Um ano após greve dos caminhoneiros, oscilações no preço do combustível geram ameaças de nova paralisação

Exigências feitas pela classe em 2018 continuam sem ser cumpridas, e tabela de frete ainda não tem definição

No dia 10 de maio completou um ano do inicio da paralisação dos caminhoneiros que durou 10 dias. Foram os dez dias mais longos vividos por todos que foram afetados, direta e indiretamente, pela greve. Após um ano do ocorrido, as situações que levaram a greve ainda não foram resolvidas. A instabilidade deixa todos inseguros, principalmente os caminhoneiros, pois eles continuam cobrando uma estabilidade nos preços do combustível. Pelo que ficou claro a classe dos caminhoneiros é um elo de ligação entre todos os setores que movimentam o Brasil economicamente. A paralisação surpreendeu a todos, marcou o ano de 2018 e traumatizou os empresários e produtores que tiveram prejuízos incalculáveis. Houve sobreviventes, alguns com sequelas, mas a preocupação continua, e já se ouve falar sobre a possibilidade de uma nova greve. Porém, o Brasil não está preparado para outra paralisação como aquela, e a instabilidade atual tem levado a um clima de tensão.

Recentemente o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc), José Zeferino Pedrozo, publicou um artigo refletindo sobre este período turbulento vivido no Brasil e as lições que devem ser aprendidas. “Em maio completa-se um ano da greve que paralisou o País. Não há nada a comemorar, mas é imperioso extrair as lições desse episódio. A greve não trouxe ganhos nem para os caminhoneiros, nem para a sociedade e nem para o governo. Milhares de empresas quebraram, outras milhares tiveram pesados prejuízos, comunidades inteiras ficaram desabastecidas, hospitais e pacientes viveram situação de risco. Ao fim do primeiro semestre de 2018, o mercado do transporte rodoviário andava desajustado: o estímulo que a Administração anterior havia dado à aquisição de caminhões novos criou um ambiente de mais oferta que demanda. O cenário piorou com a desastrada política de administração de preços da Petrobras que eliminou as margens e inviabilizou a operação do transporte rodoviário, especialmente dos transportadores autônomos e das pequenas empresas. Essa situação aliada à dificuldade do governo em compreender a extensão e a gravidade do problema gerou as variáveis imprevisíveis de uma tempestade perfeita”, iniciou Zeferino

Em Campos Novos, após um mês da greve, o jornal “O Celeiro” conversou com algumas cooperativas, e comprovou-se que, de fato, elas viveram dias difíceis nos quais foram registrados grandes prejuízos. Os animais sofreram sem alimentação, milhões de litros de leite foram desperdiçados, os preços do frete ficaram exorbitantes. Os diretores das cooperativas relataram um período sombrio e desastroso que concordam com as palavras proferidas por Zeferino. Não apenas o agronegócio sofreu, mas todas as empresas, pois a paralisação gerou um efeito cascata que afetou todos os segmentos. O cenário vivido há um ano atrás foi lamentável, mas verificamos que poucas mudanças governamentais ocorreram, uma nova greve só deixaria ainda pior os problemas do brasileiro, por isso Zeferino analisou sobre a atual condição em que o Brasil se encontra. “O transporte rodoviário é vital para o pleno funcionamento da economia verde-amarela. A histórica opção pelo rodoviarismo – em detrimento aos demais modais de transporte – colocou o País na dependência das rodovias e, justamente estas, estão em péssimo estado de conservação em quase todas as regiões brasileiras. Essa condição encarece o transporte e eleva o número de acidentes com imensos danos humanos e materiais. Uma nova paralisação seria profundamente deletéria ao Brasil. Para evitá-la é necessária uma interlocução eficiente das categorias dos transportadores (autônomos, empresas, cooperativas) com o Governo e com a sociedade. Sensatez e disposição para o diálogo são o que se exige de todas as partes. O País tem problemas graves para enfrentar, a começar pelas deficiências infraestruturais em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos e armazéns, além das dificuldades para o suprimento de energia elétrica em muitas regiões brasileiras. O agronegócio espera que o bom-senso e os superiores interesses da Nação predominem e que, através do diálogo, sejam construídas as soluções para as demandas do segmento do transporte em sintonia com os desejos e necessidades nacionais”, ponderou.

O Sócio Administrador do Posto Coelho, James Lenzi, diz que mesmo após um ano as consequências da greve ainda são sentidas, e que mesmo após a manifestação, os impostos continuam a crescer, e por isso não descarta a possibilidade de uma nova paralisação mesmo sabendo que isso seria prejudicial. “Não imaginávamos que ela atingiria tamanha proporção e força, mas, infelizmente os resultados alcançados duraram pouco e não resolveram em nada a situação da classe. No Brasil, qualquer detalhe é motivo para aumento de preços. Após um ano de greve, os preços não voltaram para o patamar inicial pré greve, mas, se observarmos o preço do Diesel, este está acima do preço antes do início do movimento. Não vemos com bons olhos uma nova paralisação, mas entendemos que o governo deve dar a devida atenção ao setor que movimenta o País. De nada servem supersafras se ninguém tiver condições de transportá-las. Necessitamos urgentemente não só da reforma da previdência, mas de uma reforma tributária que permita ao empresário crescer, gerar empregos e reinvestir nos negócios. Hoje a população brasileira paga nada menos do que o dobro do que deveria pelo seu combustível. Em Santa Catarina se cobra 30% de ICMS, 16% de CIDE, 5% de PIS/PASEP e COFINS. Acredito ser necessária a redução urgente destes impostos”, comentou.

O que está sendo feito?

oltaram a discutir e defender com as autoridades competentes para que a Petrobras reajuste o preço do óleo diesel com menos frequência. Aconteceu, no ultimo dia 8 deste mês, uma Audiência Pública, na Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados, no qual participaram representantes da categoria que afirmaram que a oscilação dos preços tem inviabilizado a definição do valor do frete cobrado prejudicando os caminhoneiros autônomos e as transportadoras. “Não temos a capacidade técnica de suportar aumento de preços diários, quinzenais ou mesmo mensais”, disse o presidente da Confederação Nacional do Transportes (CNT), Vander Francisco Costa, ao apresentar a sugestão da entidade que representa as empresas de transporte de carga. “Nossa proposta é que as variações de preços que acompanham o mercado internacional sejam feitas com intervalo mínimo de 90 dias. A Petrobras tem condições de fazer isso sem alterar sua política de preços”, afirmou Costa, lembrando que a própria Petrobras, como contratante do transporte rodoviário, é prejudicada pela falta de previsibilidade que tende a prejudicar os caminhoneiros ou encarecer o frete.

O presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, criticou os frequentes aumentos do óleo diesel e o descumprimento da tabela mínima de frete. A política do frete mínimo foi uma das reivindicações dos caminhoneiros que paralisaram as estradas de todo o país em maio de 2018. A Lei 13.703, de agosto do ano passado, estabelece que os pisos mínimos de frete deverão refletir os custos operacionais totais do transporte, definidos e divulgados nos termos da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), com priorização dos custos referentes ao óleo diesel e aos pedágios. O que, segundo Fonseca, está sendo descumprido.

Diumar Bueno, presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), reforçou que a crescente insatisfação dos caminhoneiros autônomos pode resultar em uma nova crise. “É preciso uma definição, ações diretas para o problema do óleo diesel. Ou acabaremos de forma calamitosa. E já estamos muito próximos do que aconteceu no ano passado, daquela situação estagnante. “Já no ano passado, quando defendemos a tabela de frete, falávamos da regulação transparente, lógica, de um piso mínimo de frete. O atual governo reconhece que a indústria e o agronegócio estão pagando muito pelo frete, enquanto os caminhoneiros estão recebendo pouco. Isso é resultado da falta de regulamentação. A partir do estabelecimento do piso mínimo de frete, o caminhoneiro vai poder usufruir do livre mercado, podendo estabelecer sua margem de lucro”, afirmou.

O secretário executivo do Ministério da Infraestrutura, Marcelo Sampaio, assegurou que o Governo Federal vem procurando dialogar com os representantes do setor a fim de elaborar políticas públicas que assegurem a sustentabilidade da atividade. Sampaio disse que a questão da tabela de frete está sendo “revista” com a “ampla participação das categorias”. O secretário executivo afirmou que o governo vem atuando para reduzir a burocracia e aperfeiçoar a regulamentação das várias atividades envolvidas no setor.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1578 de 16 de maio de 2019.

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