encontrado.

O transplante foi realizado em Blumenau, mas, mais uma vez, vieram complicações.

Durante a cirurgia foram descobertos novos nódulos, confirmados como sendo novamente da Fibrolamellar.

A recuperação foi difícil: Augusto desenvolveu pancreatite aguda, contraiu uma bactéria e o organismo entrou em rejeição ao órgão. Ele voltou para casa no dia 18 de dezembro de 2024, mas teve de ser internado novamente em estado grave, menos de um mês depois, no dia 12 de janeiro.

UM SEGUNDO TRANSPLANTE: ‘O Céu tocou o chão’

A situação era crítica. Augusto não tinha mais forças para sair da cama, e os médicos sabiam que ele não resistiria por muitos dias.

Foi então que, novamente, a esperança se renovou com a chegada de um novo fígado. A cirurgia, desta vez, durou 11 horas. Foram necessárias 12 bolsas de sangue para conter uma hemorragia. “Mais uma vez, Deus o resgatou, mostrando que Ele é o Deus até no vale da morte”, relembra Ana Paula.

Pouco tempo depois, a família pôde viver um dos momentos mais emocionantes dessa jornada: o retorno de Augusto para casa. “Eu ainda estou em êxtase. Olho pra ele e vejo Deus a todo momento. É um milagre que vivencio todos os dias.”

UMA NOVA ROTINA, E UM NOVO OLHAR PARA A VIDA

Hoje, Augusto está em casa, retomando a rotina aos poucos. Precisa seguir uma alimentação controlada, sem alimentos crus, e ainda está afastado de atividades físicas por seis meses. Mas já foi liberado para voltar à escola.

Recentemente, foi surpreendido com uma carreata de boas-vindas organizada por amigos. “Foi uma grande surpresa, ele nem sonhava. Choramos e rimos. A alegria e a emoção tomaram conta”, conta a mãe.

Ana Paula destaca a importância das orações e do apoio que recebeu. “As orações me mantiveram de pé, sustentaram o Augusto. Quando me diziam que não havia mais nada a fazer, eu acreditava que Deus não permitiria a morte do meu filho. Cada oração, cada mensagem foi um sustento.”

IMPORTÂNCIA DA DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Para ela, essa experiência revelou uma força que só se conhece no limite. “Uma mãe só sabe a força que tem quando a única opção que se tem é ser forte. Mãe é o ser mais forte que Deus colocou na Terra.”

Em meio a tanta dor e superação, Ana Paula reforça a importância de falar mais sobre doação de órgãos. “Isso é algo que não se fala muito. Mas a doação salva vidas. O gesto de uma família que decidiu doar em meio à dor foi o que permitiu meu filho viver.”

Aos que enfrentam situações semelhantes, ela deixa uma mensagem de fé: “Não sabemos os desígnios de Deus, mas Ele está presente. Não perca a fé, mesmo quando tudo parecer sem saída. Eu louvaria a Deus mesmo que meu filho não estivesse mais aqui, porque sei que Ele tem um propósito. Hoje, tenho em casa a prova de que milagres existem.”

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1891 de 14 de agosto de 2025.

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