Apoio, incentivo e o exemplo de outras tem motivado as mulheres a quebrarem a cultura do silencioso diante dos casos de violência doméstica.
A violência contra a mulher sempre existiu, porém, os agressores de plantão sempre se sentiram muito seguros por saber que a opressão permaneceria entre quatro paredes, e mesmo que alguém ouvisse qualquer sinal suspeito, ninguém jamais faria nada, afinal ‘em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher’. Esta ideia foi respeitada durante longos anos, no entanto em tempos atuais a mente da sociedade vem se abrindo e a premissa vem sendo o contrário: presenciou algum tipo de violência, denuncie, ajude, interrompa. Apesar de todo os fatores envolvidos no contexto que levaram muitas a se calarem, em anos recentes algumas mulheres têm dado o exemplo em tomar a iniciativa de falar, pedir ajuda e denunciar os agressores. A coragem de algumas mulheres em denunciar pode exercer uma influência grande naquelas que estão aprisionadas ao medo.
A Policia Civil e Militar trabalham para ajudar, apoiar e proteger esta mulher, que certamente precisa de ajuda tanto para identificar situações de violência quanto para sair delas. O jornal ‘O Celeiro’, entrevistou a sargento Kátia Kunen Tragancin, da Polícia Militar e a psicóloga Barbara Redante, da Polícia Civil afim de desmistificar, esclarecer e incentivar as mulheres camponovenses a quebrar a cultura e o ciclo de violência ainda existente. Falar, debater e divulgar este tema é uma forma de alertar cada vez mais mulheres de que é possível cessar as agressões que afetam fortemente o físico e o emocional delas, que após tanto sofrimento, deixam de perceber seu real valor perante a vida.

A sargento Kátia, também responsável pelo Programa Preventivo Rede Catarina da 3° Companhia da Polícia Militar, relata que a violência não se dá apenas do companheiro contra a mulher, há medidas protetivas também em desfavor da cunhada, em desfavor do filho, “desde que seja no âmbito família”, pode ocorrer a violência contra a mulher. Porém, segundo Kátia, é entre marido e mulher as principais ocorrências. O trabalho feito pelos órgãos de Polícia é na tentativa de cessar as agressões, o que justifica os programas voltados a mulher, como exemplo, a Rede Catarina. Outro fato que necessita destaque são as formas de violência, quais são elas?
Conheça algumas formas de violência contra a mulher:
- Física: Conduta que ofende a integridade ou saúde corporal.
- Psicológica: Conduta que causa dano emocional e diminuição da autoestima ou que prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir
- Sexual: Conduta que constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos.
- Patrimonial: Conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;
- Moral: Conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
O ciclo da violência
A psicóloga Barbara Redante faz o primeiro atendimento na Delegacia da Polícia Civil as mulheres agredidas. No caso das agressões cometidas pelos companheiros, Barbara percebe que muitas estão presas num ciclo vicioso na relação. De que trata este ciclo? Ela explica as três fases vividas pelas mulheres que sofrem agressão de seus companheiros.
- 1- Fase da tensão: Eles discutem, há muitos conflitos entre o casal.
- 2- Fase da Explosão: Ameaça, humilhação ou a agressão física. Geralmente é nesta fase que a mulher busca ajuda.
- 3- Fase do Arrependimento: O homem promete mudar, se torna carinhoso e fica tudo maravilhoso. Ele muda e melhora o comportamento, mas, na maioria das vezes, ele volta a se tornar violento.
E assim o ciclo se repete continuamente. Segundo a psicóloga há mulheres que vem a delegacia repetidas vezes e não conseguem romper este círculo.
As mulheres que vivem esta triste realidade precisam de apoio e ajuda. A luta pelo fim da violência está no começo.. “Existe uma mudança, mas ainda muito sutil. A polícia trabalha para que este silêncio acabe. A nossa preocupação é com as mulheres que ainda não vieram aqui e procuraram ajuda. Ainda há muito trabalho pela frente. O medo ainda paralisa muitas mulheres de quebrar o silêncio. O medo do agressor, o sentimento, a família, a condição econômica são fatores que pesam na hora de a mulher fazer a denúncia”, destaca Kátia. “O atendimento psicológico é muito importante para esta mulher, ela precisa estar aberta a isso. Quanto mais conhecimento levarmos para as pessoas, mais chegaremos as mulheres. A difusão de informações e de lugares para a mulher buscar apoio tem sido um avanço. Hoje a mulher pode fazer uma denúncia de casa através do site. Esta denúncia pode ter um efeito pedagógico que serve de alerta para que os homens entendam que estão sendo observados”, reforça Barbara.

O silêncio, os ciclos de violência, o medo e a omissão precisam ser combatidos. As mulheres precisam ter certeza de que elas não estão sozinhas. Sociedade e Poder Público devem trabalhar juntos para prestar auxílio para as mulheres que precisam. Na última sexta-feira (23) foi inaugurada em Campos Novos a Procuradoria Especial da Mulher, localizada na Câmara Municipal de Vereadores. O espaço está aberto para receber mulheres que estão em situação de vulnerabilidade para direciona-las em busca de uma vida mais digna. O jornal O Celeiro está engajado nesta causa para alertar e dar voz a todas as mulheres. Mulheres, nunca se calem, vocês não estão sozinhas.
*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1687 de 29 de julho de 2021.






