Edson Lopes Camargo afirma que a comunidade irá permanecer e construir sua vida nas terras que são suas de direito

Após repercussão das declarações do superintendente do Incra, Nilton Tadeu Garcia, o presidente da Associação dos Remanescentes do Quilombo da Invernada dos Negros, Edson Lopes Camargo nas últimos dias que noticiaram que as comunidade invadiram as terras que hoje são usadas pela empresa Imaribo. Em seu discurso Edson pontuou os muitos fatores que causaram indignação na comunidade após circulação das notícias nos meios de comunicação. O primeiro fato citado foi a posição do Incra em se anular na questão envolvendo a empresa Imaribo e a comunidade. Edson também questionou o fato da comunidade ser acusada de invadir as terras que de direito pertencem à comunidade e garantiu que eles permanecerão nas terras. A comunidade que se instalou nas terras está em torno de 500 pessoas e em cerca de 170 famílias. Desde 2010, dos cerca de 8 mil hectares reconhecidos como de herança dos quilombolas apenas 800 hectares foram desapropriados e indenizados.
O presidente e representante da comunidade, disse que ficou surpreso quando ouviu as noticias em que o superintendente do Incra se omitiu em agir em defesa das comunidades e afirmou que não aceitara que o órgão não se envolva nesta questão. “Eu gostaria de lembrar ao senhor Garcia o decreto 4887/2003, no artigo 15 diz: ‘Durante o processo de titulação o Incra garantirá a defesa dos interesses dos remanescentes das comunidades dos quilombos nas questões surgidas em decorrência da titulação de suas terras’. Gostando ou não o Incra terá que acompanhar as negociações, pois se não o fizer levaremos todas as denúncias para o Ministério Público Federal e se não tivermos solução levaremos até a ONU”, (Organizações das Nações Unidas), rebateu. Edson prosseguiu seu discurso de indignação e afirmou que vieram para ficar. “Em mais de cem anos nós fomos roubados e desapropriados. Nesse dia 7 de setembro nós resolvemos dar um basta nessa situação”, afirmou.
Ainda outro fato que causou indignação foi o uso da palavra invasão por parte do superintendente Garcia, afinal as terras são heranças dos remanescentes dos quilombolas. Edson fez questão de relembrar o testamento de 12 de abril de 1876 deixado pelo fazendeiro Mateus José de Sousa que designou um terço de suas terras para os seus escravos, quando o Brasil ainda vivia o período de escravidão. “O que nós estamos fazendo é uma ocupação do que é nosso por direito. Temos o nosso testamento, temos decretos, estamos munidos de muita documentação e estamos com a lei do nosso lado. O papel do governo é cumprir as leis. Estamos alertas e vamos zelar pelos nosso direitos e busca-lo aonde for preciso”. Nestes dias em que a associação esta presente nas terras que ficam localizadas no distrito do Ibicuí, Edson disse que foi possível perceber como a empresa está degradando o meio ambiente. “Caminhando por aqui vemos as terras deterioradas. É obrigação do governo trazer desenvolvimento e recuperação do nosso solo e dos nosso direitos. Não podemos deixar que as grande empresa definam o futuro do país, por isso estamos aqui. A Invernada dos Negros está fazendo a sua parte e dizendo ao governo: Nós não aceitamos. Queremos o prosseguimento das políticas públicas para as comunidades quilombolas e indígenas de todo o país.”, reitera.
Em busca de solução para definir esse embate, a associação compareceu na segunda-feira (10) ao Ministério Público, e foi informada que a empresa Imaribo ainda não havia entrado com nenhum pedido de reintegração de posse e que a comunidade deverá aguardar. Edson disse que irá questionar judicialmente o posicionamento do Incra nestas circunstâncias, pois, segundo ele, o superintende Garcia publicamente tentou amedrontar as famílias que estão no acampamento. Esta provavelmente será uma briga longa, pois a comunidade parece estar disposta a ir até o fim e estão decididos a construir suas vidas nestas terras. “Em 2010 foram feitas diversas tratativas, e havia um acordo de que seria o último corte da empresa Imaribo e em seguida a comunidade faria uso das terras que são suas de direito. Não tivemos esse acordo cumprido por parte da empresa e estamos indignados. Permanecemos e construiremos a nossa vida e nosso futuro e dos nossos filhos aqui. Queremos resgatar a memória de nossos antepassado”, conclui.
*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1546 de 13 de Setembro de 2018.






