Campanha Setembro Amarelo incentiva a prevenção e a valorização da vida

Psicóloga aborda momento e discussão do assunto.

Setembro é o mês dedicado à prevenção do suicídio, tema que segue sendo um grande desafio de saúde pública no Brasil e no mundo. Criada em 2013 pelo então presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, a campanha Setembro Amarelo, foi incorporada ao calendário nacional e, desde 2014, conta com a parceria do Conselho Federal de Medicina (CFM) na divulgação.

Hoje, é considerada a maior campanha antiestigma do mundo, mobilizando instituições públicas e privadas, profissionais da saúde e a sociedade civil.

O dia 10 de setembro é reconhecido como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas as ações se estendem ao longo de todo o mês e visam estimular reflexões sobre saúde mental e valorização da vida.

O CENÁRIO MUNDIAL E BRASILEIRO

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil suicídios são registrados todos os anos em todo o mundo. Considerando os casos subnotificados, estima-se que o número ultrapasse 1 milhão. No Brasil, a média é de 14 mil casos anuais, o que equivale a 38 mortes por dia.

Embora os índices globais venham apresentando queda, as Américas seguem em direção oposta, registrando crescimento das taxas. Segundo a OMS, quase todos os casos de suicídio estão relacionados a doenças mentais muitas vezes não diagnosticadas ou tratadas de forma incorreta. A entidade aponta que a maioria dessas mortes poderia ter sido evitada com acesso a tratamento adequado e informações de qualidade.

Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio já é a quarta principal causa de morte, atrás apenas de acidentes de trânsito, tuberculose e violência interpessoal. No Brasil, dados do Ministério da Saúde divulgados em 2022 revelaram aumento expressivo entre adolescentes: entre 2016 e 2021, as taxas cresceram 49,3% entre jovens de 15 a 19 anos e 45% entre 10 a 14 anos.

As diferenças também aparecem entre gêneros: no país, a taxa é de 12,6 por 100 mil homens, contra 5,4 por 100 mil mulheres. Globalmente, homens em países de alta renda apresentam índices mais elevados, enquanto entre as mulheres os maiores números estão em países de baixa e média renda.

O TABU EM TORNO DO TEMA

Flávia Darold

A psicóloga Flávia Darold (CRP 12/09196), que atua em clínica desde 2017 e é especialista em luto, trauma e estresse, reforça que ainda há grande dificuldade social em falar sobre o suicídio e suas consequências.

“O luto pelo suicídio é um luto invisível, carregado de tabu e preconceito. Muitas vezes, além da dor da perda, os familiares precisam lidar com o peso do julgamento social. Esse silêncio só aumenta o sofrimento e dificulta o acolhimento de quem fica”, destaca.

Segundo a especialista, esse estigma está enraizado em concepções históricas que associaram doenças mentais e sofrimento emocional a fraqueza ou falta de fé, resultando em preconceito e, consequentemente, no silenciamento de quem sofre.

SINAIS DE ALERTA

Embora nem todas as pessoas apresentem sinais antes de uma tentativa de suicídio, Flávia explica que existem mudanças de comportamento que podem servir de alerta para familiares e amigos.

Entre eles, estão: Alterações bruscas de humor, isolamento social, apatia e perda de interesse por atividades que antes geravam prazer, alterações de sono e apetite, falas recorrentes de desesperança, cansaço extremo ou falta de sentido na vida.

“É importante lembrar que esses sinais não aparecem em todos os casos. Por isso, familiares que perderam alguém por suicídio não devem carregar culpa. Mas, quando percebidos, esses indícios devem ser levados a sério, acompanhados de uma escuta ativa, sem julgamento e com incentivo para que a pessoa busque ajuda profissional”, explica a psicóloga.

REDE DE APOIO

De acordo com Flávia, o primeiro passo de quem deseja ajudar é oferecer um espaço seguro para a pessoa falar. Isso inclui evitar minimizar o sofrimento e estar disposto a apoiar na busca por tratamento.

“Às vezes, a pessoa até quer procurar ajuda, mas tem dificuldade de marcar a consulta, de comparecer. Nesses casos, oferecer companhia até o consultório, ajudar a organizar encaminhamentos médicos ou simplesmente estar presente já faz muita diferença”, ressalta.

Ela também alerta que, em situações de risco, é essencial garantir que a pessoa não fique sozinha e receba auxílio imediato.

ACOMPANHAMENTO

O tratamento mais eficaz costuma envolver uma combinação de acompanhamento psiquiátrico e psicológico, além do apoio familiar e comunitário.

“O acompanhamento psicológico é uma escuta especializada. Não é apenas falar com um amigo ou parente, é ter acesso a um manejo profissional que dá segurança para a pessoa e para a família. Essa engrenagem entre psicoterapia, suporte médico e rede de apoio é fundamental para salvar vidas”, explica.

PREVENÇÃO

Além da intervenção em crises, a prevenção pode começar em hábitos cotidianos. Flávia aponta que fortalecer a saúde mental envolve práticas como manter uma rotina equilibrada, reservar momentos de descanso, praticar atividades físicas, cultivar hobbies e manter vínculos sociais de confiança.

“É importante também limitar o excesso de informações negativas, especialmente nas redes sociais, que muitas vezes nos sobrecarregam emocionalmente. E, sempre que possível, manter o processo terapêutico para trabalhar o autoconhecimento e desenvolver uma ‘bolha protetora’ para a saúde mental”, acrescenta.

O PAPEL DAS INSTITUIÇÕES

Escolas, empresas e organizações também podem desempenhar papel essencial na prevenção. Roda de conversa, palestras sobre saúde mental, criação de canais de acolhimento e programas de apoio psicológico são algumas das iniciativas recomendadas.

“Durante muito tempo acreditou-se que falar sobre suicídio poderia estimular novos casos. Hoje sabemos, a partir de estudos, que ocorre o contrário: falar previne, porque abre espaço para acolher, compartilhar e reorganizar a dor”, reforça.

Para a psicóloga, todos podem ser rede de apoio e contribuir para a valorização da vida.

“Se você se identificou com esse sentimento de cansaço extremo, exaustão ou falta de esperança, saiba que não precisa carregar tudo sozinho. Procure alguém em quem confie seja na família, no trabalho ou nas amizades. A sua saúde mental importa tanto quanto qualquer outra parte da sua vida. Pedir ajuda é também um ato de cuidado consigo mesmo”, conclui Flávia.

*Reportagem publicada no Jornal O Celeiro, Edição 1896 de 18 de setembro de 2025.

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