Grupo de Estudos e Apoio à Adoção Semeando o Amor traz reflexão em palestra realizada em Campos Novos.
Adotar uma criança leva tempo, exige reflexão e prontidão interna. As motivações e implicações que levam à adoção foram motivos de reflexão durante palestra com a psicóloga Mariléia Ramos da Silva de Palhoça, especialista em Neuropsicologia e Psicodrama. O evento foi realizado na noite quinta-feira, 18, no auditório da Casa da Cultura e reuniu pais adotivos e pretendentes à adoção.
Por que adotar? Quais as reais motivações que levam a essa tomada de decisão? Quais as implicações do ato de adotar quando se desconhece ou se ignora as motivações que levam a esta tomada de decisão?
Quando se decide pela adoção, existe o compromisso de cuidar, respeitar e construir um vínculo de amor com uma pessoa que veio de outro ventre, com outra origem e historia que os pretendentes à adoção desconhecem.

Essas e outras considerações foram feitas por Mariléia, provocando uma reflexão mais profunda sobre o tema. “As implicações inclusive que são inconscientes e se a gente não der conta, pode vir a gerar problemas posteriores a adoção. Uma delas, por exemplo, são as reais motivações que levam o casal a buscar uma adoção. Se não estiverem claras, este casal pode estar buscando adotar por uma compensação, por uma conveniência, por um desejo de servir, fazer caridade ou solidariedade. É de extrema importância que as motivações estejam claras para a pessoa que adota, senão posteriormente vem uma frustração”, observou a psicóloga.

Assim como a demanda é grande para criar, educar, preparar um filho biológico para o mundo, muito mais é para um filho adotivo, avaliou Mariléia, que já foi rejeitado e levará isso consigo sempre. “Além de todas as necessidades que uma criança tem, a que é adotada traz consigo uma rejeição e é inegável que isso faz parte da sua personalidade, porque foi abandonada. Eu tenho especialidade no atendimento à criança e ao adolescente e uma das queixas deste quadro da adoção é que muitas vezes os pais sentem dó da criança e buscam compensar porque ela já foi rejeitada e aí eles tem dificuldade de exigir, dar limite. Muitas vezes a dificuldade é dos pais por tratarem essa criança como vítima e outras a dificuldade é da criança porque esses pais dão de tudo, porque ela está testando esta família, o quanto que a querem, o quanto que a amam, porque ela traz em si o medo de ser abandonada de novo”, refletiu Mariléia.
A psicóloga relatou ainda que é comum que a pessoa adote por uma compensação, para cuidar de alguém que na sua história ou na sua vida, não conseguiu fazer. “É comum que quem adota, faz isso para compensar, para cuidar de alguém que durante sua história não conseguiu fazê-lo, alguém que fez diferença na sua vida. A pessoa cresce com o desejo de um dia fazer isso por alguém e encontra espaço na criança que vai adotar”.
Adoção é um processo complexo, não só judicialmente, como também de convivência. Mas é possível sim, esses laços de amor se fortalecerem. Para isso Mariléia orienta que os pais procurem ajuda nos primeiros sinais de dificuldade. “Sempre é possível e depende da postura destes pais, se eles buscarem ajuda no primeiro sinal de dificuldade, vai ter formas de estruturar este relacionamento. Agora se esses pais começarem a negligenciar estas dificuldades e acharem que isso é normal porque os filhos trazem isso de outra história, vão ser fragilizados e não vão conseguir fazer o que tem ser feito. Acredito que toda a pessoa que deseja adotar uma criança deveria passar por um processo de terapia, de investigação para compreender suas reais motivações e conhecer seus recursos para lidar com a demanda que virá. Reforçando que toda a criança que é adotada, antes ela foi abandonada e nós começamos a nos formar já no ventre da nossa mãe. Até 3 anos a estrutura de personalidade é formada e tudo que se vive até esta idade é o que vai formatar a tua demanda durante a vida”, finalizou.
Sobre o Grupo Semeando o Amor
O Grupo de Apoio a Adoção Semeando Amor da Comarca de Campos Novos, foi fundado em outubro de 2002. É aberto à participação de pais e filhos adotivos, pretendentes a adoção, profissionais e pessoas da comunidade.
Tem como objetivo atender as necessidades de crianças e/ou adolescentes, articulando rede de apoio à família, adotiva ou biológica, prevenir o abandono, desmistificar o sentido da adoção, acompanhar famílias, estimular adoção tardia, interracial, ajudar criar mecanismos de apoio e incentivo, promover discussões através de palestras, encontros, debates, incentivar a produção de material informativo.
Também presta apoio aos pretendentes à adoção, incentivando, promovendo troca de experiências, criando uma cultura de adoção, pois se trata de um tema recorrente. “Uma das ações que podemos e devemos desenvolver, é investirmos no incentivo às adoções. Trata-se de um instrumento legal de que se pode valer o estado e a sociedade, para interromper o processo de marginalização que inevitavelmente decorre do abandono. Toda criança tem direito a uma família e um lar, um local onde possa crescer e se desenvolver física, mental e culturalmente. E ninguém deve ser privado desse direito”, destacou José Anselmo da Silva, presidente do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção Semeando o Amor.
Para José Anselmo da Silva, a adoção é uma forma natural e concreta de combater o abandono, recria a família para a criança que perdeu a sua origem e atribui condição de filho ao adotado, com os mesmos direitos e deveres. “Quando uma adoção acontece, a família se fortalece. Todos os membros sentem a sua força, toda a sociedade se beneficia dessa força, toda a humanidade cresce com essa força”.
José Anselmo, que é pai adotivo, reforça que um dos maiores desafios hoje é despertar o interesse dos pretendentes a adoção de crianças maiores de 4 anos (adoção tardia), que timidamente vem aumentando entre os pretendentes. “Encontros palestras, capacitações, são muito importantes para ajudar aos futuros pais tomarem decisões”.
Considera ainda que a adoção destina-se principalmente à proteção das crianças abandonadas, uma forma de tratamento dos efeitos do abandono, que para ele, se enquadra no contexto da marginalidade social. “É tido como doença crônica nos países subdesenvolvidos, ou um dos subprodutos mais catastróficos do desenvolvimento econômico e social, em cujos planos nacionais, estaduais e municipais deve-se inscrever-se a política da adoção, integrada na política social de proteção da infância e da família. Restituir à criança o seu direito de viver numa família em que seja amada, reconhecida, educada e protegida, é a solução que corresponde aos anseios de todos e que oferece à criança, as melhores condições de segurança e apoio necessários para o seu desenvolvimento. Sua reintegração em novo contexto familiar, no qual as raízes de sua personalidade são enxertadas, lhe possibilita a retomada das fases normais do seu desenvolvimento pessoal”.
Três passos devem ser seguidos visando a inscrição para adoção:
1)Agende uma Entrevista na Vara da Infância e Juventude de sua cidade;
2)Realização da Entrevista;
3)Inclusão no Cadastro Nacional de Adoção.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1480 de 25 de maio de 2017.







