Qual a relação entre saúde mental e a alimentação?

Quais os reflexos da boa alimentação: Médico diz que ela é vital para quem busca qualidade de vida.

A.M.C tem 15 anos e foi diagnosticado com depressão profunda. Vários encaminhamentos foram feitos, mas antes de indicar um tratamento medicamentoso, o médico foi categórico ao indicar uma alimentação saudável ao paciente. “Evite açúcar e refrigerante. Coma muitas frutas e legumes. A alimentação tem forte impacto sobre nós”, afirmou.

Neste janeiro, mais uma campanha de saúde mental vem para alertar. A escolha do ‘Janeiro Branco’ se deu porque neste mês as pessoas estão mais reflexivas. Portanto, além de estarem dispostas a refletir sobre a vida, é o momento de colocar em prática mudanças significativas que contribuirão para a saúde do corpo e da mente.

Nos últimos meses, devido as crises em saúde, instabilidade financeira e uma onda de problemas ocasionados pela pandemia, a saúde mental foi posta em xeque. Para lidar com problemas emocionais, uma série de fatores devem ser considerados, como terapia, tratamentos medicamentos e um estilo de vida saudável. A alimentação é um dos fatores determinantes na busca da qualidade de vida. Hipócrates, considerado o pai da medicina, afirmou que ‘somos o que comemos’, isso faz sentido para você? Há algum tempo, os médicos vêm avisando que o estilo de vida moderno tende a causar sérios danos ao organismo humano, uma vez que o sedentarismo e a ingestão excessiva de comidas processadas podem ocasionar diversas doenças graves. Qual a relação entre saúde mental e a alimentação?

Dr. Clinton Ko Freitag

Médico de saúde mental e grande estudioso na área da medicina integrativa, Dr. Clinton Ko Freitag defende a boa alimentação como fator de prevenção de muitas doenças, inclusive as doenças emocionais. A mente é complexa, mas as pesquisas tem resultado em importantes descobertas e há evidencias de que a nutrição tem implicação na incidência de distúrbios neurológicos e psiquiátricos. Dr. Clinton citou a Medicina Funcional ou Integrativa como uma área que está interessada na prevenção, fato que pode ser alcançado através do cuidado com o que ingerimos. “É muito importante cuidar da nossa alimentação. Temos muitas deficiências de vitaminas. Ao me dedicar aos estudos sobre saúde, eu quebrei alguns paradigmas. Na faculdade não estudamos sobre nutrição de forma profunda. A nutrição é a base de tudo”, diz o médico.

Que cuidados devemos ter e por quê? Dr. Clinton enfatiza os alimentos industrializados e os derivados de açúcar que são um dos principais inimigos da saúde. Sem entrar nas questões de sobrepeso, a má alimentação pode trazer prejuízos também a longo prazo. “O aumento da alimentação industrializada e processada gera muitas doenças crônicas, inclusive doenças mentais. Esses alimentos são cheios de produtos químicos, conservantes e uma série de componentes que garantem a durabilidade do produto. A Medicina Integrativa ou Funcional critica este tipo de alimentação e afirma que o melhor alimento é o que apodrece e não aquele que dura meses. Esses produtos são causadores de inflamação crônica no corpo, e muitas doenças estão ligadas a isso, inclusive a depressão. Hoje sabemos que a maioria das doenças tem um componente inflamatório crônico, incluindo inflamações subclínicas, aquelas que não sentimos nada, mas elas estão no organismo e a médio e longo prazo podem causar doenças degenerativas. Há vários estudos médicos que comprovam essa tese”, declarou.

Pobres em nutrientes e vitaminas, alguns alimentos saciam a fome, mas não compensam a real necessidade do organismo. A deficiência de algumas substâncias, como as vitaminas, pode ser bastante nociva. A falta de B12 está ligada à fadiga, letargia e até à psicose, enquanto baixos níveis de niacina estão relacionados com os quadros de demência, e pouco ácido fólico pode predispor a malformações neurais em fetos e depressão em adultos. Pesquisas mostram que alguns nutrientes conseguem auxiliar em atividades neuroquímicas, reduzindo assim as chances ou minimizando os efeitos de alguns transtornos mentais. Entre os componentes mais estudados, podemos citar o ômega 3, zinco, magnésio, selênio, a vitamina D, complexo B, os polifenóis, aminoácidos e muito mais. O conhecimento sobre o tema pode abrir os olhos sobre a importância de escolhas responsáveis.

A cultura alimentar geralmente é passada de pais para filhos. Acostumados a comer mal desde crianças, na fase adulta é mais difícil largar os maus hábitos. Para promover desde já um estilo de vida saudável, Dr. Clinton recomenda aos pais que cuidam bem da alimentação dos filhos como forma de prevenir doenças. “Alguns adolescentes vêm apresentado problemas emocionais como depressão. O estilo de vida que os pais permitem pode desencadear problemas neste jovem. Em todas as consultas eu indico que as pessoas evitem os derivados de açúcar, como refrigerantes, bolachas doces, etc. Foi descoberto que o excesso de derivados de açúcar prejudica a parte emocional. Os pais devem incentivar os filhos a gostar de frutas, verduras, legumes e a evitar o excesso de industrializados”, aconselha.

Além da boa alimentação, Dr. Clinton lista outras atividades que contribuem com o bem-estar e saúde. “Hoje, muitos adolescentes vivem no celular, isso causa um prejuízo em sua vida. Antes os jovens brincavam e se movimentavam. Os pais precisam ajudar os filhos a manter o equilíbrio e estabelecer um horário para que eles tenham acesso a essas tecnologias, pois isso pode aumentar os distúrbios mentais entre adolescentes e crianças. Um estilo de vida saudável muda a vida das pessoas para melhor, tanto para adultos, quanto para adolescentes. Tenho observado que os que praticam técnicas de relaxamento, cuidam da alimentação, dormem bem e fazem atividade física apresentam melhora. Quando necessário a psicoterapia também ajuda na busca por saúde da mente e do corpo”, conclui.

*Reportagem publicada no jornal ‘O Celeiro’, Edição 1713 de 27 de janeiro de 2022.

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