Caqui Maduro

Lembro-me ainda com a memória fresca, não faz muito tempo, era rádio, televisão, jornais… anunciando uma pandemia. Até nos bolinhos de gente na rua o assunto sobressaia.

Algo novo, mesclando sentimentos de terror, medo e incerteza. Estamos todos fechados em casas, muitos de nós sem trabalhar, sem poder conversar, abraçar amigos, a impressão que dá é que todos temos medo de se tocar. Mas dá pra falar. Ufa! Estamos na era digital. A tá!

E o tempo passa, mas não passa. Isso confunde muitas vezes. E ouço… e leio… e gritam… O maior medo é perder, perder dinheiro, perder o ano na escola, perder a formatura, e perder… e perder…e perder.

E a rotina se torna maçante, estamos dividindo espaço, as crianças desarrumando tudo, parece que as regras não funcionam mais. E como essa gente come!? E meu aniversário sem comemoração!? Senhor me ajuda!!! E essa pia está cheia de louça novamente!? E assim seguimos…

Resolvi fechar os olhos, desacelerar meu pensamento por um instante, sair de sintonia. Respirei fundo na tentativa de manter o equilíbrio e foi então que lembrei da caixa. Corri, peguei-a no armário, coloquei-a no meu colo e abri. Estavam todos maduros, brilhantes, apetitosos, era um tom avermelhado, até difícil de explicar.

Foi então que… fechei novamente os olhos e pensei…o que estamos vivendo agora esses caquis já viveram. Eles foram tirados do pé como nós fomos orientados a sair do convívio social, eles foram fechados dentro de uma caixa como nós estamos dentro de nossas casas. Ficaram todos no escuro, apertados, disputando espaço, como nós estamos buscando nos ajustar dentro de nossos lares.

Mas agora… abri a caixa e me deparei com essa maravilha, frutos lindos, maduros, “prontos” para degustação. Que tal? Usar esse tempo pra brincar mais, abraçar mais, fazer rodas de conversas, contar histórias do passado, planejar o futuro, mesmo que inserto. Verão ao final…quando sairmos da ”caixa” que estaremos “prontos” pra enfrentar obstáculos de forma diferente, pra ver com mais amor quem ficou próximo de nós, perceber finalmente que estamos “maduros” e prontos pra ver que nada se perdeu.

Por: Joana Becker
Chef de Cozinha

*Artigo publicado no jornal ‘O Celeiro’, edição 1623 de 30 de abril de 2020.

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